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Efeitos da obesidade infantil são mapeados


Pesquisas feitas ambulatório na Unicamp revelam que problema influi na qualidade de sono e na saúde das crianças


25/11/2011 - 08h43 . Atualizada em 25/11/2011 - 08h49
Patrícia Azevedo   DA AGÊNCIA ANHANGUERA  
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Detalhe de menino de 7 anos que está dez quilos acima do peso e passa por orientação pediatra para emagrecer
(Foto: Matheus Reche/Especial para AAN)
Giovina Fosco, Antonio Barros e Helen Rose que pesquisam efeitos da obesidade infantil na Unicamp
(Foto: Divulgação)

Uma em cada três crianças brasileiras de 5 a 9 anos estava acima do peso recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2010. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a obesidade atinge 16,6% dos meninos nessa faixa etária e 11,8% das meninas. Entre os jovens de 10 a 19 anos, a situação é parecida e se agravou nas últimas quatro décadas. Nos anos 70, os obesos somavam 3,7%, enquanto em 2010 o número saltou para 21,7%. A obesidade infantil é um mal que vem assustando médicos, pais e despertando olhar mais atento dos cientistas. 

O Ambulatório de Obesidade na Criança e no Adolescente, no Hospital de Clínicas da Unicamp, foi criado para tratar essas crianças e adolescentes e para realizar estudos clínicos. “Os pediatras começaram a perceber um aumento no número de crianças obesas. A obesidade aqui é uma epidemia já tão grave quanto nos Estados Unidos”, diz a psicóloga Giovina Fosco Turco. 

Quatro pesquisas orientadas pelo professor Antonio de Azevedo Barros Filho, do Departamento de Pediatria da FCM, revelam diferentes aspectos sobre a doença. Um dos estudos revelou que obesidade agrava os problemas relacionados ao sono. A pesquisadora Giovina Fosco Turco estudou as características do sono em adolescentes obesos dentro do peso e concluiu que os obesos têm pior qualidade do sono e, consequentemente, uma qualidade de vida inferior. 

A pesquisa englobou um universo de 120 adolescentes de ambos os sexos, entre 10 e 14 anos. Ronco, agitação noturna, insônia, pesadelo, medo de dormir sozinho e de escuro estão entre os problemas recorrentes no grupo de jovens obesos. Cerca de 20% dos entrevistados disseram ter repetido alguma série escolar e 33% disseram ter algum problema de saúde. 

A autora do estudo explica que a má qualidade do sono na infância e na adolescência prejudica o aprendizado, concentração e capacidades intelectuais, provocando alterações de humor, irritabilidade e um risco maior de desenvolver depressão. Esses jovens são mais resistentes à prática de atividades físicas, o que contribui ainda mais para o aumento do sobrepeso e da obesidade. As pesquisas podem ser usadas para ajudar a elaborar políticas e métodos de prevenção à obesidade e seus males. 

A nutricionista Helen Rose Camargo Pereira diz que a maior dificuldade no tratamento é mudar os hábitos da criança e da família. “Estudos evidenciam que o comportamento alimentar dos pais está relacionado com a ingestão alimentar e com o desenvolvimento de obesidade nos seus filhos. As pesquisas desenvolvidas no ambulatório nos permitem conhecer em detalhes todos os hábitos e rotina alimentar familiar e, portanto, detectar os principais pontos a serem trabalhados não apenas com a criança, mas com a família.” 

Priscila de Souza, de 32 anos, faz acompanhamento com o pediatra do filho de 7 anos, que está dez quilos acima do seu peso normal. Ela diz que o menino era magro há dois anos e ganhou peso rapidamente. 

“É muito difícil controlar, pois é uma criança, gosta de comer hambúrguer, doces, e estou inserindo verduras e legumes na alimentação dele a pedido do médico”, disse a mãe. (Colaborou Luciana Félix/AAN)

Período de férias interfere no peso, alerta estudo

O professor de Educação Física Fábio Cássio Ferreira Nobre elaborou um estudo para avaliar a interferência do período de férias e de aulas no ganho de peso em cerca de 600 jovens na faixa etária de 11 a 15 anos, alunos de 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental de escolas estaduais de Campinas. Os resultados demonstraram que a prevalência de sobrepeso e obesidade já atinge três em cada dez adolescentes. 

Nobre observou que o período de férias é colaborador importante no ganho de peso em ambos os sexos, na faixa entre 10 a 14 anos. O pesquisador diz que a escola desenvolve importante papel para incentivar a prática de atividade física e observa que, durante o ano letivo, as crianças têm uma alimentação melhor. Nas férias, os jovens não mantêm a rotina de exercícios e modificam seus hábitos. O resultado é aumento de peso em massa gordurosa. 

O estudioso acredita que a escola pode ser considerada um ambiente protetor no desenvolvimento da obesidade e que pode ser usada para prevenir a doença. Nobre destaca que as escolas deveriam instituir no currículo escolar programas de atividade física aeróbica direcionada às diferentes faixas etárias, além de aulas de educação em saúde e qualidade de vida.

Cuidados
A psicóloga Ana Paula Paes de Mello de Camargo entrevistou um grupo de oito mães de crianças para compreender a percepção materna a respeito da origem e da natureza da obesidade dos filhos e entender como essa percepção pode afetar os cuidados com a criança com excesso de peso. Ana Paula comprovou que a percepção materna inadequada influencia negativamente a relação não só da mãe com a criança, mas também desta com seus cuidadores, causando um impacto nos hábitos cotidianos, como a ingestão de alimentos supercalóricos e a baixa frequência de atividades físicas. Isso acontece porque as crianças são dependentes da mãe para a formação da sua personalidade e do seu estilo de vida. 

A psicóloga verificou que mães que se disseram insatisfeitas com o próprio corpo tentaram minimizar o problema com o peso que os filhos têm. A pesquisadora diz que a mãe vê o filho obeso apenas como gordinho, o que complica o enfrentamento do problema e influencia o modo como ela lida com as orientações recebidas dos médicos. (PA/AAN) 

Excesso traz risco também a magros

A nutricionista Helen Rose Camargo Pereira realizou uma pesquisa com 104 voluntários da região de Campinas para quantificar o excesso energético diário. Esse excesso, que representa um desequilíbrio entre a energia acumulada com a alimentação e a despendida em atividades físicas, é apontado como um dos motivos do ganho de peso além daquele considerado adequado ao crescimento. 

Os resultados mostraram que tanto aqueles com peso adequado quanto os com excesso acumulam entre 150 a 250 calorias diariamente e revelaram que mesmo aqueles com peso adequado apresentaram taxas elevadas de gordura corporal. Isso pode trazer complicações semelhantes às encontradas em obesos e é considerado fator de risco para o desenvolvimento de diabetes e doenças cardiovasculares. 

A nutricionista avaliou 39 adolescentes no peso, 33 com sobrepeso e 32 obesos na faixa etária de 11 a 17 anos. Todos matriculados em duas escolas do município de Paulínia. Helen verificou que todos os grupos apresentaram baixo gasto energético em atividades físicas, dieta pobre em frutas, legumes e verduras, consumo elevado de açúcares (sob a forma de refrigerantes e sucos em pó) e alta proporção de gorduras na alimentação, decorrente da ingestão excessiva de sanduíches, hambúrgueres, pizzas e salgados. 

Os estudantes entrevistados por Helen passam cerca de cinco horas diárias na frente da televisão ou do computador, tempo quase três vezes superior que o recomendado pela Academia Americana de Pediatria. (PA/AAN)

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