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12/05/2012 06:34:57
ENSEBADO  Compartilhar
foto: Google Imagens

 Troco numa boa mil megastores de livros novos com cybercafés por um sebo mal arrumado e labirintuoso. Daqueles encravados nos centrões das metrópoles, com as paredes caindo aos pedaços como os volumes que abrigam. Até meados dos 80, nos sebos a gente só encontrava livros e revistas. Hoje tem vinis, CDs, fitas de vídeo e até DVDs. Muitos têm brinquedos usados, jogos de tabuleiro, vitrolas. Outros dividem espaço com brechó. Mas sempre sebos, honestos sebos, sem nenhum vendedor chato querendo te empurrar os últimos lançamentos.

O que frequento é muito grande, Pra dar uma espiada rápida em tudo vai pelo menos uma semana. Sério. Como a empreitada é longa, pelo comprido galpão há banquinhos espalhados pro pessoal se acomodar, além de umas duas ou três poltronas. Velhas, com o estofamento puído, mas um oásis pras suas costas depois de algumas horas naquela babel.

Embora o habitué do sebo seja, ou quase sempre aparente ser, muito tímido, nem todos têm o perfil do rato de biblioteca. Há o frequentador funcional, rápido e rasteiro. Esse tipo é pragmático e não gosta de antiguidade, vai lá porque é mais barato, geralmente está atrás de um livro específico pra faculdade ou coisa assim. “Tem? Vou levar. Não tem? Tchau”. Pronto. Sebo nas canelas.

O silêncio impera nos sebos, e isso às vezes é constrangedor. Dá pra escutar a respiração da pessoa na prateleira ao lado. E a consulta aos volumes vai aproximando fisicamente um freguês do outro. Aí a situação fica insustentável, parecida com o “efeito elevador”. Um dos dois acaba cedendo, indo ciscar em outras paragens até o outro desocupar.

Uma vez comprei um livrinho impresso em 1912. O carimbo da livraria, de Campinas, mostrava um número de telefone inacreditável: 27. As ligações, na época, inclusive as locais, eram via telefonista. “Senhorita, por favor, me liga no 36”. Parece morador de prédio falando no interfone com o porteiro.

Imagino a peregrinação daquele volume com o passar dos anos. Pode ter sido dado de presente pra filha mais nova de algum barão do café, que passou pro filho dela, que o doou a uma escola pública, que o emprestou a um aluno, que ficou com ele até vendê-lo ao sebo, em meio a um lote de outros 163 volumes. Quis o destino que estivesse agora aqui, a poucos metros das minhas fuças. E daqui a 100 anos, onde estará?

Não raramente se encontra, como marcador de página, algo devastadoramente íntimo. Veja esse bilhetinho, que veio no meu “Sagarana” de sebo:
“Pedro querido,
Às vezes dizemos besteiras sem pensar. Magoar você é a última coisa que quero nesse mundo. A comida está na geladeira, é só esquentar. Depois conversamos melhor.
Sua esposa, que muito te quer,
Odila Maria”

Odila Maria. Quem será, ou seria? Qual o motivo daquela briga, o que aconteceu e quando? Como era sua vida, a cor dos seus olhos e cabelos, onde morava? A vida lhe deu filhos ou acabou se separando do Pedro pra virar freira? Pode ter morrido tragicamente num acidente de carro, dias depois.

Dedicatórias de Natal, de aniversário, formatura. Páginas com anotações do leitor a lápis, trechos sublinhados. Às vezes umas manchinhas. Goiabada, purê de batatas, misto quente, bobó de camarão?

Na última visita levei 14 vinis. De “Vida Bandida”, do Lobão, até uma coletânea de Ismael Silva. Total de 53 reais. Faz por 50? Faço, claro. Se preferir tem redeshop. É, sebo hoje trabalha com débito automático e cartão de crédito. Mais: há grandes sebos de São Paulo e do Rio com portinha aberta na web. Tudo separado por assunto, descrevendo o estado do livro e ano da edição. E dá pra dar zoom na capa. Você escolhe, compra e entregam em casa.

Mas aí também não tem graça. O legal é banhar-se naquele mar de ácaros e escancarar os pulmões à deliciosa poeira. E foi entre um espirro e outro que pincei um DVD de “As Invasões Bárbaras”, Oscar de filme estrangeiro em 2004. No estojo alguém escreveu, em esferográfica verde: “ L’ Amitié. Notre chanson”. Pesquisei no You Tube. Apareceu uma espécie de clipe em preto e branco, de 1965 e produção rudimentar, onde Françoise Hardy canta “L’Amitié”, uma romântica canção que embala a cena final do filme de Denys Arcand. Acesse e emocione-se. Se for alérgico a ácaros, tudo bem. Pelo menos por enquanto eles não vêm pela internet.

http://www.youtube.com/watch?v=MXWfb1PpmbQ

 

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05/05/2012 06:41:29
ANÁLISES CÍNICAS  Compartilhar
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 I

Não tenho nada a perder, daqui a pouco vou dar um basta definitivo na minha vidinha sem parasitas, vírus, fungos e meningococos. O negócio agora é bagunçar esse coreto arrumadinho de tubos e lâminas, botar desordem na casa. É minha forma, ainda que um tanto sinistra, de deixar minha marca por onde passei. Gastei décadas nesse insípido cenário branco e esterilizado, onde se coletam temores e esperanças da vida lá fora. Se não posso mudar meu destino, mudarei o dos outros. De desconhecidos outros - para melhor ou para pior. Perdoem-me, tenho que fazer isso.

II

Misturando a amostra da Denise com a do Tácito Luiz... isso, lindo blend, a coloração tá ótima. Nunca se viram e firmam agora um pacto de sangue, quem diria. A hepatite dele passa a ser dela, a anemia dela também é dele. É bacana essa fraternidade, essa solidariedade mórbida me deixa com lágrimas nos olhos. Cada um entrou aqui com uma doença e voltarão os dois com dupla enfermidade. Agora, ao microscópio. Olha como tá de micose essa lâmina, Deus do céu. Mas como é difícil de tratar mesmo, digo no diagnóstico que não tem nada - assim o velhinho não perde tempo nem dinheiro tentando à toa acabar com esses fungos. Parece tão boa gente, não merece essa esfrega. Além do mais, disso ele não vai morrer mesmo.


III

Carcinoma hepatocelular, isso já deve estar em fase de metástase brava... deixa eu ver no facebook o perfil desse infeliz. Festa, churrasco, pescaria, ê vidão... deve enxugar uma cana lascada pra ter o fígado nesse estado. O laudo vai desenganar o cara, e não vai ter tratamento que dê jeito com a situação nesse pé. Tantos amigos e solicitações de amizade, que judiação. Não sou eu que vou estragar o seu restinho de tempo por aqui. Então vamos lá, meu camarada... "Aspecto benigno, não observados indícios de neoplasia". Só aquele alívio na hora de abrir o envelope já é meio caminho pra melhorar muito o ânimo desse coitado. De notícia ruim já chega o Jornal Nacional. Maravilha, perfeito... agora o face... vou pedir pra me adicionar. Pode até não me aceitar como amigo, mas com certeza sou o melhor que ele já teve.

IV

Quintana Rubininsky... tinha um escroto no colégio com esse sobrenome. Se for parente, aí vai a maldição - tasco-lhe um positivo para HIV, tá bom pra você, querido? Vida louca, sem juízo dos infernos, se não tivesse má conduta o seu urologista não pediria o teste para afastar a suspeita. Aí vai, com toda a minha gratidão. É preciso que entenda que não é por mal, só estou fazendo minha parte pra tornar o mundo um lugar melhor.

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28/04/2012 07:57:55
ESTAÇÃO PARADISO  Compartilhar
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 Abre com lua e estrela, a pleno brilho em lugar qualquer. Clima de épico bíblico. Cena 2: panorâmica nos trilhos da linha azul do metrô. O filme dentro do filme dentro do filme. Metrô é espaço de passagem e não de saudosismo, destrói sem dó pessoas, memórias e o que restar de humano na meia dúzia de desolados a esperar na plataforma. Ninguém "é" estando ali, fica-se provisoriamente. Centenas de cópias piratas de DVD do monumento de Tornattore, prontas para serem esmagadas pelo próximo trem. Do jeito que fazem quando a Polícia Federal apreende contêineres de ray-bans falsificados. Travelling lento. Slow. Fusão para mim, dizendo em off algum lamento indecifrável. Uma cópia de cinquenta centavos do Cinema Paradiso não deixa de ser uma irônica continuidade dele. A banalização da permanência, diria o crítico com ar blasé ajeitando os óculos. A saga das películas salvas e guardadas, as âncoras enferrujadas na conversa dos dois na praia, o ancião cego ordenando que o menino vá embora da aldeia e não olhe para trás. A ferrugem da âncora, metáfora. Totó morreu do coração após aquele choro todo vendo as cenas de beijos censuradas pelo padre - imprevisto que não constava no roteiro. Ennio Morricone é outro que pode morrer em paz depois da trilha que fez, ela também nos trilhos agora, esperando a morte vestida de bites. Ninguém quase soube quando há meses um estilhaço de meteorito colidiu com o estacionamento onde fora o Nuovo Cinema Paradiso, que por sua vez era a reconstrução do antigo que pegou fogo. Pegaram fogo o velho cinema e o velho Alfredo, queimados o celulóide e o projecionista. Um dedo de poeira acumulada sobre a ruína da ruína da ruína. Daqui do buraco da estação eu sei que chove lá fora, no pavimento dos autos. É triste, não gosto. Quero de volta o meu ingresso, trazido pelo Totó menino com vestes de coroinha que vem chegando de bicicleta.


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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.
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21/04/2012 11:52:23
A LUNETA  Compartilhar
foto: FOTO: HBO VOYEUR PROJECT

Na embalagem havia um enorme splash, onde se lia: “Montagem fácil e rápida”. Bom, dois dias e duas noites não é tanto tempo assim. O suficiente para encaixar nos lugares certos as lentes, roldanas, parafusos, porcas e cilindros de diferentes calibres e tamanhos.

Custou mas valeu, telescópio e tripé montados. Agora, ao desfrute. Ao merecido desfrute - porque que de ferro, só a luneta. Marca Superrvision, zoom de 1600 vezes, nitidez absoluta.

Primeira parada. Uma enfermeira dando comida na boca de uma velhinha em uma cadeira de rodas. Ai, que estréia mais sem glamour. E a enfermeira era mais velha que a velhinha.

No apê ao lado, uma bruta discussão. O engraçado era ver apenas as bocas se mexendo, os braços gesticulando, os socos na mesa, os rompantes coléricos e não ouvir absolutamente nada. Pastelão de cinema mudo, só faltou torta na cara.

Vamos lá, meu povo, cadê a sem-vergonhice? Duas horas e quinze e nenhuma mulher sem sutiã passando do banheiro para o quarto. Nem uminha. Tá louco, era o caso de devolver pro fabricante. Telescópio que se preze não faz um papel assim.

Três andares acima, um cara solitário no sofá, o nó da gravata meio afrouxado, à frente de uma TV de plasma. A lente é poderosa, dá pra ver a programação que o sujeito está assistindo. A sala escura, ele zapeia. A luz do aparelho refletida em seu rosto se altera a cada mudança de canal. Enfia um dedo no nariz. Que nojo, não volto mais na sua casa, seu sem-educação. Isso são modos?

No quinto andar havia uma loira de tirar o fôlego, há tempos já a observava a olho nu. A vadia não saía do quarto, dando mole pro primeiro telescópio que se habilitasse. Mais que depressa, zoom máximo na dita cuja. Era loira mesmo, e seria perfeita se não fosse um pôster. Duplo azar: além da mulher ser de papel, o quarto com certeza era de macho. Castigo pouco é bobagem.

Na noite seguinte, a caçada continua. Ao mirar no décimo-sexto andar do Edifício Itapuã, sua luneta dá de cara com uma outra luneta apontando exatamente para ele. Sim, tinha certeza que era pra ele. O voyeur do voyeur, a perversão das perversões.
Assim que os olhares telescópicos se cruzaram, tentaram até fingir que não se viram. Uma luneta virou pra esquerda, outra pra direita, como se assobiassem, disfarçando.

Depois de umas dez janelas sem nada de interessante à vista, ele finalmente achou algo com que se entreter. Após um prolongado “Nooooooooooosssa!”, ali parou e ficou. Puxou até uma cadeira pra se acomodar melhor.

- Vai, vai, vai...
Uma voz feminina e muito familiar responde ao seu ouvido:
- Vai o que, Claudinho?

Era a esposa. Ô mulher pé de pluma. Quando deu pela presença, já estava no cangote. Mão na cintura, cobrando esclarecimento.

- Vai? Ah, sim. Vai logo, planeta, aparece logo, planeta...

- Planeta? Até onde eu saiba não tem planeta nenhum desse lado do céu. E mesmo se houvesse, esse prédio enorme aí em frente não ia deixar você ver nada.

- Nossa, é mesmo. Nem tinha reparado.

- Mãos ao alto, seu safado. Não mexe um milímetro nessa porcaria. Deixa eu ver o que você está vendo. Sai daí, sai daí!

Se aquilo era um planeta, só poderia ser Vênus. Um raro espécime do belo sexo, dessa vez de carne e osso, em trajes e poses que, digamos, acusavam claramente não tratar-se de uma freira.

- Sabe como é, testando o foco, querida...

E foi assim que, naquela noite, ele acabou vendo estrelas.


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14/04/2012 06:27:32
ENTERTAINER  Compartilhar
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Filha única do casal Floriano e Aléxia Montezuma, Fatinha nasceu com uma memória prodigiosa, digna de tese pós-doc em neurologia. Dentre outras façanhas, a garotinha de cabelos cacheados aos 3 anos já sabia de cor o Princípio de Arquimedes, e a pedidos da família o enunciava às visitas. A certa altura das muitas reuniões semanais em sua casa, a partir de um sinalzinho combinado com o Tio Ernesto, lá ia a belezinha pro meio da sala, entrelaçando uma mão na outra e olhando para o teto, como quem puxa pela memória: "Todo corpo submerso em um fluido experimenta um empuxo vertical e para cima igual ao peso do fluido deslocado". Um belo dia arrematou, num improviso que divertiu muito os convivas: "E a mamãe falou assim que o Seu Arquimedes saiu da banheira correndo pra rua, gritando Eureka, Eureka! e assustando a vizinhança com o bilau de fora. Não sei se é verdade, ela que falou. O bilau de fora também... não sei porque eu nasci sem bilau, mas em compensação”...

A mãe foi rápida e tapou providencialmente a boca da criança, antes que continuasse e dissesse o que não devia.

Quando o sarau familiar se estendia além do previsto, Fatinha era de novo convocada para animar o ponche com pães de queijo, dizendo os nomes das cores do pantone Suvinil. Os convidados se revezavam, escolhendo a esmo um código numérico no leque de 1.563 matizes. Sem titubeio, a menina dizia o nome da tinta. Era um festival de terracotas, verdes maritaca, brancos cordilheira, azuis netuno. Para cada acerto, palmas e mais palmas. Até que alguém falou o código E098, correspondente a vermelho carmim. E a menina: “foi dessa cor que o papai ficou quando pegou a mamãe no sofá da sala com o Tio Ernesto, os dois do mesmo jeito que estava o Seu Arquimedes quando saiu da banheira”.

Constrangimentos assim costumavam, compreensivelmente, esfriar a reunião. Mas nem sempre eram motivo para estragar completamente a festa. Assim, se após a Polonaise de Chopin, tocada pela madrinha da menina, o pessoal continuasse sem arredar pé, o jeito era chamar a Fatinha para outro número imperdível.

Depois de se fazer um pouco de rogada, lá ia nossa entertainer mirim a desfiar, um após outro e quase perdendo o fôlego, os nomes de todos os presidentes e vice-presidentes equatorianos e de suas respectivas esposas, por ordem cronológica de posse.

Se ainda assim os convivas pedissem mais festa, e não tendo mais o que servir para comer ou beber, apelavam de novo para a superdotada Fatinha, desta vez lançando mão de um expediente muitíssimo mais eficaz que a vassoura atrás da porta. Era quando a pequerrucha pegava pesado, ao declamar de cabeça um edital do DETRAN, convocando motoristas para comparecerem à delegacia regional de trânsito, com os nomes em ordem alfabética, modelo do veículo, números da placa e do chassi. Limpava o pigarrinho da garganta e começava: “Marca/Modelo: GM/Chevette/1982. Proprietário: Aarão Fonseca de Sousa, Placa LVG3213/PI, Chassi
9BGLL19BSRB332112. Marca/Modelo Fiat/ Siena/2004; Proprietário:
Abdias Hugo Soares de Brito, Placa LVI5840/PI, Chassi
9BWZZZ30ZKT007813”...

O decoreba agiu como um repelente de moscas. Terminado o serviço Fatinha foi para a cama, não sem antes dar uma lida no catálogo telefônico de Teresina.

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06/04/2012 18:15:55
CLUBE DA ESQUINA, 40  Compartilhar
foto: Foto: museuclubedaesquina.org.br


A agulha sulcando o vinil é arado rasgando as serras das Gerais - sem meias medidas, num quase estupro consentido. Segue a girar como Minas gira coração e miolos adentro, em quem é de lá de nascença, por costume ou vitimado de deslumbramento, com seus potes de compota e velas de procissão. Belô dos mares de bares, todas as esquinas convergem conformadas e tímidas para aquela uma, a tal que ganhou mundo e fama. Seguem como devotas na quaresma, essas esquinas comuns que não tiveram clube, passos lentos e testas vincadas prematuramente. Seguem pela Via Crucis de paralelepípedos gastos, com baldeação em Três Pontas, Montes Claros e onde mais passe o trem azul. E reverenciam, de joelhos, o latifúndio patrimônio deste mundo. Esse queijão com um furo no meio que Deus benzeu.


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31/03/2012 09:00:23
DOIS DENTES  Compartilhar
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Foi na sala de espera do dentista, enquanto matava o tempo lendo uma história em quadrinhos, que caiu a ficha. Me dei conta que os personagens, quando humanos, apresentavam no lugar dos dentes duas fileiras brancas sem separação, uma em cima e outra embaixo. De onde formulei minha teoria, inútl mas não completamente estúpida: os dentes deveriam ser 2, e não 32. Duas peças ósseas e inteiriças, lisas como fórmica, enraizadas nos respectivos maxilares.

Tudo bem que, ao dividir a engenhoca mastigadora em frações, a natureza foi sábia: havendo problema o reparo é localizado, só se mexe na porção avariada. Mas cismei de imaginar se mother nature, no caso, tivesse sido tão pouco inteligente quanto o meu devaneio.

Seria a ruína dos ortodontistas, que não teriam o que fazer com seus aparelhos corretivos por não haver mais dentes tortos nem encavalados para alinhar. Os fios dentais sumiriam das prateleiras e as escovas durariam décadas. Resíduos de alimentos não encontrariam onde se alojar, e consequentemente as cáries estariam em maus lençóis. Fábricas de palitos fechariam as portas da noite para o dia. Por outro lado, um tombo qualquer, em efeito análogo a uma pedrada no para-brisa, poderia trincar de fora a fora o reluzente semicírculo bucal, que ganharia um racho vitalício e indisfarçável. Os exames de arcada, comuns nas perícias criminais, deixariam de existir, já que todas elas seriam idênticas. Grafiteiros veriam na alva e extensa chapa um muro biológico para expressar sua arte. A cultura underground conceberia a Odontatoo, a tatuagem dental, personalizando o standardizado sorriso do freguês.

É, melhor parar por aqui. Antes que me arrebentem os dentes.

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24/03/2012 08:11:16
UM CONTROL Z DE PRESENTE  Compartilhar
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Dedicado ao meu amigo e ilustrador deste texto, Thiago Cayres, que faz aniversário no mesmo dia que eu. E também para o meu pai.

 


Como de costume, estava eu à noite na varanda, curtindo o fastio da janta e dando comida pro cachorro, quando o Homem lá de cima chegou de surpresa e aboletou-se na cadeira do papai. Que aliás, era mesmo do meu pai. Sem maiores cerimônias, ajeitou-se na poltrona, coçou por instantes a longa barba e desembuchou:


- Diga lá, criatura. Como é que está essa força?

- Oi, Criador. O Senhor por aqui!

- Trouxe pra você um presente. Não repara, é só uma lembrancinha.

- Um presente do Onipresente. Não precisava se incomodar...

- Imagina, temos que comemorar seu aniversário.


Abri o pacote, embrulhado em um papel cheio de anjos, e no fundo dele vi um pequeno cartão escrito com a inconfundível letra do Todo-Poderoso: "Vale um Control Z".


- Meu Deus! Um Control Z! O comando mágico que conserta as besteiras que a gente faz no computador.

- Pois é, pra você apagar alguma burrada que tenha feito. Um erro que tenha cometido na vida, não no computador. Escolha o momento em que quiser voltar atrás e faça bom proveito. Seus hábitos de fazer o sinal da cruz quando passa em frente à igreja e de desviar das formigas que andam pela calçada o fazem merecedor deste mimo, meu caro.

- Ah, então já sei o que quero fazer. Aproveitando que o Senhor está na cadeira que foi do meu pai, traga ele de volta pra mim. Um Control Z faz isso, não faz?

- Meu querido, o que eu te dei de presente não é lâmpada de Aladim. Um Control Z só pode reverter uma ação que você tenha praticado e se arrependido depois. Ele funcionaria, no caso, se você tivesse colaborado para que seu pai se fosse. Mas felizmente não foi isso o que aconteceu. Do contrário você estaria bem arrumado Comigo...

- Bom, nesse caso, peço que o Senhor use o Control Z que me deu e conserte a Sua ação de ter levado meu pai. Com todo respeito que Lhe devo, o que me diz da ideia?

- Não diga nunca mais isso, sob pena de cair em pecado mortal! Como Onipotente, sou infalível. Se seu pai se foi, era a hora dele e não cabe a você questionar os Meus desígnios. Estou muito chateado com o que disse, e sua ficha razoavelmente limpa acaba de ser maculada.

- Mas Senhor, veja bem...

- Porém, Minha infinita bondade permitirá uma remissão do acontecido. Use o Control Z que acabou de ganhar para voltar atrás no que disse. Aí então estaremos quites. Sua impertinência o forçará a desperdiçar o presente que com tanto carinho escolhi para você.

- Tá certo... mas sem chance de me arrumar um outro Control Z depois deste?

- De jeito nenhum. Assim, sugiro que o use pra limpar sua barra com a minha Pessoa. Além do mais, se bem o conheço, você não ficará com a consciência tranquila sabendo que Eu voltaria lá para cima sentido com o que fez.

- Ah, isso não ia mesmo.

- Então vamos logo com essa história, porque Eu tenho a eternidade toda mas não tenho muito tempo a perder por aqui. Dê um Control Z no que disse, entenda que é para o seu bem e saiba que o seu pai está ótimo lá em cima, cuidando de importantes afazeres.

Fiz a vontade de Deus. Acionado o Control Z, olhei para a cadeira do papai e dei com ela vazia, como se nada tivesse acontecido. Só os latidos do Poopin, pedindo mais ração. E as batidas no meu peito, pedindo de volta o meu pai.

 

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17/03/2012 06:33:56
APARTAMENTO 607  Compartilhar
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Naquele cubículo eu a amei mais do que seria o bastante a dois mamíferos normais. Ou mais do que seria conveniente aos olhos e ouvidos dos vizinhos.

- Essa penugenzinha mais espessa caminhando pro seu umbigo, olha só.
- Ah, seu bobo. Cada uma...

Viro pro outro lado e dou com o peixe em zigue-zague ali no aquário, assustadinho. A falta de gravidade, zumbe a bomba de ar, há um verde musgo nos cascalhos e o reflexo da gente distorcido no vidro.

Quero que a tarde plane sobre a pólis desse jeito, com a tv ligada e nos ligando por um zonzo abandono de afazeres. Além do mais, há quase um tudo nesse nada, e é um estrondo a brisa leve nas avencas. Que mais a gente pode desejar, a não ser o dilatamento do tempo governando o espaço nosso?

- Alguém acendeu um aqui perto, sente o cheiro.
- Cheiro é o seu, meu bem.

Cheiro é o dela. Estrógeno concentrado nos cabelos fininhos da nuca. A falta que você fez enquanto hoje não chegava, se soubesse. Se soubesse se arrancava de onde estava e se atirava sem vergonha sobre mim, antes do prazo combinado e dos procedimentos cumpridos.

Os dentes todos, brancos e seus, rompendo a carne da maçã. Que bom é assim, vendo você sem que se saiba sendo vista. O lençol se espraia em ondas pela cama. Florzinhas, detalhes, coisas de mulher que põe sentimento no cio. Há uma batalha em andamento nesses três metros por quatro, sem vencedor nem vencido, só a disputa e a conquista do território do outro. Estar dentro do outro lado, ser os dois lados e um só. Depois é água e bandeira branca, amor.

- Duas coisas, meu anjo: pede uma pizza e traz a manta.
- Sim senhora. E eu, também estou no pedido?

É de perder a cabeça quando ela aciona esse riso, como se abrisse um preview do mistério de que é feita. Vinte minutos de cócegas e guerra de travesseiros. Nada muito mais sério pode rolar daí pra frente, eu sei mas finjo que não e tento falar de nós dois enquanto conto suas estrias.

- Espera aí que eu já volto, o motoqueiro tá buzinando.

Uma sirene de polícia e um alarme disparado Sua pulseira sobre a antologia de Drummond. O relógio e as chaves de casa, do carro e de nós. Trago os talheres e os pratos.

Gosto tanto do atrevimento, tão raro e tão bem-vindo. Das poucas vezes em que você se presta a me domar. É claro que a porta pode se abrir para uma procissão de camelos, mandalas de pedra podem passar razantes sobre nossas cabeças que tudo bem, nada que assuste ou afaste os olhos cravados nos olhos.

- Me ajuda aqui com o fecho do vestido.

Se ela tem mesmo que ir, que vá cheirando a mim. A saciedade é uma ilusão que dura quase 10 minutos. Tudo o que vier a acontecer será só ínterim entre sua partida e seu retorno incerto.

O que consola é você deixar pequenos vocês nos arredores. Batom no copo, cabelo no ralo. Uns rastros poucos que duram, quando muito, até amanhã. E amanhã é muito longe da outra vinda, quando aqui será o nirvana novamente.


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10/03/2012 05:29:36
ÁGUA NO SHAMPOO  Compartilhar
foto: ILUSTRAÇÃO: THIAGO CAYRES

Não é novidade para ninguém que nosso salão está com os fios, ou melhor, com os dias contados. Ou tomamos providências emergenciais ou seremos forçados a fechar as portas.

As orientações abaixo são estritamente confidenciais. Se cairem nas mãos de alguém que não pertença ao quadro funcional, estaremos irremediavelmente perdidos. Assim, sugiro a todos que destruam este documento assim que finalizarem sua leitura.

De forma geral ficam valendo como padrões, até segunda ordem, os procedimentos a seguir.

Sem que o cliente perceba, procurem deixar o cabelo pelo menos meio centímetro mais comprido que o solicitado. Exemplo: nos cortes masculinos, se pedirem para cortar com a máquina 2, cortamos com a 3, se pedirem com a 1, cortamos com a 2, e assim sucessivamente.

Para as mulheres, sugerimos indicar como nova tendência mundial a franja quase caindo nos olhos, o que as obrigará a fazer manutenção do corte a cada 5 dias no máximo.

Vamos tentar, tanto quanto possível, canalizar os atendimentos para datas com lua crescente. Como todos sabemos, cabelos crescem mais rápido nesses dias e consequentemente o cliente volta antes.

Shampoo e condicionador: diluir na proporção de 3:1, no mínimo. E nada de repetir a operação, sob pena de demissão por justa causa.

As assinaturas de revistas, que já estavam suspensas desde 2006, prosseguem cortadas. Uma vez que ninguém mais lê revistas tão velhas, venderemos as que estão em uso para empresas de reciclagem, destacando em uma faixa ou cartaz que estamos fazendo nossa parte por um planeta sustentável, eliminando papel e colaborando para a sobrevivência das florestas.

Convênio com médicos ginecologistas.
O tempo que as mulheres perdem cortando os cabelos ou fazendo as unhas é, a bem da verdade, perdido. Assim, enquanto tratam da beleza poderiam também cuidar da saúde. Passaremos a oferecer um diferencial único no mercado: exames de Papanicolau simultâneo ao corte de cabelo, por meio de um aparato ginecológico volante, operado por médico da especialidade conveniado ao salão.

Banco de cabelos de notáveis.
Comportamento ético é muito bonito no discurso, mas não é este o caso em nossas atuais circunstâncias financeiras. Desta forma, partiremos para a fraude sem maiores dilemas de consciência. O engodo na cara dura. Simples assim: não jogaremos no lixo as mechas recolhidas no salão. Inventaremos donos célebres para elas, avalizadas por certificados de autenticidade igualmente falsos, com o cuidado de escolher tons de mecha que correspondam à cor natural do cabelo da celebridade. Como a descoberta do golpe seria caso de polícia e de uma pauta especial no Globo Repórter, ofereceremos as relíquias só em circuito interno e para os clientes mais bobos, que caiam facilmente na esparrela. Além de faturarmos bem com a brincadeira, ficaremos com a fama de sermos o salão de beleza de gente famosa.

Outras sugestões são bem-vindas. Lembrando a todos os colaboradores o lema da nossa campanha de redução de custos: “Quanto mais cortes de cabelo, menos de cabeça”.

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03/03/2012 06:13:45
A SECO  Compartilhar
foto: Ilustração: Thiago Cayres

Colecionava canetas. Não as que considerava belas, diferentes ou raras, mas todas as que usava até as cargas chegarem ao berro. E só se permitia guardá-las após secarem irremediavelmente: enquanto não se tornassem inúteis, não poderiam pertencer à coleção.

A tal ponto chegou a compulsão em juntá-las que, estivesse fazendo o que fosse, com a mão direita ou a esquerda rabiscava qualquer coisa com a intenção única de gastar tinta e incluir mais um exemplar à extensa renca. Falando ao telefone, assistindo TV, trabalhando e até mesmo dirigindo, lá estava ele com um risque-rabisque ao lado ou no colo, alternando entre movimentos retos e circulares para prevenir LER e tendinite.

Com o tempo foi percebendo que as canetas mais vagabundas gastavam mais rápido, o que o levava com frequência quase diária ao camelódromo. De lá voltava com dúzias delas, e nem bem se despedia do dono da banca já começava a rabiscar pelo caminho. Muros, postes, panfletos de comida por quilo, toda superfície onde a ponta da caneta deslizasse servia para dar vazão à neura. Rabiscava com o alívio de quem esvazia a bexiga, toma fôlego, mata a fome. Já nem dormia direito, julgando desperdiçadas as horas em que ficava sem caneta à mão. Daí passou para o vandalismo sem controle. Era detido riscando carros pelas ruas, assentos no metrô, fórmicas de balcões de lanchonete, cabines de elevadores. Nos acessos mais violentos, metia-se em banheiros públicos e pintava em tinta esferográfica todas as portas que via pela frente.

Preso em flagrante tentando rabiscar os quadros do museu da cidade, não houve fiança que o tirasse dessa vez da delegacia. Na cela, ao invés de um risquinho na parede para contar os dias de cativeiro, fazia um a cada segundo transcorrido. Prisioneiro de sua paranoia, forrava tudo ao redor com centenas de milhares de pequenos traços. Até se contorcer em cãibras, até sangrarem as mãos, até que a carga de vida enfim secasse.

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25/02/2012 09:53:06
DUÑA E AS SACOLINHAS  Compartilhar
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Duña, o venerável e nunca suficientemente louvado profeta dos nossos tempos, mais uma vez interrompeu seus ofícios missionários para recomendações de ordem prática a seus fiéis, desta feita no que se refere ao imbróglio das sacolas de supermercado.

Sorridente e aparentando 23 anos a menos que os seus assumidos 118, o sapientíssimo oráculo derramou bênçãos por onde passava, entupindo de fluidos benfazejos desde a praça municipal até as proximidades da Sorveteria do Neco. Lá estacou, bateu três vezes com o cajado no chão e pediu à multidão que silenciasse e se mantivesse de joelhos enquanto falava.

O pronunciamento segue transcrito na íntegra, conforme colhido pelo Capitão Dorgival Orozimbo de Castro, militar da reserva e taquígrafo nas horas vagas:

“Inicio minha homilia conclamando a humanidade sofredora a reconhecer que mais vale a mercadoria que se coloca dentro do que o saco que a acolhe, seja ele de que material for.

Limita-se a discussão às sacolas que deixarão de ser produzidas doravante, mas ninguém menciona o extraordinário potencial de dinheiro que as sacolinhas já utilizadas renderiam aos meus fiéis de espírito empreendedor.
Aparentemente, nenhum pobre mortal pensou que elas podem ser recolhidas do lixão, esterilizadas e revendidas ao consumidor final a nove centavos e meio a unidade, valor 50% menor que o cobrado pelos supermercados (dezenove centavos).
Lembro aos meus piedosos discípulos que esta não deixa de ser uma forma – ainda que arcaica – de reciclagem. E mais: tendo-se em conta que as sacolinhas levam no mínimo 100 anos para se decompor, o processo de coleta pode se repetir milhares de vezes – isso se as sacolas resistirem sem furos entre uma ida e outra para o lixão, o que me parece improvável.

Deixo ainda uma instrução para aqueles que desejam continuar servindo-se de sacolas plásticas em qualquer estabelecimento sem ter que pagar um tostão por isso. Ao fazer suas compras, passe pelo setor de hortifruti e compre pelo menos um cacho de bananas, talvez meia dúzia de laranjas, quem sabe uma baciada da xepa ou algo ainda mais baratinho. Antes de colocar as frutas e/ou legumes dentro do saco transparente, de qualidade infinitamente superior às citadas sacolinhas e disponibilizado à vontade em rolos de diversos tamanhos pelo setor, coloque uns 30, 40 ou mais sacos no fundo daquele em que for acondicionar os vegetais. Pronto. Na hora de pagar, passe primeiro pelo caixa o saquinho premiado e depois embale tranquilamente sua bem fornida compra de mês nos saquinhos extras legalmente surrupiados.

Concluindo, alerto aos meus seguidores: cuidado ao circular com sacolinhas de supermercado por vias públicas neste momento, onde elas são assunto de acaloradas discussões nas assembleias legislativas e no Congresso. Ontem mesmo, após o culto das 17h22, alguns dos membros da nossa congregação reuniram-se nas escadarias do templo para, inocentemente, aspirarem sua colinha de sapateiro e relaxarem um pouco da faina diária. Pilhados em flagrante pela polícia, que de longe avistou no saquinho de aspiração a marca PAG-PAG, a turminha duñesca foi indiciada em inquérito, sendo a sacolinha imediatamente apreendida, fotografada e encaminhada a laudo pericial. Já a cola de sapateiro, após raspada da sacola pelo Cabo Janjão, foi devolvida num pote de danone ao grupo. Vejam vocês, misericordiosos irmãos!”.

Ditas as palavras finais, o secular iluminado foi aplaudido pela multidão, que o levou nos ombros até a cabana onde vive e pratica a meditação, a penitência e a autoflagelação desde 1942.

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18/02/2012 07:34:22
DE CASA PRO TRABALHO, DO TRABALHO PRA CASA  Compartilhar
foto: Ilustração: Thiago Cayres

- Nunca me esqueço. Eu devia ter uns quatro anos quando aquela brotoeja pipocou no seu avô. Apareceu assim, do nada, numas férias de verão lá em São Vicente. Ele não deu bola e a coisa foi piorando, piorando, virou outro negócio que quase fez o velho encontrar Nossa Senhora mais cedo.
- Sim, papai. O senhor sempre conta essa história.
- E vou continuar contando até vocês aprenderem que são demais os perigos desta vida, e que pra morrer basta estar vivo. Não precisa ir longe pra perceber que a gente está cercado de ameaças. Ontem, por exemplo, ao acender a luz do quarto percebi uma mancha amarela em uma das pás do ventilador de teto, próxima ao terceiro parafuso que prende o globinho com a lâmpada. Tratando-se ou não de um foco fúngico, de resquícios de pólen ou seja lá o que for, convém substituí-lo por outro, pra afastar de vez o risco de alergia. Concorda comigo, amor?
- Sim, querido. Vai que acontece alguma coisa.
- Aproveitando a deixa, venho notando ultimamente que o peso da porta da área de serviço está mantendo-a aberta em ângulo maior que 25 graus, o que é um perigo para criar corrente de vento dentro de casa. Vento encanado pode causar resfriado, que é um passo pra gripe, que mal curada vira pneumonia, que de pneumonia evolui fácil para...
- Deixa comigo, amor. Por via das duvidas, providenciarei pra que fique sempre fechada.
- Melhor assim, melhor assim.
- Não vai tomar seu mingau com semente de linhaça? Acabei de fazer.
- Estou atrasado, não vai dar tempo. Dá pra Maria Luiza comer. Estou sentindo ela meio pra baixo. Algo me diz que é deficiência vitamínica, mas não afastaria a possibilidade de uma virose com comprometimento temporário da função hepática. Dai para um aumento incontrolável de glóbulos brancos não custa nada. Foi o que deu na Tia Josélia, lembra? Coitadinha, tá até hoje sem previsão de alta. Bom, o dever me chama. A essa hora já deve ter um montão de gente me esperando.
Reparte o meu cabelo, querida. Deixa eu dar uma umedecida que fica mais fácil. Isso, a risca tem que ficar alinhada com o nariz. Isso, assim tá bom. Ah, por falar em umedecer, lembro a todos que ninguém merece um foco de dengue dentro de casa. Portanto, tampas de privada, já sabem: sempre fechando o vaso sanitário.
- Mas pai, criadouro de Aedes só se forma em água parada.
- Sei, e a água que fica lá no vaso o que é? Falam na televisão pra tomar cuidado com água no vaso. Pra gente se garantir, tinha que deixar alguém apertando o botão de descarga o tempo todo. O mesmo vale pra esses restinhos de água nos copos em cima da pia. Um perigo, um perigo!!
- Mas espera aí, assim também já é demais... usamos estes copos agorinha mesmo!!!
- Meu amor, o mosquito da dengue não quer saber se a água está parada há dois minutos ou há quinze dias. O negócio dele é água parada e pronto, azar o nosso. Bom, depois a gente continua a conversa. O patrão me chama e a plateia me espera. Tchau!

Respeitável público, com vocês o único, o fenomenal, o inimitável, o primeiro trapezista das Américas a executar o quádruplo mortal sem rede de proteção! Rufem os tambores... diretamente de Anunciación de las Astúrias, o grande, o fantástico, o destemido... Lorenzo de las Cruces, mais conhecido como “A Hélice Humana”!


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11/02/2012 06:45:31
BABA-OVO  Compartilhar
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Não conhecia a expressão até outro dia. Já tinha ouvido muitas de suas variantes elencadas pelo Aurélio: bajulador, adulador, adulão, babão, cafofa, chaleira, incensador, lambedor, lambeta, lambeteiro, louvaminheiro, puxa-saco, sabujo, xereta, banhista, cheira-cheira, chupa-caldo, corta-jaca, engrossador, enxuga-gelo, escova-botas, incensador, xeleléu, lambedor, lambe-botas, lambe-esporas e mais um outro sinônimo realmente impronunciável.

Mas baba-ovo pra mim é novo. Não o sujeito, mas o predicado. Aliás, alguém poderia me dizer por que baba-ovo se chama baba-ovo e por que puxa-saco se chama puxa-saco?

Questões semânticas à parte, é preciso reconhecer que o baba-ovo legítimo, aquele que honra a classe, geralmente não é o que se poderia chamar de um cara ambicioso. Sua pretensão é ter o seu lugarzinho ao sol e tudo bem. Não chega a ser arrivista e também não é necessariamente mau-caráter. É ardiloso de nascença e por força das circunstâncias, mas seria uma injustiça chamá-lo de canalha. Falta a ele coragem para a vilania.

Como tudo que é rasteiro e ordinário, os baba-ovos pululam à nossa volta, é raça que se dissemina em estonteante velocidade. Agora mesmo tem um baba-ovinho nascendo. Tão baba-ovo que, se dependesse dele, ao invés de chorar na hora do parto daria um tapinha nas costas do médico. Sabe como é, nunca se sabe quando é que se vai precisar das pessoas...

Uma vez baba-ovo, sempre baba-ovo. Começa com a maçã lustrosa na mesa do professor e termina com o discurso, aos prantos, na cerimônia comemorativa aos 75 anos do Diretor-Presidente. E nessas e outras pequenas coisinhas, lá vai ele se segurando no staff e amealhando pontinhos.

O baba-ovo não é o político. É o assessor dele. Seu negócio é mais superficialzinho, não engendra grandes estratagemas e não age em quadrilha. É improvável que um puxa-saco entre em conluio com quem quer que seja pra obter alguma coisa. O baba-ovo de verdade é egoísta, quer fazer ele mesmo e não gosta de dividir o mérito, se é que se pode chamar de mérito o produto de sua desfaçatez.

Ser o escudeiro é tudo o que basta ao abnegado puxa-saco. Ele se compraz tendo o imediato superior a reverenciar. A seara dele é o bastidor, a adulação estudada e cheia de intenções adjacentes. O barato do baba-ovo é a própria vassalagem, curvar a espinha é o seu orgasmo. Fica sabonetando e estendendo o tapete por instinto e vocação mesmo. Definitivamente, ele gosta da coisa.

O mais engraçado no baba-ovo é a sua inaptidão em disfarçar a babaovice. Se acha um expert em dissimulação, tem certeza de que ninguém está percebendo seus expedientes. Não imagina o quanto sua pretensa sutileza é ostensiva, o quanto é alvo de chacota nas rodinhas de conversa e nas mesas de bar. Enfim, o torpezinho mal sabe a que ponto sua fama é estabelecida na praça. E vai ficando sem saber, já que falta peito aos colegas para alertar o indivíduo. Já pensou chegar pro enxuga-gelo e dizer – “Ô meu, manera na puxa-saquice que tá dando na vista”? Não dá. É algo parecido com aquela história de avisar o sujeito que ele tem mau hálito. Todo mundo sabe que é uma boa ação, até um gesto de caridade, mas ninguém se aventura a ser tão sincero.

Nas reuniões, sua perfeita concordância com as opiniões do chefe é tão automática e previsível que não choca mais ninguém. Mas aí acontece um imprevisto: o baba-ovo é surpreendido por uma inesperada promoção e passa a ser sub-chefe de qualquer coisa. Consequentemente ele terá, se não um arsenal, pelo menos um neo baba-ovo mais do que disposto a lamber-lhe as polainas. A pergunta é: será que ele, alçado agora ao posto de “adulável”, vai perceber?


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04/02/2012 08:06:46
JUSTA MEDIDA  Compartilhar
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Foi a minha avó, afamada costureira do Rio antigo, quem confeccionou o célebre pijama do Getulio. Aquele que até hoje guarda o furo no peito e as marcas de pólvora.

Vaidoso como era, o Dr. Getulio poderia ter escolhido o traje que bem entendesse para a sua hora fatal. Fraques, ternos e até cartolas não lhe faltavam. No entanto, escolheu ele o pijama, seu adorado e fidelíssimo pijama, mais fiel e mais chegado que todos os seus guarda-costas, assessores e correligionários juntos.

Pijama que entrou para a história como o dono. Foi sobre a sua seda que correu o sangue do pai dos pobres, o criador dos direitos trabalhistas, o homem que ficou mais tempo mandando nessa terra de desmandos. Foi dentro da obra máxima da minha saudosa vovozinha que Vargas deu seu ultimo suspiro. Desde 1955 no Museu da República, muito provavelmente é o pijama mais visto e fotografado do mundo. Quando é que a finada vovó Doroty, bordando distraidamente o “G V” do monograma, poderia imaginar o culto que aquela peça teria com o passar dos anos?

Minha avó dizia que o Seu Gegê era irritantemente detalhista em assuntos de indumentária de alcova. Seu envelope de dormir não poderia ser muito apertado a ponto de lhe tolher os movimentos no leito, nem tão folgado a ponto da calça lhe escorregar pela pança se tivesse que saltar rapidamente da cama por motivo de urgência - o que não seria difícil naquele tumultuado agosto de 1954. O fato é que o baixinho gaúcho talvez fosse o único bípede pensante a ter pijamas sob medida, um preciosismo que os livros escolares, estranhamente, nunca registraram. Ah, minha velha e injustiçada Doroty...

Falando em medida, uma mais do que justa seria o reconhecimento,do governo federal à minha talentosa e dedicada vovó, que com suas tesouras, linhas e agulhas tanto contribuiu num dos momentos mais críticos que este pais já viveu. Imaginem que triste espetáculo, aos olhos do mundo, se Getulio tivesse sido encontrado de cueca ou de ceroulas em seu leito de suicida? Nossa nação, que já não tem fama de séria, cairia em irremediável ridículo no noticiário da época. Dependendo da estampa da cueca, nem todos os esforços de embaixadores e diplomatas conseguiriam abafar a desastrosa palhaçada.

Mas Dr. Getulio era um gentleman até depois de morto, e sabia da importância de um pijama apresentável no contexto das relações internacionais. Não envergonhou o Brasil, ostentando um exemplar digno e maravilhosamente desenhado, com listras simétricas e um estilo de fazer inveja a todo o guarda-roupa de Eisenhower, o presidente norte-americano na ocasião da tragédia.

Solicito então, às autoridades constituídas, que a partir de agora sejam cobrados royalties de toda foto ou vídeo que documente o pijama de Getúlio Dorneles Vargas, e que a quantia seja revertida a mim - único herdeiro vivo de Dona Doroty. Reivindico, além disso, uma pensão vitalícia de valor equivalente ao recebido pelos ministros do Supremo, a título de retribuição por tudo que minha família fez pela nossa história.

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Este texto é obra de ficção. Embora escrito em primeira pessoa, o suposto autor da reivindicação é fruto da imaginação deste escriba.

 

 

 

 

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28/01/2012 06:24:15
BOBO E SUA CORTE  Compartilhar
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Já reparou como os termos “Bobo” e “Tolo” têm sinônimos? Dentre tantos, “Doidivanas” sempre me chamou a atenção. Acho que foi lendo algum romance de cavalaria ou livro de Julio Diniz que vi a palavra pela primeira vez. Recorri a um pequeno e nada confiável dicionário e encontrei lá: “Doidivanas: o mesmo que Estouvado”. Fui em “Estouvado” e li: o mesmo que Doidivanas. Ou seja, o pai dos burros me fez de bobo.

Ser bobo vai além de ser otário. Tem também o sentido de ignorante, que contempla como sinônimos uma extensa família de quadrúpedes: besta, asno, jerico, jumento, jegue e simpatizantes. Sem falar da anta e da toupeira.

Fora do reino animal, um dos meus favoritos é “Bocó”, quase um arcaísmo atualmente. Melhor ainda é “Bocó de Mola”, que sugere um upgrade na acepção original (ou um downgrade, no caso).

Igualmente em desuso está o “Monte”. Largamente empregado na zona rural de São João da Boa Vista e adjacências nos anos 70, o vocábulo com toda certeza é oriundo do sul de Minas. Não sei se continua vigindo. Monte é, basicamente, o mala de hoje. Tem o significado de empecilho, estorvo que fica no meio, atrapalhando tudo e empatando a f...

Vamos ao “Tonto”. Ele é parecido com o bobo, mas não é a mesma coisa. O bobo é menos bobo que o tonto. Historicamente o bobo tem ofício definido. Como todos sabem, era ele quem divertia os reis nas cortes medievais. O tonto, por sua vez, é um Mane-Quarqué (que me perdoem meus leitores Manoéis ou Manuéis), um “Girolas” inofensivo. Por falar em Mané, há que se mencionar aqui os derivativos “Mané-Coco” e “Mané-Jacá”, além do conhecidíssimo “Mané-Patola”, a quem algumas populações ribeirinhas denominam simplesmente de “Patola”.

Temos ainda o “Boboca”, que imagino um semi-bobo, aspirante a bobo ou algo que o valha. É mais do que um bobinho, mas é menos que um bobo 100% genuíno. Na mesma classe estão os “Parvos”, a bradarem suas parvoíces em qualquer tempo e lugar.

A letra “P” é rica em sinônimos de lesos: temos, entre outros verbetes, “Palerma”, “Paspalho” e “Pateta” – todos com sentido semelhante e QI idem.

Na letra “T”, além do tolo e da toupeira já citados, encontramos o “Tapado”. Por analogia, podemos caracterizá-lo como um surdo-mudo neurológico. Nada é capaz de permear sua couraça obtusa. Pra cantar a “Florentina” do Tiririca ele precisa olhar a letra.

Capítulo à parte merecem o “Doido de Pedra” e o “Doido Varrido”, mas não serei eu o maluco a atribuir-lhes o sentido. Só imagino um napoleão-de-hospício esculpido em mármore e um serzinho com camisa de força se debatendo entre ramos de piaçava.

O “Abestado” é tão inclassificável que nem é aceito pelo Aurélio. O insigne dicionarista o cataloga como “Abestalhado” – que particularmente considero um tanto quanto articulado para o caso. Abestado é infinitamente mais besta que abestalhado, concorda?

Muitos termos possuem a mesma raiz etimológica, mas gradientes peculiares de significado. Compare “burro” e “burraldo”. O leitor logo perceberá que o burraldo puxa a carroça com mais força. O burraldo é o burro xucro, incorrigível, que deixa o rastro das ferraduras por onde quer que passe. O burro é menos pretensioso na escala búrrica - de vez em quando é capaz de falar coisa com coisa. Muito de vez em quando, mas é.

“Babaca” e “Panaca”. Mesmo que a grosso modo não pareça, entre eles há uma notável diferença. A grafia semelhante esconde na verdade um abismo conotativo. Explico: o panaca é mais lorpa que o babaca. Panaca ri das cenas de torta na cara; já o babaca não acha mais graça nisso, não. Na escala evolutiva, está um degrau acima do panaca. O máximo que o babaca faz é chifrinho nas fotos de festa de aniversário, embora afirme aos mais chegados que já abandonou o vício.

Pouca gente se dá conta, mas “imbecil” e “idiota” não são propriamente xingos. Idiotia e imbecilidade são estados psíquicos – patologias catalogadas e estudadas pela psiquiatria moderna. Psiquiatria que já vem se debruçando sobre os “Seqüelados” e os “Sem-Noção” – neo-zuretas desse insano início de século 21.

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21/01/2012 07:38:08
QUIOSQUE SAGRADO  Compartilhar
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INSTRUÇÕES GERAIS PARA FRANCHISING NO FORMATO UNIDADE MÓVEL

. Defina um nome para a agremiação religiosa e consulte primeiramente o Google, o site do INPI e www.registro.br para certificar-se de que não existe alguma seita já registrada sob a mesma denominação. Tendo em vista que em média 3 novas associações de cunho religioso são instituídas diariamente, o risco de criar uma igreja homônima é grande.

. O crescimento do negócio está diretamente relacionado às taxas de conversão, ou seja, ao índice de arrebanhamento de novos fiéis para a congregação. Uma base inicial de 2.500 frequentadores é suficiente para que o capital investido em instalações, aquisição de imagens, piscininha de lona para batismo e propaganda com carro de som retorne em 24 meses.

. Tal estimativa de retorno baseia-se numa renda média per convertido de 1,5 salário mínimo, e levando-se em consideração uma décima parte disso como receita líquida da igreja (dízimo).

. Entende-se como quiosque a tenda armada em locais de grande fluxo de pessoas com o perfil socioeconômico visado, compreendendo estrutura em PVC, 3 cadeiras, um frigobar com água mineral benta sem gás, 2 displays acrílicos para folhetos, resma com 500 formulários de conversão, bíblia de isopor para decoração e carimbo “Recebemos”.

. A função do quiosque-franchise consiste na prospecção de convertidos para encaminhamento ao templo mais próximo a cada unidade móvel. Assim sendo, é imprescindível estabelecer um acordo operacional entre o franqueado do quiosque e o pastor responsável pelo templo nas imediações do mesmo.

. Os atores para encenação dos rituais de desencapetamento podem ser recrutados junto a grupos amadores de teatro, nas cidades ou bairros onde os quiosques se instalarem. Para efeito de cachê, sugerimos um percentual sobre os dois primeiros dízimos angariados dos recém-convertidos.

. Mel Curador, Sal da Vitória, Chá Desbrochante, Palitos de Fósforo da Fogueira Divina, Genuflexório de Bolso, Coça-Costas da Prosperidade e Espada da Ira Santa poderão ser exibidos e comercializados em showroom nos quiosques. Todavia, o fiel comprador deverá ser informado pelo franqueado de que tais itens, do catálogo da Sagrada Store, só apresentarão seus miraculosos efeitos após benzimento por missionário, pastor ou bispo e mediante a compensação do cheque utilizado na compra.

. Em toda e qualquer forma de comunicação visual, o franqueado deve comprometer-se a colocar, logo abaixo da logomarca de sua igreja, a informação: “Integrante da Rede Bem-Aventurança de Jericó”.

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14/01/2012 04:55:05
ABBEY ROAD REMIXADO  Compartilhar
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- Ok, boys. Já que a ideia é mesmo essa e parece que não há jeito de vocês voltarem atrás com essa tolice, tenho algumas sugestões para deixar o resultado final um pouco menos ruim. Pra começo de conversa, sugiro que vocês quatro se virem pra câmera dando tchauzinho. Sei lá, penso que assim a coisa ficará mais amistosa e interativa do que todo mundo sério e alinhado, olhando pra frente e atravessando a rua.

- Mas afinal de contas, o que você tem em mente é uma capa de disco ou um cartaz de circo? Só falta você sugerir que o Ringo fique fazendo chifrinho no George na hora do clique...

- Calma, Paul. Eu sei que a ideia é sua, mas vocês contrataram um fotógrafo profissional e eu me sinto na obrigação de orientá-los pra que o resultado fique realmente bom e funcione comercialmente. Uma coisa é certa, rapazes: nenhuma capa de disco entra pra história com quatro sujeitos atravessando uma faixa de pedestres como se fossem uns anônimos e inexpressivos súditos da rainha. Caramba, vocês são os Beatles!!!

- Veja bem, por mim você e Paul decidem o que acharem melhor nessa peleja capitalista de vender mais ou menos discos. A única coisa que peço é que a Yoko atravesse a faixa ao meu lado. Caso contrário, não tem negociação, vamos embora agora mesmo. Vocês sabem que não desgrudo um minuto dela, e isso inclui travessias de rua, partidas de rugby e até exames de próstata.

- John, isso é efeito da maconha, do LSD ou do sol na cabeça? Estamos falando de um disco dos Beatles, e não de Yoko e sua banda. Compreende?

- Espera aí, gente. Se este pobre baterista pode dar um palpite, recomendo que continuemos a discussão num pub ou algo assim. O trânsito está ficando engarrafado e daqui a pouco começam a buzinar. A intenção era perder no máximo vinte minutos com esta merda de foto. Não temos o dia todo e precisamos gravar mais um take de “Come Together” ainda hoje, esqueceram?

- Eu insisto: tá faltando alguma coisa bombástica, arrebatadora, que dê uma sacudida nessa capa. Ou então, sei lá, um toque de humor britânico, mesmo que bem sutil. Por exemplo, um de vocês é o guarda de trânsito, orientando os outros três na travessia. Heim, que tal? Aí sim vai ficar bacana.

- Tudo bem, mas e a Yoko?

- Sugiro que o guarda se distraia e um carro passe por cima dela.

- Por esta gracinha eu poderia te enfiar a mão na cara, Paul. Mas não vou fazer isso porque, independente de como fique essa maldita capa, no final das contas vão achar que o morto é você, e não Yoko. Pode apostar. Babacas do mundo todo vão esquadrinhar cada centímetro da foto, procurando pistas que confirmem a sua morte. O que mais lamento é que ela não passe de um boato.

- Gente, por favor, vamos dar uma trégua na troca de afagos. Daqui a pouco começa a juntar gente pra pedir autógrafos, a imprensa aparece e aí a foto já era.

- Pensando bem, acho que o Ringo está certo. Vamos voltar para o estúdio, terminar “Come Together” e esquecer essa história de capa de disco na faixa de segurança. Temos mais um tempo pra pensar numa solução melhor.

 

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07/01/2012 06:57:36
CASTELO DE CARTAS  Compartilhar
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Chegou uma hora em que não teve mais o que dizer para as paredes do castelo, pelo menos não naquele dia de 1106. Notando o demorado silêncio e temendo o tédio que lhe pudesse aborrecer, o pajem e o bobo da corte bateram à porta do quarto dela e se apresentaram, cada qual procurando agradá-la mais que o outro. Assim, entre mesuras e acrobacias tolas, mantinham o seu lugar sob a boa e frondosa sombra do reino. Se esforçavam os dois, alternando mímicas e passatempos, embora sabendo que ela os olhava sem ver. Era outro e mais nobre o remédio que daria algum alívio à sua angústia de princesa. Um cavaleiro a se matar por ela, cavalgando pântanos e sítios movediços, a se esquivar de lanças e a erguer mais alto o brasão do seu feudo a cada batalha vencida. Queria o guerreiro das cruzadas, o mais destemido e estrategista deles, que fizesse dela a causa da sua vida e a razão da sua morte. Um herói que guardasse no coração e na mente o seu nome e o seu semblante de donzela, como inspiração e ânimo para o combate.

Mas, pensava ela, todos os fidalgos e guerreiros que meu pai, o Rei, me permite conhecer não passam de gazelinhas a saltitarem pelos campos provençais, com guizos dourados e patinhas lustrosas, carregando entre as pernas, por baixo das armaduras, castos e inofensivos fazedores de xixi. São funcionalmente eunucos. Todos, sem exceção, ostentam uma hombridade de fachada. Papai é tão flagrantemente corno que ele próprio chega a rir com as piadas que toda corte faz de sua extensa galharia. Mamãe, logicamente, manda vir de outros reinos os escultores de chifres – já que aqui não há um que se aproveite. Súditos e nobres esquecem de suas lidas pouco interessantes em torno de coxas de frango e taças de vinho. Duelam sem motivo aparente nos burgos, jogam a dinheiro, perdem suas colheitas, praticam a maledicência, cumprem as penitências que lhes garantirão o céu e fingem dormir o sono dos justos. Mulheres fiam e bordam, lavam e varrem. Algumas pedem ao Criador que a peste venha e as leve o quanto antes, já que o sono eterno parece mais excitante que isso a que chamam de vida.

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31/12/2011 05:53:21
TERÇA, A ESTRANHA  Compartilhar
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Muitos aproveitam o período de festas para falar de amor, fraternidade, união e harmonia. Serei voz destoante e declararei meu ódio pela terça-feira, esse diazinho à toa que merece a implicância e a repulsa de toda a raça humana.

Repare como todos os dias da semana têm sua cara e sua personalidade muito bem definidas, desde o início dos tempos. Sua função, digamos assim, dentro da folhinha. Todos, menos a terça. Só ela não diz a que veio, nos impondo suas intermináveis 24 horas de nhaca mal resolvida. A terça é vacilante, é um dia canhoto, um estorvo do qual é preciso se livrar o mais rapidamente possível. Você já viu alguém dizer que terça é o seu dia favorito? Pois então...

Raciocine comigo e veja se não tenho razão. A segunda é, por excelência, o dia do bode (se bem que, se você fizer uma enquete, verá que muita gente curte aquela segundona brava, argumentando que qualquer segunda serve para se livrar do domingo). Apesar de horrível, ela se assume como tal. É medonha e pronto, os incomodados que se afoguem em prantos ou se matem como quiserem. A quarta sinaliza o meio da semana útil, é por vocação um marco divisório e ninguém até hoje veio a público questionar sua utilidade. A quinta tem a dádiva de ser a véspera da sexta, e isso é uma honra para um dia da semana que se preza. A sexta dispensa maiores comentários. O sábado é de aleluia sempre, estando ou não na quaresma, e prenuncia o preguiçoso domingo, ansiado por todos. Beleza. E a terça-feira? É um acidente de percurso, um interstício que se mete onde não é chamado. Enfim, pra que a semana não tivesse 6 dias, que é o número da besta, é que inventaram a terça. Às pressas, sem medir as consequências, desconhecendo infantilmente o monstro que estavam criando para todo o sempre.

Da terça, até a religião se esquiva – preferindo manter dela uma sacrossanta distância. Temos, no calendário católico, a Sexta da Paixão, o Domingo de Páscoa, a Quarta de Cinzas, o Sábado de Aleluia. E nenhuma piedade com a terça, esta excomungada. Em contrapartida, os ritos pecaminosos deram a ela algum crédito, instituindo a terça-feira gorda para encerrar os folguedos de Momo. Mas é preciso admitir que “gorda” não é propriamente um predicado lisonjeiro, ainda mais quando atrelado a um substantivo feminino. E é assim, taxada de obesa, que a terça vai empurrando com a barriga a sua perpétua maldição.

Sem a terça, o ano teria em média menos 52 dias, o que anteciparia as datas dos aniversários (Uhuuuuu!!!). O fim de semana também chegaria mais rápido e a expectativa de vida aumentaria em 14,28%, ou um sétimo a mais.

Extinguir a terça é solução apaziguadora e definitiva, que só trará benefícios. Se depender de decreto governamental para referendar a decisão, sem dúvida teremos quórum de 100% no Congresso para aprovação da medida. Até porque a semana parlamentar, que historicamente se inicia às terças, passará para as quartas. Ou seja, nossos nobres deputados e senadores ganharão mais um dia de merecido descanso em suas bases, antes de retomarem sua estafante rotina em Brasília.

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