Os sabores de laranjas, limões e tangerinas cultivadas na região de Campinas poderão ser usados na criação de aromas que dão gosto a refrigerantes, sorvetes, medicamentos e iogurtes vendidos em todo mundo. A Givaudan, empresa suíça que lidera a fabricação de aromas e fragrâncias, assinou nesta semana um acordo com o Centro de Citricultura Sylvio Moreira, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC).
O Centro, localizado em Cordeirópolis, tem uma das maiores e mais importantes coleções de citros do mundo, com cerca de 1,7 mil genótipos. A empresa suíça dará suporte aos trabalhos do Banco Ativo de Germoplasma (BAG-Citros) do Instituto e financiará pesquisas que vão explorar a variedade de espécies de cítricos, com o objetivo de descobrir novos aromas, moléculas e ingredientes que contribuirão para que a indústria de alimentos e bebidas ofereça produtos inovadores e com sabores autênticos aos seus consumidores.
As aromistas da empresa suíça explicam que os especialistas das empresas buscam nas plantações das região os sabores que os consumidores procuram nos produtos. Eles experimentam várias laranjas, limões, tangerinas e limas e tentam reproduzir o aroma em laboratório. Para isso, contam com a ajuda de alguns equipamentos desenvolvidos e patenteados pela própria empresa. Um deles é o mini-Vas, composto por um software que permite a criação de sabores compostos por vários tipos de frutas. A máquina permite que especialistas da empresa indiquem a quantidade exata de cada aroma para a composição da mistura e possibilita ainda que eles sintam os cheiros, facilitando a busca do aroma igual ao encontrado nos pomares.
O diretor do centro, Marcos Machado, explica que a empresa poderá fazer experiências em 80 árvores do centro, que indicará as melhores opções. Essas expedições em busca de aromas diferenciados fazem parte de um programa chamado TasteTrek. No ano passado, quando a empresa e o centro começaram a trabalhar juntas, a parceria rendeu a criação de aromas cítricos inéditos, que permitirão à empresa oferecer sabores originais da laranja para serem aplicados em produtos. A empresa explora lugares como florestas tropicais e a natureza em busca de novos aromas, ingredientes e moléculas que possam proporcionar à indústria de alimentos e bebidas o lançamento de produtos que surpreendam o consumidor.
Na semana passada, representantes da companhia suíça voltaram à região para apresentar os aromas criados e para fazer uma degustação das laranjas que deram origem aos novos aromas.
Nos últimos dois anos a companhia solicitou mais de 80 patentes no segmento de aromas. Para tanto, desenvolve parcerias com centros de pesquisa de todo mundo. Um exemplo é o convênio com a Universidade da Califórnia, nos EUA, para pesquisas na plantação de citros de Riverside, uma das maiores do mundo.
A Givaudan tem uma equipe de aromistas que tenta reproduzir os aromas das frutas colhidas no pé. “O aroma de uma fruta muda muito do momento que a colhemos até quando chega ao laboratório”, explica Helga Gschwind, diretora de produtos. Para colher o aroma da fruta ainda no pé, a empresa criou um equipamento chamado headspace, que é uma espécie de tubo de ensaio conectado à fruta. Ele suga os óleos e cheiros e armazena em um receptáculo. O material extraído é estudado em laboratório. Helga explica que os aromas são sintetizados em laboratório a partir de uma mistura com óleos das frutas.
Coleção local é uma das maiores do mundo
A coleção de citros do IAC é uma das maiores do mundo e começou a ser feita em 1928. Hoje, tem 1.700 exemplares, sendo a maior parte de laranjas doces (528), tangerinas e híbridos (301), limas e limões (164). Serão disponibilizados cerca de 80 tipos diferentes de laranja doce e híbridos para a avaliação sensorial da casca e suco.
O acordo não prevê a utilização direta do material genético ou de produtos das plantas, como frutos e óleos essenciais. “À empresa interessa a composição natural para que, em processo de reconstituição, essa formação possa ser utilizada para caracterizar um produto natural”, explica Marcos Machado, diretor do Centro de Citricultura do IAC, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo. A partir de cronograma previamente estabelecido, baseado na disponibilidade de frutos em estágio completo de maturação, incluindo variedades precoces, meia-estação e tardias, serão programadas três visitas anuais com a equipe da empresa parceira e outras três visitas com a equipe da empresa e seus clientes.
A parceria está sendo estabelecida por um ano e poderá ter continuidade dependendo dos resultados e interesses dos envolvidos. Segundo Machado, essa é a primeira experiência do centro com a indústria diretamente. “Nós costumamos trabalhar com o setor agrícola, essa experiência será muito importante”, diz Machado.
A parceria pode enriquecer o trabalho de melhoramento de variedades de citros, a partir da melhor caracterização da coleção de plantas. De acordo com Marcos Machado, a caracterização de aromas e o conhecimento das características dos óleos essenciais complementam a descrição e caracterização do acervo citrícola do IAC. “Tais informações são extremamente úteis para direcionar o Programa de Melhoramento de Citros, caracterizando diferentes acessos de forma que não teríamos como executar por conta própria”, completa.
Marcos Machado explica que não haverá efetivamente transferência de material genético ou de propagação por parte do IAC à empresa. “Eles não se interessam em perspectivas de plantio para atender a futuros fornecedores, mas somente com a composição natural de diferentes variedades de citros”, diz. (PA/AAN)
Substância do Chanel n° 5 é um dos alvos
Pesquisa desenvolvida no IAC deve produzir uma substância chamada linalol, usada na produção do perfume mais conhecido do mundo, o Chanel n° 5. Estudos envolvem a genética quantitativa da espécie Lippia alba, com estimativas de ganhos genéticos para rendimento de massa de folhas, óleo e da substância linalol.
O linalol é extraído de uma árvore amazônica chamada o Pau-Rosa (Aniba roseadora), que já esteve ameaçada de extinção. O pesquisador do IAC, Walter Siqueira, apresentou os resultados do estudo durante o VI Simpósio Brasileiro de Óleos Essenciais, promovido esta semana em Campinas. A pesquisa no IAC gerou 40 clones inéditos de Lippia alba, resultantes de dois ciclos de recombinações avaliados colheita por colheita para determinação de rendimentos de massa e óleos essenciais. O pesquisador reforçou que os genótipos não poderão ser encontrados na natureza.
Essa nova opção agrícola trazida pela ciência poderá ser aproveitada em todas as localidades brasileiras, já que a Lippia alba pode ser cultivada em qualquer região do Brasil, desde que não ocorram geadas. Essa espécie herbácea de pequenos arbustos floresce durante todo o ano. Mesmo com tanto potencial, a Lippia Alba, que é natural das Américas e de rápida colonização, ainda não é explorada no País. (PA/AAN)