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Caminho inverso faz do e-lixo matéria-prima


Oxil evita descarte de 5,8 mil toneladas por ano e viabiliza o reaproveitamento pelas indústrias


07/07/2011 - 08h14 . Atualizada em 07/07/2011 - 08h37
Portal RAC    
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O superintendente Marcelo Barraca mostra componentes de equipamentos eletrônicos desmontados
(Foto: Érica Dezonne/AAN)

Fabiano Ormaneze
Especial para Agência Anhanguera de Notícias
fabiano.ormaneze@rac.com.br

Com o na estratégia retórica utilizada no dia a dia, há uma notícia boa e uma ruim para serem comunicadas nesta página. A ruim é que o Brasil é um dos campeões, entre os países em desenvolvimento, na geração em lixo eletrônico no mundo. A boa é que uma empresa, localizada em Paulínia, na Região Metropolitana de Campinas (RMC), é uma das poucas no País a realizar o processo de manufatura reversa em grandes quantidades, o que faz com que componentes de produtos eletrônicos possam voltar a ser matéria-prima e, assim, reaproveitados pela indústria. 

De acordo com o Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Meio Ambiente (Pnuma), o Brasil descarta cerca de 96,8 mil toneladas métricas só de microcomputadores por ano. O volume só é inferior ao montante produzido pela China, com 300 mil toneladas. Mas, se levada em consideração a população, os brasileiros se tornam líderes em resíduos de eletrônicos por pessoa: meio quilo a cada 12 meses. Na China, com população cinco vezes maior, o descarte per capita é de 0,230 quilo. Na Índia, atinge 0,1. Tudo fica mais preocupante quando se sabe que os eletrônicos possuem elementos perigosos para a saúde, como o mercúrio. 

Fundada em 1998 e, desde setembro de 2008, pertencente ao grupo Estre, conjunto de empresas que se dedica ao gerenciamento e destinação de resíduos, a Oxil é a responsável por fazer com que cerca de 5,8 mil toneladas de eletrônicos por ano não sejam descartados indevidamente e possam ter seus componentes reaproveitados. Por isso, faz todo sentido o nome da empresa: Oxil é a palavra “lixo” ao contrário, o que também ajuda a entender o conceito de manufatura reversa, ou seja, o processo de retornar o produto que iria para o lixo novamente ao estágio de matéria-prima. 

Indústrias de eletrônicos como microcomputadores, televisores, geladeiras, micro-ondas e equipamentos de informática de todo o País destinam produtos com defeito, peças não comercializadas ou que foram trocadas pela assistência técnica à Oxil. Lá, tudo é separado e, depois, desmontado. Cada pedaço tem um destino certo: plástico para um lado para ser triturado, peças de metal para outro e placas eletrônicas enviadas para o Japão, onde, por um processo de variação de temperatura, serão separados e extraídos metais preciosos, como ouro, prata e níquel. Por ano, vão para o outro lado do mundo, cerca de 15 toneladas de placas saídas da Oxil. O Brasil ainda não tem tecnologia específica para esse procedimento. 

De tudo o que chega à empresa, muitos produtos ainda na caixa, sem nenhum uso, pouco não consegue se tornar matéria-prima novamente: a quantidade de material que, após passar pelo processo de manufatura reversa, consegue ser reaproveitado, é, em média, de 85%, mas, em alguns casos, principalmente, em equipamentos que ficaram pouco expostos ao sol e estejam bem conservados, esse valor consegue atingir 93%. É o caso, por exemplo, dos computadores. “Geralmente, não conseguem ser reaproveitados vidros e lâmpadas, cuja destinação ambientalmente correta, para aterros regulamentados e de acordo com as exigências ambientais, é feita também pela Oxil”, explica o superintendente da empresa, Marcelo Barraca. 

Dependendo do produto que está sendo desmontado, a Oxil ajuda também a eliminar corretamente grandes poluidores, como é o caso dos antigos refrigeradores, que continham clorofluorcarboneto (CFC), um dos responsáveis pelo buraco na camada de ozônio. Desde sua fundação, cerca de 30 mil geladeiras já foram desmontadas pela Oxil e tiveram suas matérias-primas reaproveitadas.

Desmontagem 

A Oxil tem cem funcionários. Todo o processo de desmontagem dos equipamentos é feito manualmente para garantir a seleção e a separação correta de cada tipo de material. A empresa segue os procedimentos descritos pela Transported Asset Protection Association (Tapa), que normatiza o setor de proteção na indústria de alta tecnologia internacionalmente. Isso garante, por exemplo, que nenhuma parte do produto desmontado voltará ao mercado, mas apenas a matéria-prima que o originou. Tal procedimento é importante, inclusive, para garantir as especificidades de cada produtor e os segredos de produção.
Assim, a empresa auxilia tanto quem tem os equipamentos e precisa destiná-los, como quem necessita de matéria-prima. O processo de manufatura reversa é pago pela indústria que envia, por meio de um contrato, os equipamentos à Oxil. “Esse pagamento garante que o processo seja adequado e correto, com todas as necessidades”, explica Barraca. A desmontagem e descaracterização dos equipamentos só são feitas após a autorização e auditoria da Receita Federal quando se tratam de equipamentos sem uso.
As empresas compradoras da matéria reconquistada ainda não são as mesmas que enviam os equipamentos, mas, de acordo com Barraca, cada vez mais, o mercado tem trazido iniciativas que mostram como é possível produzir qualquer eletrônico usando, por exemplo, o plástico vindo de um equipamento antigo. Além disso, experiências mostram que a manufatura reversa pode ser praticada diversas vezes, até que os componentes não alterem a qualidade da matéria-prima fruta do processo de reversão. 

Polícia Nacional obriga destinação correta

O trabalho da Oxil adianta uma tendência que deverá ser cada vez mais incentivada depois da aprovação, em dezembro do ano passado, da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que gerou discussões e controvérsias durante quase duas décadas.
O Brasil passou a ter uma política equiparada à da Comunidade Europeia e um dos pontos chaves é, justamente, o incentivo à manufatura reversa. 

Pela nova política, a gestão ambiental e a destinação de resíduos passam a ser responsabilidade de todos os setores: governo, sociedade e indústria. “A tendência é que, em alguns anos, a grande quantidade dos produtos em que faremos a manufatura reversa venha dos consumidores”, explica Marcelo Barraca, superintendente da Oxil. Isso deve ocorrer porque as empresas se tornarão responsáveis pela destinação correta dos equipamentos e os consumidores serão obrigados a devolver o lixo eletrônico para a indústria. Tanto os produtores quanto a população podem ser multados pelo descumprimento da lei. O prazo de adaptação para a nova legislação é de quatro anos. (FO/AAN)







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