A história de Núbia Queze da Silva, de 23 anos, contraria todas as estatísticas. Ela foi esfaqueada pelo marido na nuca, sofreu uma lesão na medula cervical que a deixou tetraplégica e sobreviveu. Internada no Hospital Municipal Mário Gatti, enfrentou várias infecções e saiu vitoriosa. É a segunda pessoa a ser submetida a um procedimento cirúrgico raríssimo no mundo inteiro. E agora conseguiu por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) um equipamento portátil de última geração (Bi Level Positive Airway Pressure - Bipap), que permitirá que ela volte para casa. “São raros os casos de pacientes que sobrevivem a lesões como essa e que conseguem passar por essas infecções. E ela também conseguiu outra coisa rara, que é obter esse aparelho (que a ajuda a respirar) para poder voltar para casa”, explicou o neurocirurgião residente Bruno Bogéa, que a acompanha desde a sua internação.
Núbia tinha tudo para desistir da vida. Perdeu todos os movimentos dos braços e pernas, passou por uma traqueostomia e respira por meio de aparelhos. Quando foi internada, descobriu que estava grávida de semanas e perdeu o bebê. Ela vive em uma cama de hospital há cinco meses, mas vibra com cada pequena vitória, como conseguir ficar sentada em uma poltrona por mais de uma hora, sentir a dor de uma injeção no pé ou o toque de uma mão na sua perna. “Eu tenho muita esperança de recuperar os movimentos e até de voltar a andar”, diz, sorridente.
Sua motivação é o filho Vinícius, de 4 anos. Núbia quer ir para casa para voltar a ser mãe. As visitas do pequeno ao hospital foram raras nesse tempo. “Quero ficar com o meu filho, brincar com ele e ser mãe”, diz ela. Apesar de estar conectada a uma máquina, a moça já planeja passeios. “O equipamento tem uma bateria que dura sete horas, posso passear se eu quiser”, festeja.
Ela vai morar com a mãe e a irmã e demanda cuidados intensivos. Para ficar bem acomodada em casa, a família de Núbia precisa comprar uma cadeira de rodas com apoio para a cabeça. “Ainda não temos o dinheiro, meu tio está pesquisando o preço em São Paulo, onde é mais barato”, contou. Ela ainda será acompanhada por uma equipe de médicos, psicólogos, fisioterapeutas e nutricionista e terá que fazer consultas com a equipe de neurologia do Mário Gatti. “Treinamos a família da Nubia para usar o equipamento e ensinamos primeiros-socorros para o caso de uma emergência”, explicou.
Apesar da vontade de ir para a casa, a moça conta que irá sentir muita falta da equipe de médicos, enfermeiros e fisioterapeutas do hospital. “Eles me acolheram de forma carinhosa e cuidaram de mim como quem cuida de uma filha”, disse.
Inovação
A lesão sofrida pela moça paralisa todos os músculos, inclusive o diafragma, que permite respirar sem ajuda de aparelhos. A equipe de neurocirurgiões comandada por Yvens Fernandes decidiu usar uma técnica inovadora para tentar melhorar o seu quadro. Ela tem movimentos no ombro e pescoço e os médicos decidiram fazer uma neurorrafia, cirurgia que conecta o nervo acessório, responsável pelo movimento do pescoço e do ombro, com o nervo frênico, que permite a movimentação do diafragma.
A cirurgia inovadora pode vir a permitir que a moça respire sem ajuda de aparelhos. O neurocirurgião Bruno Bogéa diz que ainda é cedo para saber se a cirurgia alcançará o seu objetivo. Mas em se tratando de Núbia, as estatísticas não se aplicam.