Antes, a Fazenda Roseira era a última gleba verde daquela região superpopulosa. Os moradores dos bairros Jardim Ipaussurama e da Vila Perseu Leite de Barros, na região Oeste de Campinas, reclamavam que a área permanecia abandonada, e o mato alto servia de esconderijo para bandidos. Ao longo do ano passado, o trecho foi urbanizado: os tratores abriram ruas, que foram asfaltadas e sinalizadas. Acontece que o novíssimo Residencial Parque da Fazenda ainda não é habitado, e permanece isolado pela Prefeitura. Para evitar o tráfego de veículos, todos os acessos ao loteamento foram fechados por imensas manilhas de concreto.
Foi uma forma de evitar que as novas vias pudessem se transformar em pistas de racha ou em rotas de fuga para bandos que agiam nos bairros ao redor. No entanto, os obstáculos se tornaram dor de cabeça para os moradores.
Todas as ruas do Ipaussurama, bloqueadas no limite com o loteamento, se transformaram em becos. O caminhão da Tecam, por exemplo, que faz a coleta do lixo na área habitada, é obrigado a entrar de ré em algumas quadras para ter acesso às lixeiras, na frente das casas. Como o trânsito é interrompido, as viaturas da polícia não fazem ronda.
Todo o fluxo de veículos entra e sai do bairro pelas duas únicas alternativas: a movimentada Avenida John Boyd Dunlop (acesso obrigatório ao Campo Grande e à região central) e a Rua Júlio Tim (que contorna a antiga fazenda para dar acesso ao Parque Tropical e à Vila Perseu Leite de Barros). O trecho de um bairro a outro, que de carro se poderia fazer em cinco minutos, dura quase 20. Mas o tempo perdido não é a principal queixa. As manilhas gigantes se tornam uma ameaça à segurança pública.
A dona de casa Áurea Vieira, por exemplo, que se mudou há dez anos para o Ipaussurama, conta que os obstáculos tornam as quadras sem trânsito pontos de desmanche de veículos roubados ou práticas de crimes sexuais. “A gente ouve gritos, discussão. A calçada vira um perigo de madrugada. E não adianta chamar a polícia. A viatura demora muito para dar a volta no bairro todo e chegar até aqui”, diz.
Também há moradores que denunciam o uso das manilhas de concreto como guetos de consumo de drogas. Odete Baldani, que mora há 37 anos na quadra final da Rua Paulo Altmann, diz que a molecada entorpecida se esparrama na calçada a qualquer hora, e os moradores têm medo até de buscar cartas na caixinha dos correios. “Cada vez que saio no portão, tem gente diferente na rua. Tacam fogo, jogam lixo dentro das manilhas, fazem bagunça. E o povo não sabe a quem pedir ajuda”, reclama.
Salva Santana, que vive há 32 anos no bairro, teve de pedir uma poda radical na árvore da calçada, pertinho de sua casa, porque os galhos serviam de atalho para bandido pular muro e saquear residências. Ela, que teve a própria casa invadida, foi obrigada a instalar cerca elétrica e encher o quintal com cães barulhentos. “Dá medo viver assim. Bastava tirar essas manilhas horríveis da rua e permitir as rondas da polícia, da guarda municipal”, reclama.
Direito básico
Maria dos Santos Ferreira, moradora da Rua Lourenço Zen, trabalhou no passado como representante de uma antiga associação de moradores locais. Ela conta que só conseguiu conversar com o prefeito uma única vez. Maria esteve com o cassado Hélio de Oliveira Santos (PDT) para negociar a doação de um terreno do município para a construção de equipamento público. Nem deram bola. O terreno continuou lá, tomado pelo mato. Agora, afirma, a Administração tira dos moradores o simples direito de ir e vir. “Para buscar meu neto, na creche da Vila Perseu Leite de Barros, o meu marido tem de dar a volta imensa com o carro, passando pelas únicas vias liberadas. Se eu fosse pela minha rua, ia estar na escolinha em três minutos. Mas, por aqui, só se passa a pé.”
Há situações em que os próprios moradores tomaram a liberdade de usar máquinas e arrastar os obstáculos de concreto, liberando pelo menos a passagem dos carros de passeio. E quem precisa das ruas liberadas para trabalhar aprovou.
Caso do motorista autônomo Mário Ribeiro, que mora no bairro, mas circula pela cidade toda para fazer entrega de equipamentos eletrônicos. “Cada vez que saio de casa, demoro uma vida só para sair do bairro. Nos horários de rush, a John Boyd vira um tormento. É perigoso, congestionado, insuportável. Usando o atalho entre as manilhas, já saio lá na Perseu, no Roseira, no Tropical”, disse, abordado pela reportagem depois de passar com a van pelo “vãozinho” entre as manilhas colocadas no final da Rua João Batista Gargantini.