Fabiano Ormaneze
Especial para Agência Anhanguera
fabiano.ormaneze@rac.com.br
Se a palavra sustentabilidade está na moda, ela pode perfeitamente “fazer a moda”. Esse pensamento pode resumir a proposta da empresa Eccorretto, localizada no bairro Nova Campinas e que, há dois anos, se dedica a criar peças como bolsas, malas de viagens, sacolas e carteiras de modo ecologicamente correto e, agora, também oferece serviços de consultoria para construções que pretendam ser ambientalmente certificadas, com reutilização de materiais.
Com a criatividade do casal Ricardo Mendes e Andréa Turchetti, cada um vindo de uma área diferente — ele, da economia; ela, da educação física —, a produção consegue ser, em média, de 10 mil sacolas ambientalmente corretas, que vão desde um brinde para uma empresa até uma peça que possa compor o figurino. “Nossa ideia foi que as sacolas pudessem chamar a atenção para a causa ambiental também por serem bonitas e poderem fazer parte do vestuário e do estilo da pessoa. Produzimos, por exemplo, sacolas que combinam com bolsas”, explica Andréa.
A variação está nas cores, estampas, no público a ser atingido (homens, inclusive) e nos propósitos. As peças são vendidas no varejo e no atacado. Um casal chegou a encomendar um lote de sacolas para distribuir como lembrança na festa de casamento. Uma mãe optou por fazer um modelo semelhante a uma mochila, com dizeres de O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, para ser a recordação da festa de aniversário do filho. Outra lojista preferiu fazê-las, além de embalagens, se tornaram um brinde para as clientes. E, agora, as costureiras terminam sacolas encomendadas por um colégio, que as distribuirá como lembrança para o Dia dos Pais. “Buscamos modelos, formatos e cores diferentes, que possam servir a todos os públicos e, assim, ajudar a formar uma cultura de utilização das sacolas retornáveis”, afirma Mendes.
Além das sacolas, produzidas integralmente com algodão, a Eccorretto oferece um modelo que reutiliza garrafas PET ou então que mistura PET, algodão e juta. Também são vendidas bolsas e malas de viagem feitas de lona de caminhão reaproveitada. As peças ganham aparência de requinte quando passam por coloração e recebem bordados. “Cada produto é exclusivo da nossa marca e não se repete. A pessoa tem a certeza de que está levando uma peça personalizada. Isso, obviamente, é um negócio para nós, mas também entendemos que é uma forma de colaborar para a criação do hábito de reutilizar materiais”, ressalta o empresário. Após a criação dos produtos e as encomendas, a Eccorretto encaminha os tecidos e moldes para as costureiras. Ao todo, são 180, espalhadas pela Região Metropolitana de Campinas (RMC). “Nossa proposta é também contribuir para a geração de renda”, diz Mendes.
O empresário lembra que a utilização de sacolas de algodão é ecologicamente mais adequada por vários motivos. O primeiro é a não utilização de material proveniente do petróleo, recurso não renovável e poluidor. Depois, elas utilizam bem menos água na sua produção e são mais resistentes do que as de papel, alternativa apontada por algumas empresas para substituir as sacolinhas de plástico, que devem deixar de ser ofertadas gratuitamente pelos supermercados a partir de janeiro do ano que vem. “Para cada quilo de papel produzido, ainda que ele venha de madeira de reflorestamento, gasta-se 70 litros de água a mais do que para produzir o mesmo tanto de tecido de algodão”, lembra.
Conscientização
A principal dificuldade para o crescimento do uso das sacolas ecológicas ainda é a falta de hábito. Muita gente até já possui uma, mas que acaba esquecida em casa ou no porta-malas. Por isso, a Eccorretto também tem realizado, sempre na última quinta-feira do mês, o Eccohappy, um encontro de final de tarde com cerca de 50 convidados para discutir temas ligados à sustentabilidade. “Dessa forma, estamos ajudando a difundir práticas e juntamos forças”, explica Andréa.
O próximo encontro, no dia 28, vai expandir a discussão sobre sustentabilidade para a inclusão social de pessoas com deficiência. “Queremos ajudar as empresas a entenderem que não basta haver uma lei, mas é preciso criar uma cultura de preservação e respeito. Ao discutirmos inclusão de pessoas com deficiência, estamos tentando ajudá-las a entender a importância social e não apenas legal de suas obrigações”, diz Mendes.
Segundo o empresário, a proposta de conscientização está presente desde o momento da encomenda dos produtos. “Sempre que um cliente nos pede, por exemplo, as sacolas produzidas com garrafas PET, dizemos que, apesar do processo de reaproveitamento do plástico, é preciso pensar que essa camiseta, se descartada incorretamente, vai levar o mesmo poluente para a natureza”, comenta. Até o final deste ano, a empresa pretende expandir os negócios e começar a produzir também uma linha de vestuário sustentável.
Couro ecológico dispensa uso de metais pesados
A Eccorretto também se dedica à produção de peças de couro ecológico, ou seja, que não utilizam o cromo e outros metais pesados no processo de curtimento e pintura. O incentivo ao uso desse material é feito por meio de eventos e pela divulgação de informações. O cromo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) não pode, por suas características cancerígenas, ser superior a 0,05 miligramas para cada litro de água.
Da mesma forma que o convencional, o couro ecológico usa a pele de animais, mas, em vez dos metais poluentes, utiliza para o curtimento os taninos vegetais, substâncias com o mesmo poder, mas com origem em plantas, como o angico-vermelho e o cajueiro, e retirado das cascas das árvores e dos frutos. Isso faz, por exemplo, com que os curtumes, considerados, no passado, grandes problemas para os rios, diminuam a agressão ao meio ambiente.
“Muitos questionam, no caso do uso do couro, o fato de ele ser proveniente de um animal, mas é importante que se diga que a principal razão pela qual se abate um boi é o consumo de carne. O couro é um material secundário, de descarte”, explica o empresário Ricardo Mendes.
Para o consumidor, uma dica importante é a diferença entre o couro ecológico e o sintético. O segundo tipo é mais poluidor, pois utiliza derivados de petróleo. Além disso, já existe uma lei que proíbe a utilização da palavra “couro” para designá-lo. Para evitar que o consumidor seja confundido sobre a origem dos produtos, a Lei 11.211/2005 diz que “é proibido o emprego da palavra couro e suas derivadas para identificar as matérias-primas e artefatos não constituídos de produtos de pele animal”. (FO/AAN)
Serviço orienta obras com foco na preservação
A partir deste mês, a Eccorretto está oferecendo serviços de acompanhamento de obras de construção civil que pretendam ser ambientalmente corretas e certificadas com selos ambientais. A empresa representa, em Campinas, 28 fabricantes de produtos derivados do bambu, de tijolos sem processo de queima e de madeira plástica, alternativa produzida a partir do reaproveitamento do plástico, com resultados de resistência e durabilidade superiores à convencional. Além disso, tem disponível o acompanhamento de engenheiros, arquitetos e mestres de obras. “Decidimos investir nessa frente porque percebemos que há uma tendência de crescimento dessas construções, mas, ao mesmo tempo, uma dificuldade para encontrar materiais e profissionais capacitados”, explica o empresário Ricardo Mendes. As construções sustentáveis, além de utilizarem apenas matéria-prima com origem certificada, têm a preocupação com o reúso de materiais, como é o caso do concreto. “Quando se faz a demolição de um grande prédio, o concreto pode ser reutilizado para o piso de outra construção, o que, inclusive, reduz o custo”, afirma Mendes. A Eccorretto também faz projetos para o reúso de água, além de compensação de carbono e a recuperação de áreas verdes. (FO/AAN)