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Voluntário transforma óleo em detergente caseiro


Ambientalista desenvolve fórmula com o descarte da cozinha


02/06/2011 - 09h16 . Atualizada em 02/06/2011 - 09h42
Fabiano Ormaneze   Agência Anhangüera de Notícias  
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Na sede do Barco Escola, Vicente Neves produz o detergente líquido: até agora, 100 litros de óleo se tornaram 1,8 mil litros de produto de limpeza
(Foto: César Rodrigues/AAN)

(Foto: César Rodrigues/AAN)
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Nascido na roça, Vicente Aparecido Neves sempre teve com o meio ambiente uma relação muito próxima. Quando moleque, gostava de acompanhar o crescimento das plantas, saber mais sobre os hábitos dos animais. Da zona rural em Barretos, no Interior de São Paulo, onde nasceu e cresceu, ele passou a viver em Americana e, agora, já aposentado como técnico em mecânica, descobriu no voluntariado formas de contribuir com as questões ambientais. 

Seo Vicente vive no bairro Antonio Zanaga 2, mas raramente está em casa. Falar com ele só mesmo pelo celular. Na maior parte do tempo, ele está próximo ao Reservatório Salto Grande, na Praia dos Namorados, onde se dedica ao Barco Escola, iniciativa que há uma década ajuda a conscientizar estudantes sobre a importância da preservação ambiental. Mais recentemente, por volta de dois anos atrás, o aposentado descobriu também que, além de fazer parte do conselho diretor da organização da sociedade civil de interesse público (oscip), ele podia ajudar a dar um destino correto a um inimigo do meio ambiente: o óleo de cozinha, que contamina água de córregos e rios, além de entupir tubulações. 

Depois de muitas tentativas, chegou a uma forma de produzir um detergente líquido usando o que sobrava na panela depois de uma fritura. “Tive essa ideia ao encontrar um galão com cinco litros de óleo de fritura jogado numa marginal da Rodovia Anhanguera. Alguma forma de reaproveitar haveria de existir, pensei na hora”, conta. 

O aposentado, de 63 anos, se lembrou que, quando criança, era comum as mulheres da zona rural produzirem no fundo do quintal o sabão usado para lavar roupas e louças. Com a ajuda da filha, a vendedora Érica, ele buscou receitas de sabão na internet. “Ao todo, foram 18 tentativas. As receitas não davam certo ou gastavam muito mais do que se podia imaginar para uma ideia de reaproveitamento. Perdemos um bom tempo, mas eu não desisti.” 

Na procura de uma fórmula, chegou a bater na porta de fábricas de produtos de limpeza. “Mas ninguém me levava em consideração, talvez com medo de eu virar concorrente”, diz. Agora, a receita a que ele chegou e dá resultado está decorada (veja quadro nesta página) e ele faz questão de não monopolizar: divulga, pois acredita que isso também é um serviço em favor da sustentabilidade. 

O detergente líquido produzido é usado, principalmente, para lavar pisos e calçadas, mas, de acordo com seo Vicente, algumas pessoas usaram também para a limpeza de louças e aprovaram. Desde que chegou à receita atual, ele já conseguiu reaproveitar cerca de 100 litros de óleo de cozinha, o que gerou quase 1,8 mil litros de produto de limpeza, já que a mistura é composta também por etanol e soda. 

O óleo utilizado para a fabricação do detergente vem de doações, coletadas pelo Ecobus, um ônibus que faz parte do projeto Barco Escola e visita colégios, empresas, entidades e comunidades para divulgar a sustentabilidade. O detergente produzido pelo aposentado é totalmente doado: vai para organizações não governamentais (ONGs) e, a partir do mês que vem, deve começar a ser distribuído em frascos de 100 mililitros para quem for atendido por algum dos projetos do Barco Escola. 

A receita do detergente vai impressa nos rótulos. “Como é um produto benéfico, sem nenhuma expectativa de ganho pessoal, não tem porque eu guardar só para mim. Quero mais é passar a ideia adiante”, afirma.

Máquinas
Usando a experiência de anos de trabalho na indústria, seo Vicente decidiu criar máquinas que pudessem auxiliá-lo na produção do detergente. Juntando peças antigas, galões de plástico e alumínio reaproveitado ele criou misturadores. “Quando se faz o sabão em pequena quantidade, dá para mexer na mão, com qualquer pedaço de madeira. Mas como a ideia é produzir sempre mais, eu precisava facilitar o processo”, conta.

Resíduo tem alto potencial de poluição
O óleo de fritura tem um potencial de poluição bastante grande. Cada litro da substância é capaz de poluir até 1 milhão de litros de água, o que é suficiente para cobrir todas as necessidades de uma pessoa durante pelo menos 14 anos. O óleo nos rios e córregos fica na superfície e impede a entrada da luz solar, que é necessária para alimentar e deixar vivos os fitoplânctons, essenciais na cadeia alimentar aquática, uma vez que servem de alimento para peixes.

No solo, o óleo acaba servindo como impermeabilizante, dificulta a infiltração da água e, por isso, pode colaborar para o surgimento de enchentes. Além disso, como todo material de origem orgânica, o óleo de cozinha, em seu processo de decomposição, emite metano, um dos gases que causam o efeito estufa e gera o superaquecimento da Terra.

“O óleo de uma fritura parece inofensivo e, por isso, tanta gente tem o hábito de jogá-lo no ralo ou mesmo junto com o lixo orgânico, mas a realidade é que ele é um grande vilão, sobre o qual conhecemos muito pouco”, explica o voluntário Vicente Aparecido Neves.

Barco Escola trabalha pela natureza há 11 anos
O Barco Escola, projeto do qual o voluntário Vicente Aparecido Neves faz parte do conselho diretor há dois anos e, onde há cerca de uma década, atua como colaborador, é uma iniciativa que surgiu em 2000, criada pelo comerciante e ambientalista João Carlos Pinto. A ideia do projeto é promover a educação ambiental e colaborar com a conservação do meio ambiente, principalmente, do reservatório de Salto Grande, às margens do qual fica a sede da organização da oscip. O projeto tem, atualmente, quatro programas. 

O principal deles, que justifica o nome da instituição, é o Navegando nas Águas do Conhecimento, que promove passeios de barco. Durante o trajeto, feito principalmente por estudantes de Ensino Fundamental e Médio, são transmitidas informações e distribuídos materiais sobre biodiversidade e preservação ambiental. O Reservatório Salto Grande, onde fica o Barco Escola, é formado por água do Rio Atibaia e faz parte de um dos principais pontos turísticos de Americana, a Praia dos Namorados. 

No Programa Jovem Cidadão da Natureza, todos os anos, o Barco Escola capacita estudantes para atuarem como formadores socioambientais na comunidade. Os alunos são selecionados nas escolas municipais de Americana. Os outros dois programas mantidos pela Oscip são o Sala Verde, em que estão disponíveis a quem se interessar materiais diversos sobre sustentabilidade e preservação, e o Ecobus, ônibus que visita comunidades e escolas com o objetivo de levar informações sobre o tema.

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