Fabiano Ormaneze
ESPECIAL PARA A AGÊNCIA ANHANGUERA
fabiano.ormaneze@rac.com.br
Do alto, imponente, a torre da Igreja São José, na Vila Industrial, parece ser um prenúncio de bênção para quem trabalha do outro lado, na Avenida Faria Lima. Mas é assim que muitos ali, de fato, se sentem: abençoados. Batizada com o nome de outro santo, a Cooperativa São Bernardo, há nove anos, dá o sustento para famílias, ensina, ajuda a diminuir o preconceito em relação ao catador de recicláveis nas ruas e colabora com o meio ambiente. “Cheguei faz pouco tempo, mas já estou sentido que é uma bênção”, diz a cooperada Tatiana Aparecida Peres.
A São Bernardo surgiu, assim como várias outras cooperativas da cidade, por meio de um incentivo da Prefeitura de Campinas. Em 2002, o Departamento de Limpeza Urbana (DLU) organizou uma série de palestras e cursos para profissionalizar catadores de materiais recicláveis que trabalhavam na rua e incentivar a formação de cooperativas. “Participei e, junto com outras 25 pessoas, fundei a cooperativa, com gente vinda de vários bairros”, conta a atual presidente, Maria do Carmo Guedes Fahl. Antes de ingressar na São
Bernardo, ela recolheu materiais pelas ruas durante cinco anos, após perder o emprego como balconista.
A cooperativa fica localizada num espaço dentro da sede do DLU. Para lá, são levadas recicláveis coletados pela empresa contratada pela Prefeitura em bairros como Nova Campinas, Vila Georgina e Vila Marieta. A maioria do material vem de residências. Atualmente, 21 pessoas estão ligadas à cooperativa e é delas o trabalho diário de separar manualmente o material por tipo e, depois, realizar a prensa, para que tudo fique em fardos, como será encaminhado à indústria para o reaproveitamento. A negociação com as empresas compradoras é feita por uma central, a Reciclamp, que congrega várias cooperativas da cidade.
Atualmente, o que mais tem trazido lucros é a venda de papéis, mas, em certos períodos, de acordo com o que chega à cooperativa, já foi possível encaminhar para a reciclagem grandes quantidades de isopor — material altamente poluente — e também alumínio, o mais caro dos produtos que passam por lá, mas, nos últimos tempos, responsável por pouco mais de 1% de tudo o que é recolhido na coleta seletiva de Campinas.
Com o dinheiro das vendas, é feito um depósito para um fundo de reserva, destinado a custos não previstos, como o conserto de alguma máquina ou mesmo cursos de capacitação. O que sobra é dividido entre os cooperados. Cada um consegue levar para casa cerca de R$ 650,00 mensais, o que representa até 30% mais do que um catador conseguiria trabalhando por conta própria nas ruas. Além disso, todos os cooperados contribuem com a Previdência.
Todos os meses, deixam de ir para os aterros sanitários e podem ser reciclados por causa do trabalho da cooperativa, cerca de 46 toneladas de materiais. Esse valor poderia ser ainda 30% maior, se parte do que chegasse à São Bernardo não estivesse, como dizem os cooperados, “contaminada”. É que muitas pessoas, mesmo ao separarem o lixo, ainda jogam, por exemplo, pó de café sobre papéis ou deixam algum resquício de material orgânico. “Se um papel chega aqui sujo de comida, óleo de cozinha ou de qualquer material orgânico, ele não consegue ser reaproveitado e precisa ir para o aterro, pois não dá para reciclá-lo”, explica Maria do Carmo.
Além disso, para melhorar as condições de trabalho dos cooperados, outra dica importante para quem separa o lixo em casa é que ele seja guardado limpo, sem restos de alimentos, principalmente as caixas de leite ou os enlatados. “Esses materiais ficam com mau cheiro e isso dificulta o nosso trabalho e a organização por aqui”, explica a coordenadora da cooperativa, Laura Novais de Souza Cosmos, também uma das fundadoras.
Qualificação
Os cooperados passam, frequentemente, por cursos de qualificação, de modo a identificar cada um dos materiais, separar todos os tipos de plásticos e papéis, e também para aprender a gerir a cooperativa. Laura, por exemplo, se orgulha de dizer que conseguiu terminar o Ensino Médio e hoje cuida da contabilidade e administração da São Bernardo. “Com essa experiência, tenho certeza de que, hoje, se fosse necessário, eu conseguiria cuidar de uma pequena empresa”, diz. Outra lembrança boa da cooperada é o fato de já ter ido fazer cursos e participar de encontros de cooperativas em várias cidades, como Rio de Janeiro e Brasília, com pessoas do Brasil todo.
Antes de trabalhar como catadora pelas ruas, Laura, moradora do Parque Oziel, vendia guardanapos e doces nos semáforos. “Mas, com a chegada das lojas de R$ 1,99, esse serviço ficou muito complicado, pois não dá para competir nos preços”, explica.
Além de moradores do Oziel, a cooperativa envolve pessoas vindas do São Bernardo, do São José, da região Campo Grande e do Matão, entre outros bairros.
Cooperados enumeram vantagens
Além da contribuição para o meio ambiente, a melhoria das condições de vida e trabalho dos cooperados é nítida. “Trabalhar numa cooperativa tem muitas vantagens. Aqui, por exemplo, a gente nunca perde um dia de trabalho porque está chovendo. Se eu fosse catar material na rua, dependeria sempre do tempo. Aqui, não”, explica a cooperada e atual presidente da Cooperativa São Bernardo, Maria do Carmo Guedes Fahl.
A cooperada Tatiana Aparecida Peres destaca que, antes de ingressar na cooperativa, já tinha passado por várias humilhações nas ruas. “Nem todo mundo entende que ser catador é também uma forma de trabalho e que, para muita gente, é a única maneira de sobreviver. Aqui, não tem isso. A gente trabalha, ganha o nosso dinheiro e não precisa passar por humilhação de ter que pedir o que todo mundo considera lixo, mesmo não sendo”, afirma.
Ex-funcionário de uma transportadora, João Antonio Guerino passou vários anos desempregado. Desde 2002, está na cooperativa. “As vantagens são muitas. A gente sabe que, ao final do mês, vai ter uma renda garantida, além de estar contribuindo com o meio ambiente. Já pensou se não existissem os catadores e as cooperativas? Os lixões iam estar mais cheios do que já estão, além do desperdício que seria”, diz. (FO/AAN).
Brasileiros produzem 1kg de lixo por dia
O aumento do poder aquisitivo do brasileiro e a melhora na economia aumentaram também o volume de lixo produzido no País. Cada brasileiro produz cerca de um quilo de lixo por dia, de acordo com levantamento feito pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Esse dado, relativo a 2010, representa um aumento de 6,8% em relação ao ano anterior e é seis vezes maior do que o índice de crescimento da população brasileira no mesmo período. No Brasil, que representa cerca de 7% da produção mundial de lixo doméstico do mundo, cerca de 80% do material utilizado em casa poderia ser reciclado. Num escritório, esse valor pode chegar a 95%, mas, por enquanto, pouco é reencaminhado para o reaproveitamento. De todo o papel utilizado nos escritórios brasileiros, por exemplo, só cerca de 37% é encaminhado para a reciclagem. No País, de acordo com a organização não governamental (ONG) Ambiente Brasil, cerca de R$ 4,6 bilhões são desperdiçados porque nem tudo o que poderia é encaminhado às alternativas de reaproveitamento. (FO/AAN)
Dicas
Como separar o material reciclado corretamente:
Sempre que for encaminhar vidros, papéis, plásticos e alumínios para a coleta seletiva, faça a separação desses materiais em latões ou sacos de lixo distintos.
Certifique-se sempre que tudo esteja limpo, sem material orgânico e sem restos, que podem, além de prejudicar a qualidade do material, gerar mau cheiro e até mesmo impossibilitar a reciclagem.
Óleo de cozinha, embora orgânico, também pode ser reaproveitado e usado para a produção de biocombustíveis. Para isso, separe-o em embalagens limpas e encaminhe a postos de coleta.
Muitos outros materiais orgânicos, como restos de comida, podem também ser reaproveitados. Uma saída é o uso da compostagem, que transforma esses componentes em adubo, por meio da atuação de minhocas.