Por ser filme de mistério, ‘Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres’ (The Girl With a Dragon Tattoo, Estados Unidos, Suécia, Alemanha e Reino Unido, 2011), do americano David Fincher, que entra em cartaz nesta sexta-feira (27), deverá enfrentar três duros testes. O primeiro, de quem assistiu ao similar sueco (de Niels Arden Oplev, 2009) e, portanto, sabe a história. Bem, o original, apesar de ter sido exibido na TV paga, foi pouco visto nos cinemas brasileiros, mas David Fincher (dos ótimos ‘Clube da Luta’, 1999, e ‘A Rede Social’, 2010), em que pese a preocupação em criar obra própria, remete excessivamente a algumas sequências do filme sueco — mesmo que o roteiro tenha mudado pontos cruciais da história — o que, por vezes, o torna desinteressante.
O segundo teste será o leitor do livro, que, além de conhecer o desfecho, tentará traçar inevitáveis comparações. Mas não há o que comparar, pois são linguagens distintas. Por último, a nova versão não está tendo carreira positiva nos Estados Unidos, dizem, por conta da cena de estupro — forte mesmo —, porém não deve influenciar a audiência brasileira. A questão é saber se o filme satisfaz o público.
‘Millenium’, trilogia do escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004), se tornou best-seller, publicação em geral associada à categoria literatura de entretenimento que, se for competente e de qualidade, cumpre seu papel. O filme, baseado no primeiro livro, reúne situações improváveis e fantásticas dentro do guarda-chuva de assuntos sérios: nazismo, serial killer, incesto e estupro contra mulheres. A aparente superficialidade dos fatos, no entanto, desaparece quando sabemos que Stieg Larsson foi ativista político que denunciou organizações extremistas na Suécia.
Seja como for, tudo no filme está a serviço dos fatos e, para manter o espectador ligado, se vale de viradas espetaculares. Não parece haver por parte do diretor nenhuma grande preocupação com ousadias de linguagem — ainda que explore bem nuances de cores e fotografia (indicada ao Oscar) e o clima ‘noir’ adequado ao gênero policial. Afinal, ele tem diante de si um best-seller cuja força está nos fatos espetaculares que narra, mesmo levando em conta a motivação política do autor. Quem leu o livro garante que não consegue parar — técnica narrativa infalível que Larsson soube construir com competência. A produção procura o idêntico veio, ou seja, não permitir que o espectador se descole da tela. E consegue, apesar das quase três horas de projeção.
Na pele do jornalista Mikael Blomkvist, que trabalha na revista ‘Millenium’, Daniel Craig não faz nada muito diferente de outros seus papéis. Mantém-se frio e distante e quase entrega de bandeja o protagonismo a Rooney Mara, a hacker Lisbeth Salander que o auxilia. Ela aparece bastante bem, tanto que recebeu indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar. Uma surpresa, pois Noomi Rapace surgiu ótima na versão sueca e parecia difícil repetir a performance dela. Mas são de Rooney Mara alguns dos melhores momentos do filme e dos únicos (e bons) instantes de humor.
Morte
Há uma morte a ser investigada em ‘Os Homens que Não Amavam as Mulheres’. Neste caso, a pergunta é quem matou a jovem Harriet? Mikael Blomkvist, jornalista econômico condenado na justiça por difamação, vai se empenhar para desvendar o crime. Contratado pelo rico industrial sueco Henrik Vanger (Christopher Plummer) para investigar o desaparecimento da sobrinha Harriet (Moa Garpendal), 36 anos antes, ele se muda para remota ilha na costa gelada da Suécia.
O que veremos a seguir será a trajetória dessa armadilha em que o jornalista se meteu, pois ele vai escrever um livro sobre o assunto. Porém, se Henrik quer desvendar o crime, integrantes da família dele desejam Mikael bem longe da cidadezinha onde tudo aconteceu. E o jornalista vira detetive assessorado por Lisbeth e, como se poderia esperar, haverá ‘affair’ entre eles, apesar de a moça gostar de experiências sexuais menos ortodoxas.
‘Os Homens que Não Amavam as Mulheres’ busca o entretenimento que atenda nossas humanas expectativas por mistérios. Quem gosta, terá à disposição bom entretenimento realizado com cuidado por um gabaritado diretor .