Dois pesquisadores brasileiros conseguiram reconstruir digitalmente a aparência de um rosto a partir do formato do crânio. Pela primeira vez a técnica é aplicada no País e abre portas para tornar a reconstrução facial um trabalho de rotina da polícia brasileira, ajudando a identificar corpos na ausência de pistas. Outra vantagem da tecnologia é que ela poderá auxiliar nas buscas por pessoas desaparecidas. O trabalho de reconstrução foi realizado com o apoio e parceria do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), em Campinas.
O trabalho dos pesquisadores foi divulgado na revista Unesp Ciência. Ele teve início com a tese de doutorado em Ciências Odontológicas de Clemente Maia Fernandes, apresentada na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo. O seu objetivo era produzir uma reconstrução digital do rosto da também pesquisadora Mônica da Costa Serra, da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara, partindo dos arquivos de um exame de tomografia computadorizada.
Segundo Fernandes, o ponto de partida para reconstrução foi o tratamento das imagens geradas por um exame de tomografia computadorizada, ao qual a pesquisadora se submeteu. O tratamento foi feito em um software desenvolvido pelo CTI, o InVesalius. A tecnologia permite reagrupar as diversas camadas geradas pela tomografia, reconstituindo o formato original da parte do corpo examinada.
No caso de uma ossada não identificada, o procedimento inicial consistiria na elaboração de uma tomografia do crânio. E para tornar o resultado da pesquisa mais próximo dessa situação, no tratamento realizado sobre o exame de Mônica foi feita uma etapa de remoção da imagem de todos os tecidos moles (como pele, músculo e gordura), restando apenas a estrutura óssea.
A partir da tomografia do crânio, foi gerada uma imagem tridimensional de alta qualidade. Segundo os pesquisadores, apenas com as informações do crânio é possível determinar algumas características: “Os ossos, em particular o crânio, fornecem informações importantes a respeito do gênero, permitem estimar a idade e saber qual era a etnia da pessoa”, explica Fernandes.
Os pesquisadores também se basearam em tabelas de medições de espessura dos tecidos moles da face de populações. A etapa seguinte foi a colocação de pinos no modelo digital do crânio de Mônica. O tamanho de cada pino corresponde à espessura dos tecidos moles naquele ponto. Após esse processo, foi feita a modelagem do rosto, ou seja, os cientistas reconstruíram virtualmente a face de Monica.
Em seguida foi feita a colocação de cabelo. Depois disso, os pesquisadores analisaram o reconhecimento da reconstrução sem a colocação de cabelo. Seguindo uma terceira fase nesta linha de pesquisa, os cientistas imprimiram o resultado da reconstrução facial digital em uma impressora 3D, gerando um protótipo da mesma.
Um engenheiro da computação do CTI, Frederico Sena, ajudou Fernandes na reconstrução do rosto da pesquisadora, sem saber de quem era o rosto a ser reconstruído. Sena só conheceu a dona do rosto depois do trabalho concluído. O objetivo era evitar interferência nos resultados.
Saiba mais
Atualmente, existem três escolas de reconstrução facial: a russa, a americana e a inglesa. Fernandes escolheu trabalhar com a escola americana, considerada a técnica mais simples, rápida e eficiente. Segundo o pesquisador, a reconstrução facial digital pode levar de um a três dias.
Voluntários ajudam a avaliar grau de semelhança
Os pesquisadores trabalharam com três tabelas de espessura diferentes. Por isso, geraram, ao final do estudo, três possíveis reconstruções da face de Mônica Serra. Para avaliar qual delas ficou mais parecida com a pesquisadora, a dupla convidou 30 voluntários para avaliarem o grau de semelhança obtido nas três reconstruções digitais. Quase 27% dos entrevistados identificaram o rosto da pesquisadora. Os resultados foram animadores, segundo os especialistas.
Os testes foram feitos na Faculdade de Odontologia de Araraquara. Cada pessoa recebia fotos de dez mulheres, todas elas com idades entre 30 e 50 anos, e tinha que identificar qual delas havia tido seu rosto reconstituído. Os resultados variaram. Na avaliação mais bem sucedida, feita a partir de uma tabela elaborada com indivíduos brasileiros, a foto de Mônica foi corretamente identificada por 26,67% das pessoas.
Outros dois rostos também foram bastante associados à reconstrução. Mas Mônica explica que a proximidade não é um problema. “Em uma situação real, mesmo que três famílias distintas reconheçam o rosto como sendo de um parente seu, o ganho já é enorme, porque partimos de uma situação onde não havia suspeitos e limitamos o universo em três.”
Segundo o pesquisador Clemente Fernandes, a partir do reconhecimento, é possível solicitar às famílias um prontuário odontológico, que poderá ajudar na identificação. “Em último caso, poderá ser feito o exame de DNA, que é um exame de identificação menos realizado que os demais porque custa muito caro”, afirma.
Ele ressalta que o critério de reconhecimento a partir da reconstrução facial é subjetivo. “A técnica aplicada na reconstrução é científica, mas é importante ressaltar que o critério de reconhecimento é subjetivo. Mas através dele é possível chegar à identificação”, afirma.
Os pesquisadores ressaltam que a reconstrução facial não é um retrato falado ou uma fotografia do suspeito. Porém, apresenta muitas características e, se bem realizada, pode chegar próximo de 70%, auxiliando no seu reconhecimento.
Possibilidades
De acordo com os pesquisadores, o objetivo final da pesquisa é a contribuição social. “Infelizmente, acontece todos os dias de a polícia encontrar um corpo, em canaviais, por exemplo, em tal estado que impossibilita o reconhecimento. Esse corpo pode ser tanto de um criminoso como de uma vítima, uma pessoa desaparecida, uma criança ou um arrimo de família. Dessa forma, trata-se tanto de uma contribuição para a polícia na elucidação de muitos casos, como para as famílias. Para estas, constitui-se em uma definição emocional bem como, em alguns casos, patrimonial”, afirma Mônica.
O trabalho dos pesquisadores faz parte de uma linha desenvolvida por ambos na área de Novas Tecnologias aplicadas às Ciências Forenses e os resultados poderão em breve ser utilizados. Porém, eles também trabalham com técnicas tradicionais, como a reconstrução facial plástica ou manual, realizada por meio de colocação de escultura de argila sobre a réplica de um crânio. Fernandes e Mônica já estão estabelecendo parceria com alguns Institutos Médico-Legais para trabalhar com crânios que eles possuem. “É mais um artifício para ajudar no processo de identificação e que poderá ser veiculado na mídia, exposto em delegacias, e jornais”, ressalta Fernandes.