Uma equipe de médicos do Hospital Estadual Sumaré, da Unicamp, fez uma cirurgia inédita nesta semana na região de Campinas. Eles usaram uma nova tecnologia para confecção de próteses desenvolvida pelo Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI) em uma cranioplastia, cirurgia de reconstrução do crânio comum a pacientes vítimas de acidentes ou que tiveram complicações com AVC.
O coordenador da neurocirurgia do hospital, Helder Zambelli, conta que a ideia é que o Sistema Único de Saúde (SUS) possa oferecer uma prótese semelhante àquela oferecida por convênios ou cirurgias particulares. “Em uma cirurgia particular, com um ótimo resultado, o custo pode chegar a R$ 100 mil”, comenta Zambelli.
O coordenador explica que a prótese é usada em pacientes que perderam parte da calota craniana. “Antes da nova tecnologia usávamos placa de acrílico e moldávamos a prótese na hora, durante a cirurgia. Tinha um resultado bom, mas por causa disso a cranioplastia durava cerca de duas horas.”
Com o novo método, em que a prótese já vem moldada para os cirurgiões, o tempo de cirurgia cai pela metade. “Além da redução do tempo de cirurgia, há uma menor chance da placa escapar”, comenta Zambelli.
Essa é a primeira cirurgia feita pelo SUS com a nova tecnologia. O neurocirurgião João Flavio Daniel Zullo conta que optou pelo novo método porque a paciente tem uma falha óssea frontal, provocada após um acidente. O crânio teve que ser aberto porque o tratamento para a redução da pressão intracraniana com remédios não surtiu efeito. “Para fazer a construção disso usava-se um material de modelagem rápida de 15 a 20 minutos, mas não era possível fazer uma prótese com tanto detalhe que tenha aspecto estético satisfatório”, diz Zullo.
A nova prótese é feita com um material chamado polimetilmetacrilato (PMMA). Ela foi modelada com base em imagens de exames feitas pela paciente antes e depois de ter parte do crânio removida. “No dia do acidente ela fez uma tomografia e foi tratada. Depois da operação, fez outra tomografia. As imagens foram usadas para fazer a reconstrução tridimensional de como era o crânio antes e depois do acidente. Com base nessas reconstruções foi feita a reconstrução da falha (no crânio) de forma fidedigna”, detalha.
A nova técnica, diz Zullo, traz uma melhoria estética para o paciente, mas também apresenta outros tipos de ganho. “O tempo de cirurgia cai pela metade e com isso se reduz o sangramento do paciente e os riscos de infecção”, completa.
Intenção é popularizar uso na rede pública
O neurocirurgião João Flavio Daniel Zullo diz que a intenção é de que o novo método de reconstrução craniana possa ser utilizado em larga escala pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Nosso intuito do trabalho é que esse método de desenvolvimento de prótese se desenvolva para ser aplicada no SUS”, diz. Segundo Zullo, a utilização do software é gratuita e o hospital tem que arcar apenas com os custos do material utilizado. No caso da cirurgia feita esta semana foram utilizados R$ 1,2 mil com metilmetacrilato. Zullo conta que existe muita demanda por cirurgias de cranioplastia. “É bem frequente, aqui no hospital são feitas pelo menos 20 por ano”, diz.
Software faz simulações em 3D para reconstruções
O Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI) desenvolveu um software que reproduz de forma tridimensional órgãos que necessitem de tratamento e de cirurgia. Chamado InVesalius, o programa utiliza imagens de ressonância magnética ou tomografia computadorizada para recriar uma cópia em tamanho natural imprensa em 3D em gesso, cerâmica, plástico e metal.
Com a tecnologia é possível reproduzir e ampliar células. A partir da cópia feita com o InVesalius é possível confeccionar próteses e planejar melhor os procedimentos, o que economiza 60% do tempo de cirurgia, aumenta a precisão e diminui riscos durante o procedimento.
A tecnologia tem sido especialmente utilizada em cirurgias de reconstituição craniana e facial e para a produção de próteses do osso fêmur, o que melhora a articulação da prótese com a bacia, evita novas lesões e garante mais conforto aos pacientes.
O pesquisador Jorge Lopes Silva, chefe da Divisão de Tecnologia Tridimensional do CTI, explica que essas próteses podem ser usadas também em casos de deformidades faciais motivadas por doenças genéticas. “Temos uma boa parceria com a Sobrapar. Já fizemos prótese para a troca de mandíbula”, conta.
Cerca de 130 hospitais públicos já utilizaram a tecnologia, que começou a ser desenvolvida em 2001. Mais de 300 cirurgiões brasileiros conhecem o recurso e já utilizaram em 1.980 atendimentos. Há uma rede de mais de 4.750 desenvolvedores de software de cerca de 65 países que participam dos fóruns de discussão para o desenvolvimento da tecnologia, que é considerada pela comunidade científica internacional uma das fronteiras do conhecimento para esta década.
O centro continua aprimorando a tecnologia e trabalha na adaptação do uso do InVesalius com sensores de movimento, que funcionam como mouses virtuais e captam o movimento do cirurgião no centro cirúrgico e evita, assim, o contato com computadores e eventual contaminação. (PA/AAN)