A matemática como parte da vida

Professora recorre à árvore genealógica de estudantes para ensinar conceitos e desperta o gosto pelos números e operações

A paixão pela matemática não é uma unanimidade nas escolas, mas na sala de aula da professora Aydê Pereira Salla, da Escola Estadual Gustavo Marcondes, no Taquaral, lidar com os números tem se tornado não só prazeroso, como também uma ponte para que os alunos conheçam a própria história de vida, além de utilizarem, numa mesma atividade, conceitos de várias disciplinas. Aydê, neste ano, usou a árvore genealógica dos alunos para ensinar o conteúdo de potenciação para o 6º ano do Ensino Fundamental. Agora, que esse trabalho já terminou, e enquanto ela esquematiza a próxima atividade criativa, o que ela mais ouve pela sala são elogios e frases como “eu adoro matemática” ou então “é a minha matéria preferida”. Por esse projeto, Aydê ficou em terceiro lugar no prêmio Experiência 10, concurso realizado pelo Departamento de Educação do Grupo RAC.

O principal objetivo de Aydê ao desenvolver o projeto foi quebrar os conceitos equivocados que, constantemente, ela ouvia de alunos, assim que eles chegavam ao 6º ano e começavam a ter aulas de matemática com ela. Antes disso, nas séries iniciais, as crianças têm apenas uma professora para todas as disciplinas e o conteúdo se reduz, praticamente, às quatro operações matemáticas básicas. “No 6º ano, o aluno entra em contato com conceitos que começam a ficar mais abstratos e, por isso, geralmente acham mais complexos. Com o projeto, conseguimos levar a matemática para mais perto do dia a dia deles”, conta.

Inspirada por leituras e pesquisas em livros de metodologia de ensino, Aydê chegou à conclusão de que a árvore genealógica de uma pessoa é formada por uma operação de potenciação. Numa potência, um número é multiplicado por ele mesmo quantas vezes o expoente indicar. Assim, 33 é igual a 3 x 3 x 3 = 27. Por convenção matemática, todo número elevado a zero é igual a 1.

“Muitos alunos tinham dificuldade para compreender esse conceito, já que a maioria costuma achar que basta multiplicar o número pelo seu expoente”, comenta a professora. Aydê começou o projeto explicando que o aluno era sozinho, não era casado nem tinha filhos e que, portanto, deveria ser igual a 1 elevado a zero. Na sequência, começou a construir a árvore genealógica. “Cada aluno tem pai e mãe, e tem avós. Logo, eles chegaram à conclusão de que cada pessoa do casal deveria ter expoente 2, totalizando 4 avós. Depois surgiria outra operação de potenciação para falar sobre os bisavós e, assim por diante”, explica a educadora.

Todos os alunos fizeram cartazes com a sua própria história e, por isso, muitos precisaram entrevistar os pais ou fazer pesquisas em documentos e fotos familiares. As descobertas foram as grandes motivações. “Eu descobri coisas muito interessantes sobre a minha família, que eu jamais imaginava. Descobri, por exemplo, que meu avô era finlandês e que ele veio para o Brasil na época da Segunda Guerra Mundial”, explica a aluna Julia Hanalainem.

Quando surgiam dúvidas, os alunos também recorriam a professores de outras disciplinas, como história, geografia e, principalmente, artes para a confecção dos cartazes.

Descobertas

O estudante Rodrigo da Costa Joaquim fez uma grande descoberta: não é brasileiro. Só agora, motivado pela atividade da aula da professora Aydê, ele descobriu que nasceu na Itália, durante o tempo em que a mãe trabalhava na Europa. “Também pude saber mais sobre a forma como meus pais se conheceram. Essa atividade mostrou que a matemática faz parte da minha vida, junto com as outras matérias que estudamos”, afirma.

Além do prazer de conhecer a própria história e de poder compartilhar curiosidades com os colegas de turma, os alunos também relatam que a visão que tinham de matemática, agora, é totalmente diferente. Júlia Pacini acredita que as aulas da professora Aydê a ajudaram a perceber a diferença entre aprender e decorar um conteúdo. “Antes, eu achava que aprender matemática era só decorar fórmulas e números difíceis. Agora, sei que é muito diferente. Quando você aprende de verdade, não precisa decorar”, diz.

O envolvimento com a família também é uma qualidade da atividade reconhecida pelos próprios alunos. “Gostei muito de ter o acompanhamento de perto da minha família, além de ter ficado divertido e fácil”, explica Ketlen de Moraes.

O projeto da professora Aydê ocupou, ao todo, cinco aulas no mês de junho. “Foi também uma oportunidade muito legal para discutir com os alunos as diferenças culturais e a pluralidade que existe no Brasil. Na sala, descobrimos que os alunos têm origens diferentes e que a matemática pode auxiliá-los na hora de recontar a própria história”, explica a professora.


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