Os alimentos chegam às casas dos clientes em cestas, com o conteúdo delicadamente arrumado e como se o consumidor tivesse feito a feira naquele dia. Nos sítios, as pessoas trocam conhecimentos e produtos, além de difundirem hábitos de vida saudável, respeito ao meio ambiente, agricultura orgânica e empreendedorismo. Há seis anos, o projeto Família Orgânica congrega produtores rurais da região de Campinas preocupados com o futuro do planeta, a qualidade de vida da população e o desenvolvimento sustentável.
A iniciativa surgiu como parte de uma nostalgia. O ex-professor de história e filosofia Dercílio Aristeu Pupin nasceu num sítio em Santa Fé do Sul, no Noroeste Paulista, na divisa com o Mato Grosso do Sul. Moleque, aprendeu a brincar com o que se tinha na roça e a comer o que se plantava e colhia nos arredores de casa, respeitando os períodos do ano e as características de cada planta. Conheceu a luz elétrica aos 11 anos e, depois de adulto e já trabalhando em Campinas como educador, decidiu comprar um sítio próximo a Jaguariúna para permitir que os filhos tivessem algumas experiências semelhantes à dele.
“Quando comecei a produzir frutas, legumes e hortaliças no meu sítio, as pessoas com quem eu convivia na cidade começaram a pedir que eu levasse parte da produção para elas. Surgia, inclusive, o interesse em comprar os produtos”, lembra-se. A partir daí, Pupin largou o giz e os livros para retomar as sementes e o trato com a terra. “Percebi que havia uma demanda muito grande por produtos saudáveis, livres de agrotóxicos e decidi investir nesse mercado”, explica.
Para fortalecer os negócios e conseguir atender grupos maiores de clientes, Pupin decidiu fundar a Família Orgânica, que funciona como uma associação de 20 produtores orgânicos da região de Campinas. A cada semana, na segunda-feira, os agricultores enviam para Pupin, pela internet, o que têm de produtos disponíveis para aquela semana. Os clientes cadastrados recebem, por e-mail, uma lista de hortaliças, frutas e legumes que podem ser comprados. Na quarta, os pedidos são contabilizados e as cestas são feitas para serem entregues na quinta, no local escolhido pelo consumidor. “Criamos uma logística em que todo mundo se ajuda”, explica o ex-professor.
Atualmente, a Família Orgânica comercializa cerca de 200 itens, vendidos quase exclusivamente por meio da internet ou então em três feiras, uma delas em Vinhedo e outras duas em Campinas, no Jardim Guanabara e na Praça do Coco, no distrito de Barão Geraldo. Os clientes, conforme estatística feita pelo próprio grupo de proprietários, são, em cerca de 90% dos casos, pessoas que já tiveram na família algum problema relacionado à saúde, particularmente em relação ao consumo de produtos com agrotóxicos. Como a produção do grupo é pequena, não ultrapassando os 2 mil quilos por mês, a Família Orgânica ainda não entrou no circuito dos supermercados e varejões.
Apesar das várias especificidades do plantio orgânico, a principal diferença é a não utilização de qualquer fertilizante, praguicida, herbicida e adubo industrializado ou sintético. A Família Orgânica, para isso, conta com a assessoria de técnicos em agronomia que acompanham os produtores em todas as etapas. Cada proprietário de sítio participante paga uma margem à Família Orgânica para que ela possa fazer a administração das entregas, ser responsável pela logística e prestar assessoria.
Alternativas
No lugar dos agrotóxicos convencionais, que além de fazer mal à saúde, contaminam solos e lençóis freáticos, entram plantas como o nabo forrageiro (Raphanus sativus L.), que ajuda a fertilizar o solo, e os processos de compostagem, que utilizam restos de podas, frutos e folhas para, misturados com a terra, atuarem como adubo. Entre as medidas, também é preciso ter cuidados como o corte de galhos em períodos corretos e, no caso de algumas frutas mais sensíveis e sujeitas a pragas, como o pêssego e a goiaba, embalar os frutos com papéis para evitar moscas.
Uma das características de uma lavoura orgânica que pode, inclusive, causar má impressão a quem desconhece o sistema, é o crescimento de plantas que poderiam ser consideradas ervas daninhas nos processos tradicionais, mas servem como atrativo para insetos e também para, depois de trituradas, servirem de fertilizantes.
“Uma característica importante é o respeito que temos pelo ciclo de vida da planta. Não temos pêssego para oferecer durante todo o ano, mas, quando temos, por volta de novembro e dezembro, eles são bonitos e saudáveis”, afirma o produtor Joel Barros Carvalho, pertencente à Família Orgânica e que, durante três décadas, foi empresário do setor de plásticos e, nos últimos dois anos, decidiu trocar a vida na Capital pelo cultivo orgânico num sítio no distrito de Joaquim Egídio. Lá, ele produz, além de hortaliças, caqui, banana e maçã.
Para servir de barreira às lavouras e impedir a chegada de resíduos de agrotóxicos utilizados por produtores vizinhos, todo plantio orgânico precisa ter uma barreira verde, formada por árvores plantadas bem próximas umas das outras. Essa é, também, uma das exigências para as certificações oficiais de produção orgânica que todos os integrantes da Família Orgânica possuem ou estão em processo de obtenção.
Para que o solo seja respeitado em suas especificidades, as lavouras orgânicas precisam realizar o rodízio de culturas, ou seja, nunca repetir a plantação de uma espécie por um longo período na mesma área. Até mesmo no caso de pragas e doenças resistentes nos frutos e plantas, a saída é outra: ao invés do uso de remédios químicos, os produtores optam pela homeopatia.
Além da produção e fornecimento dos produtos orgânicos, a Família Orgânica também realiza projetos para turismo rural, baseado em práticas sustentáveis, e oferece cursos de educação ambiental e processos terapêuticos, muitas vezes em parceria com outras instituições e escolas.
Grupo se fortalece com a troca de experiências
A colaboração e a troca de conhecimento entre os produtores rurais são características mais destacadas pelos participantes da Família Orgânica. O auxílio é essencial, principalmente, quando alguém decide integrar o grupo e precisa aprender as técnicas de plantio e, principalmente, ter um planejamento para certificações e os ganhos. “Sempre fui apaixonado por animais e aves. Não é à toa que decidi comprar uma chácara e produzir, além de frutas, galinhas e ovos. Com a minha experiência nesse setor, também consigo ajudar os colegas”, diz o publicitário Carlos de Carvalho, que mantém uma chácara no distrito de Sousas. A produção de galinhas tem sido bastante valorizada no grupo, não só pelos ovos, bastante solicitados pelos consumidores, mas também pelo esterco.
Os clientes percebem a ideia de colaboração. O médico Danilo de Paula já fez várias compras da Família Orgânica. “Os produtos são muito bons e a gente percebe um cuidado personalizado. Não sou tratado meramente como um consumidor e parece que a escolha de cada fruta ou legume é feita por alguém da minha casa”, explica.
O preço dos produtos, por outro lado, é maior que o encontrado em supermercados, mas, como afirma o produtor Dercílio Aristeu Pupin, a matemática da Família Orgânica é outra: “Quando alguém consome um produto nosso, está colaborando com a preservação de nascentes e solos, além de estar cuidando da própria saúde. Qual o preço disso tudo?”, defende. (FO/AAN)