RPG estimula reflexão em colégio

Notre Dame fica em quinto lugar em concurso do Correio Escola com projeto que usa o jogo de interpretação como ferramenta pedagógica em várias disciplinas e como forma de trabalhar a argumentação e convivência com a pluralidade de ideias

Ao levar para a sala de aula e adaptar o role playing game (RPG) para a discussão sobre atualidades, o Colégio Notre Dame de Campinas motivou estudantes a buscar informações para além dos livros didáticos, construir argumentação consistente e conviver de forma saudável com a competição e a oposição de ideias.

Novo Código Florestal foi o tema debatido este ano pelos alunos

Desde 2006, o colégio, a cada ano, escolhe um tema diferente para ser o gerador do projeto que ocupa parte das atividades dos alunos durante cerca de três meses, envolvendo diversas disciplinas. Em 2011, o projeto foi conduzido pelo professor Alexandre Fuchs, de geografia, que conquistou o 5º lugar no Concurso Experiência 10, realizado pelo Departamento de Educação do Grupo RAC.

O tema escolhido pelo Notre Dame para o trabalho com RPG em 2011 foi o novo Código Florestal. Os estudantes do segundo ano do Ensino Médio foram divididos em três grandes grupos: aqueles responsáveis por estudar e defender o ponto de vista contrário às mudanças na legislação, os que deveriam buscar e argumentar favoravelmente, além de um terceiro, neutro, responsável pelo veredicto e por cuidar de aspectos ligados à logística e à divulgação das atividades.

Depois dos estudos e da construção dos argumentos, os grupos vão realizar o debate sobre o assunto na Câmara Municipal de Campinas, na próxima terça-feira, às 19h, com direito à transmissão ao vivo pela TV Câmara, canal 4 da Net Campinas. Cada grupo terá tempo para apresentar seus argumentos e, depois, poderá ser questionado pela oposição. Ao término e, após o veredicto do grupo responsável pela mediação, a plateia – formada por outros estudantes, professores, pais e convidados – dará seu voto para decidir qual grupo se saiu melhor.

A relação com o RPG é pelo fato de que o jogo, desenvolvido nos Estados Unidos, na década de 70, faz a simulação de batalhas, em que os jogadores assumem papéis e precisam criar narrativas que convençam. No Brasil, o Ministério da Educação (MEC) incentiva o uso desse jogo como ferramenta pedagógica.

Desenvolvimento

A partir de uma reunião no início do ano e com a proposta de escolher um assunto que, além de suscitar debates, pudesse colaborar com a formação dos alunos e ser usado em aulas de diversas disciplinas, o corpo docente chegou ao tema, trabalhado em paralelo com o conteúdo programático, sem prejuízo aos tópicos previstos.

Fuchs explica que, a partir da decisão do tema, os alunos foram convidados a fazer parte dos grupos contrário e favorável, pelo interesse de cada um, mas também de forma a contrabalancear os talentos. “Como já conhecemos o perfil dos alunos, procuramosestimulá-los a desenvolver suas habilidades e avançarem na construção de uma argumentação. Muitas vezes, as informações que eles possuem não são suficientes para que tenham uma opinião consistente”, explica o professor.

Para ajudar os alunos, a escola também convidou para palestras uma ambientalista, que defende a nova legislação, um agrônomo, que é contra, e o então secretário de Meio Ambiente de Campinas, Paulo Sérgio de Oliveira, que apresentou prós e contras do novo código.

A orientadora pedagógica do Ensino Médio, Adriana Ciglioni, explica que, ao usar o RPG para discutir o tema, foi possível envolver biologia, geografia, matemática, língua portuguesa e sociologia. “A cada ano, estamos aperfeiçoando o projeto. Até 2010, fazíamos os debates na quadra da escola. Neste ano, decidimos expandir e levar os alunos para discutirem em um espaço que deve ser lugar de apresentação de propostas e discussão. O objetivo é ampliar a vivência do aluno, inserindo-o na realidade e nos temas que estão sendo discutidos no País”, explica Adriana.

Estudantes

O estudante Arthur Almeida Neto, de 17 anos, se animou em participar do projeto desde o início. Ele está no grupo que é contra o novo código. “Foi interessante perceber que, além de construir os argumentos contrários, precisamos também pesquisar e dominar as ideias do grupo que é favorável, para que a gente possa rebater e contra-argumentar”, diz.

Já Richard King Júnior, de 16 anos, faz parte do grupo que está pesquisando argumentos para defender o novo código. “Antes de estudar profundamente o assunto, eu era contra, mas hoje sei que a minha visão era muito superficial. Hoje, sou totalmente a favor e vou defender essa ideia”, afirma.

Desde que foi implantado na escola, já foram trabalhados no RPG, nos anos anteriores, temas como a internacionalização da Amazônia, as cotas sociais nas universidades públicas e a redução damaioridade penal para 16 anos.


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