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Júlio Bressane fala de cinema na Mostra em Tiradentes


Num encontro informal com um grupo de jornalistas, enquanto esperava carro para voltar ao hotel, ele fez desabafo sobre distribuição de verbas pelos editais


25/01/2011 - 17h14 . Atualizada em 27/01/2011 - 10h49

João Nunes    


O cineasta Júlio Bressane: “O cinema mesmo desapareceu, estamos vendo o naufrágio do espectador, que não está interessado no debate”
(Foto: Divulgação)
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Júlio Bressane Tiradentes

Júlio Bressane é um dos mais importantes cineastas brasileiros, apesar do pouco público que assiste aos seus filmes. Ele não se importa: quase anualmente lança um filme num mercado cada vez menos interessado na sua estética. Bressane esteve na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes para participar de debate sobre a obra do amigo Paulo Cezar Saraceni. 

Num encontro informal com um grupo de jornalistas, enquanto esperava carro para voltar ao hotel, ele fez desabafo sobre distribuição de verbas pelos editais. Os jornalistas (quatro, entre eles o do Correio Popular) o convenceram a falar sobre o assunto no dia seguinte. 

Ele os recebeu no hall do hotel em meio a reminiscências de quando visitou Tiradentes pela primeira vez, aos 17 anos, e conheceu Joaquim Pedro de Andrade quando esteve na cidade para rodar O Padre e a Moça (1965). “Não sei porque estou falando essas coisas”, disse em tom nostálgico. 

Um dos jornalistas o provoca sobre a intervenção dele no debate com Saraceni no qual criticou o mercado de cinema, inserindo-o no contexto de “guloseimas” consumidas na mesma proporção dos fast food ou das academias de ginástica. A pergunta referia-se ao entusiasmo do cinema nacional que, em 2010, conseguiu a fatia de 19% do mercado consumidor. 

Bressane ironiza dizendo que não se pode levar a sério a publicidade. “Não se compra desinfetante ou creme dental porque a publicidade diz que é bom.” Segundo ele, o cinema está atrelado ao Estado, em todo mundo, e ninguém se interessa por arte, mas em conseguir dinheiro para fazer seu filme.

“Cinema é feito para a TV, o cinema mesmo desapareceu, estamos vendo o naufrágio do espectador, que não está interessado no debate.” Por “cinema mesmo” ele quer dizer aquele que pode ser usado como ferramenta de transformação. Esse cinema, diz, “sempre foi uma causa perdida”. E faz uma confissão: “Continuo a fazer cinema por necessidade”. 

Por depender de verbas oficiais, Bressane retoma os lamentos sobre os editais. Disse que participou de três em 14 meses nos quais 64 filmes ganharam verba e o seu filme Beduíno não conseguiu. “O filme custa, pronto, R$ 600 mil, mas não recebi dinheiro.” 

Ele diz que se sentiu “excluído”, algo que considera “leviano”. “Meu projeto não é melhor do que ninguém, mas não é pior”. Reconhece que seus filmes não têm público — na verdade, tem público pequeno, mas fiel —, mas avalia que não ganhou os editais por conta de seu desacordo com a política cinematográfica vigente no País, “gente que está lá dentro, faz parceiros e domina os editais. É uma política genocidária que atinge a mim e atingiu Rogério Sganzerla (1946-2004)”. 

Ele conta que entre 1968 e 1978 não pode mostrar seu trabalho na Europa por conta da ruptura que ele e Rogério tiveram como Cinema Novo. “Brasília ficou 12 anos sem me premiar pelo mesmo motivo; Matou a Família e foi ao Cinema (1969) conseguiu impactar Cannes, foi um acontecimento, mas morreu ali. É fácil me neutralizar, eu não reajo.”

Boas notícias
Apesar dos lamentos, Bressane tem bons motivos para comemorar. Lembrou suas muitas idas à Europa nos anos 90, como filmes como Os Sermões (na Itália, em 1991, e ficou amigo de Claude Chabrol), com Mandarim (1995, em Veneza), Miramar, em 1997, também em Veneza, e Filme de Amor em Cannes, em 2003, entre outros. Isso reabriu as portas da Europa para ele. 

A Erva do Rato (2009) foi lançado com dez cópias na França. A RAI — Rede Italiana de Televisão comprou 22 de seus filmes e vai exibi-los a partir de março durante cinco anos. E, em maio, no Festival de Lisboa, haverá retrospectiva com 26 de seus títulos. E a retrospectiva vai rodar a Europa. 

Por fim, ele conta que terminou seu mais recente longa: Rua Aperana, 52, filme que ele chama de geográfico. Será a biografia de uma casa construída em 1918, no Rio. Nada mal para quem se sente excluído. “É um jeito de não morrer antes do tempo”, conclui.

Decepcionante 1

A passagem da ministra da Cultura Ana de Hollanda na abertura da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes, na sexta-feira, foi decepcionante. Falou dois minutos com a imprensa, numa coletiva improvisada, e na qual não disse nada, e ao pegar o microfone para falar com o público citou números errados sobre o cinema brasileiro (disse que, em 2010, 10 milhões viram filmes nacionais, quando só Tropa de Elite 2 teve 11 milhões; os números totais foram 26 milhões) e ficou nos agradecimentos formais do tipo, “estou feliz por estar aqui”. 

Decepcionante 2

Ninguém esperava que ela fizesse algum pronunciamento bombástico, mas, sendo o primeiro evento oficial da ministra e tendo a imprensa cultural de todo o País presente, ela poderia, ao menos, dizer algo consistente. Não trouxe discurso preparado, se embananou na fala. repetiu frases e foi embora. Sua declaração mais “importante” foi ter dito que estava feliz por participar do festival. 

Brilho 1

Quem brilhou na festa foi o ator pernambucano Irandhir Santos, um dos homenageados da noite. Em quatro anos, ele fez nada menos que 15 filmes, vários deles ainda inéditos. Na conversa com jornalistas e público no dia seguinte, contou com se prepara para os papéis e recebeu elogios de alguns diretores presentes na mesa e com quem ele trabalhou, entre eles, Cláudio Assis e Kleber Mendonça. 

Brilho 2

Cláudio Assis, com seu jeito peculiar de distribuir afetos, elogiou Irandhir, com quem trabalhou em Baixio das Bestas e A Febre do Rato (inédito), dizendo que se existe uma “raça ruim” é a do ator, mas que teve sorte de contar com Irandhir em seus filmes. “Ele é doido, ele não tem juízo”.

O jornalista acompanha o festival a convite da organização

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