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A Casa Livro Azul fez fama em Campinas. Tudo começou em 1876, com uma loja de encadernações e fabricação de caixas de papelão para chapéus e de embalagem de tranças para cabelos. Inicialmente, funcionou na Barão de Jaguara, mas mudou de endereço algumas vezes, justamente por causa de sua expansão. Pertencia a Antonio Benedicto de Castro Mendes e Joaquim Roberto Alves.
A clientela cresceu com o comércio campineiro, já que os comerciantes precisavam de livros de caixa para registro de compra e venda, blocos de notas fiscais, acesssórios de cartórios e outras coisinhas básicas. Em 1886, a Casa Livro Azul era o maior sucesso na cidade e passava a pertencer somente a Castro Mendes – Alves deixou a sociedade para seguir outros rumos.
Aos poucos, as oficinas incorporaram mais máquinas impressoras e novas coleções de tipos importados das fundições norte-americanas e alemãs. O quadro de funcionários cresceu, com a contratação de alguns profissionais estrangeiros. Foi assim que o estabelecimento passou também a vender material escolar, visto que o número de escolas no município só aumentava. As mercadorias chegavam da Europa e do Rio de Janeiro.
Tipografia, papelaria e livraria. Faltava mais alguma coisa? Como Castro Mendes era um amante das artes, o estabelecimento passou também a vender pianos.
Em 1889, Campinas foi duramente atingida pela epidemia de febre amarela e, assim como o comércio e a indústria locais, a Casa Livro Azul também foi afetada pela doença. Com a falta de muitos trabalhadores, Castro Mendes viu-se forçado a fechar as portas. Para proteger sua família, transferiu-se para São Paulo, onde estabeleceu um novo negócio, mas no mesmo ramo. Comprou casa própria e continuou com a importação de pianos. Porém, em um ano, com o fim da epidemia, retornou a Campinas, tendo vendido tudo o que havia adquirido na Capital, e voltou a investir na Casa Livro Azul.
Quem desembarcava em 1973 já tomava o táxi com o Netinho. Era uma Galaxie bonitão. Não havia mais de dez carros no ponto. Mas Viracopos já era um aeroporto internacional. O traje tinha de ser impecável: camisa branca, caça preta, sapato preto brilhando. Não podia ter uma poeirinha no capô do carro. O coordenador do grupo era perfeccionista, exigente, chato até. Quem não seguia as regras podia procurar trabalho em outro canto. Acontece que o cidadão nunca saiu de lá. Newton Carlos Stella Garutti tinha 25 anos quando chegou. Hoje, aos 64, tem rotina ainda mais pesada. Três vezes por semana, o homem pega no batente às 8h, só larga à meia-noite.
É, o tempo passou. Os cabelos rarearam. O bigode está grisalho. Nem sombra do rapaz que chegou ao aeroporto cabeludo e exibido. A paisagem em volta também mudou radicalmente. Ele lembra de um aeroporto perdido no meio do mato cortado por estradas de chão. A rodovia para a cidade nem era duplicada. À noite, o breu dava medo. Hoje, Netinho trabalha em um aeroporto importante, de movimento intenso, maior a cada dia. Há nada menos que 50 carros no ponto. E uma centena de cidadãos ganham a vida como taxistas.
Bom, o homem fez a vida em Viracopos. Afinal, são 39 anos ali. Detalhe: nunca foi assaltado ou se feriu em acidente. Se casou com a Sueli em 1980, teve dois filhos, comprou o "rancho" (casa em um terreno de 500 metros quadrados, lá nas bandas do Tancredão). Lugar rústico, onde ele recebe os amigos e passa o dia proseando. E quem o conhece vê que o cidadão adora mesmo uma prosa.
Netinho conta que o amor pelo volante nasceu ainda na infância. Ele era um daqueles guardinhas mirins que olhavam carro. Eram "flanelinhas fardados" , respeitados pela cidade toda. Adolescente, ele arrumou emprego no escritório de uma autoescola a acabou virando instrutor. Passou por vários estabelecimentos, até que um patrão o convidou, em 72, para dirigir um dos táxis da sua frota, composta por doze veículos Corcel. Lindos, novinhos. No ano seguinte, o homem já tinha a própria placa, e dirigia um Opala.
Ele acabou em Viracopos por acaso. Como trabalhava no ponto do Nova Europa, os carros dali socorriam o aeroporto quando o movimento era intenso. Como Netinho conhecia todo mundo, o convite apareceu. Ele comprou o Galaxie e mergulhou na aventura. Nos tempos em que não existia Cumbica, voos internacionais pousavam por aqui, e ele se cansou de transportar celebridades. Os famosos desembarcavam em Campinas e seguiam de táxi para outras cidades.
Não esquece causos divertidíssimos. Como no dia em que transportava a cantora Rita Lee para São Paulo. A mulher, que estava acompanhada do marido, pediu parar o carro. Ela estava apertada, precisava fazer xixi. Sem rodeios, a artista saiu do veículo, abaixou a calças, ficou de cócoras no acostamento e se aliviou no maior sossego, ali mesmo. "Divertida demais, cuca fresca" , gargalha. Ele também embarcou o Roberto Carlos em Viracopos e correu com ele por cidades da região por três dias: São João da Boa Vista, São Sebastião da Grama, Mococa. Ele lembra que o "rei" era tremendamente reservado. Dava respostas curtas quando seu empresário fazia perguntas. E fumava muito. Cachimbo a viagem inteira. Ele transportou uma lista de famosos: atletas, políticos, executivos engravatados...
A aviação, ele sabe, agora é conforto para todas as classes. E ele não tem do que reclamar. Não falta trabalho. Netinho nem quer lembrar dos momentos difíceis. Como a partir da segunda metade dos anos 80. A inauguração de Cumbica deixou Viracopos às moscas. E muito motorista desistiu da carreira. Chegou um momento em que lojas fechavam. Ali havia até free shop, restaurante elegante. Tujdo acabou. Mas a chegada das empresas praticando preços acessíveis transformou o aeroporto radicalmente, para melhor. "Viracopos se agigantou" , fala. "Nos últimos três anos, o número de carros no ponto dobrou. O aeroporto não vai parar de crescer."
Mas nem tudo é lindo. Netinho fala que a infraestrutura disponível no aeroporto não acompanhou o aumento radical de passageiros. E os próprios passageiros do táxi reclamam. Falam da demora para pegar bagagens, dos banheiros acanhados, dos serviços que precisam melhorar. "A gente vive um momento em que Viracopos não pode perder o que já conquistou" , diz.
No seu canto fora do trabalho (o "rancho" do Tancredão), Netinho espera a aposentadoria chegar. Mas não pressa. Espera convencer a "dona patroa" a, um dia, se mudar com ele para a beira de um rio, na roça. Para a felicidade ficar completa, ele quer reunir a filha casada (que já lhe deu uma neta) e o filho solteiro (que se mudou para os Estados Unidos para estudar inglês). Enquanto espera o reencontro, o homem se diverte entre os taxistas do aeroporto. O poderoso Vectra 2008,com 686 mil quilômetros já rodados, continua lá, à espera do passageiro que está para chegar.
SAIBA MAIS
Os interessados em ouvir histórias divertidas do Netinho podem entrar em contato com ele pelo celular (19) 9191-7575 ou pelo e-mail aerocoop37@yahoo.com.br
Foi numa biblioteca de Campinas que Roque Melillo começou a trabalhar e a se interessar pelas coisas boas da vida, inclusive viagens. E foi à Prefeitura de Campinas que o milionário excêntrico doou a quantia de 4 milhões de cruzeiros, na década de 1970, com uma condição: a de que a cidade construísse uma biblioteca. A doação permitiu a construção de um edifício anexo ao Palácio dos Jequitibás, sede do Executivo municipal, para abrigar o Museu de Arte Contemporânea e a biblioteca.
Melillo deixou o Brasil com 25 anos de idade e pretendia passar o final da vida em Campinas, mas não deu tempo. Morreu só, em outubro de 1976, aos 87 anos, em seu apartamento localizado na Avenida Britton, 8.201, em Queens, subúrbio de Nova York. O corpo foi enterrado duas semanas depois no Cemitério da Saudade, em Campinas, no jazigo da família.
Ainda jovem, ele trabalhava como auxiliar de bibliotecário e comprou cem ações do Banco do Brasil. Gostava de aprender idiomas (dominava o inglês, o francês, o espanhol e o russo), tocar piano e conhecer novas culturas. Pretendia passar uns dias em Nova York e depois rumar para a Europa. Mas estourou a guerra de 1914 e ele ficou ilhado. Durante 9 anos, passou maus bocados, até mesmo fome e frio. Mas as ações do Banco do Brasil se multiplicaram. Melillo investiu em outros papéis e pouco depois estava milionário.
Foi tradutor de filmes, jornalista, locutor, dublador e bibliotecário. Nunca se casou legalmente. Era acionista da Exxon e de outras empresas americanas. Até que, em 1974, já não tão rico assim, resolveu doar o que restava de sua fortuna a diversas instituições brasileiras e americanas. Deu 100 mil dólares para a Biblioteca Municipal de Nova York, 33 mil dólares para o Lincoln Center e 30 mil dólares para o Metropolitan Opera House, além de fazer outras doações menores. Queria, ainda, procurar o cardeal Cook, de Nova York, para deixar um montão de dólares aos países do Terceiro Mundo.
O advogado de Melillo, o brasileiro Juvenal Bastos, argumentava que sua fortuna não era mais tão grandiosa, e o que restava daria apenas para sustentá-lo. “Eu sei disso. Mas pretendo ganhar mais dinheiro. Nem que eu tenha que comprar mais ações do Banco do Brasil e começar tudo de novo. O que não posso é deixar de fazer essas doações”, dizia Roque.
As notícias das benesses do milionário não repercutiram bem no Brasil. Parentes de Melillo diziam que ele era excêntrico, paranóico e sofria de avançado processo de insanidade mental. O campineiro retrucava: “Excêntrico foi John D. Rockefeller, que costumava dar esmolas de 10 centavos”.
Adeus
O corpo de Roque Melillo chegou a Campinas em 3 de novembro de 1976, em um avião de carga da Varig, e foi recebido pelo prefeito de Campinas, Lauro Péricles Gonçalves, e por secretários municipais. Uma missa de corpo presente foi celebrada na Catedral Metropolitana pelo bispo Aniger Francisco Maria Melillo, de Piracicaba, que era sobrinho de Roque. Dias depois, um jornal da cidade publicava que o Serviço Funerário de Nova York cobrava da Prefeitura de Campinas as despesas do traslado: mais de 800 dólares. Os jornais das semanas seguintes não repercutiram o assunto. Portanto, não dá para saber como acabou essa história. Foi noticiado e constatado que a Prefeitura havia providenciado uma casa e contratado uma enfermeira para Roque Melillo passar os últimos dias de sua vida na terra natal, como era seu desejo, mas ele morreu antes.
Depoimento
“Desde pequeno procurei ser independente. Com 8 ou 10 anos tive meu primeiro emprego, apesar dos protestos do meu pai. Ele era alfaiate, imigrante italiano, e queria que todos os filhos (eram 8) pudessem estudar, o que não foi possível. Mas eu queria comprar uma bicicleta (que nunca tive) e insisti em trabalhar. Fui assistente de bibliotecário na Biblioteca de Campinas, ganhando 50 mil réis e contribuindo com a metade para a família. Estudei engenharia por correspondência e, com os anos, passei a bibliotecário. Passei a viajar nas férias. Numa dessas vezes, em 1914, resolvi voltar a Paris, que já conhecia. Mas o único vapor disponível no porto de Santos era o Byron, que partia para Nova York. Não me interessava muito, mas acabei vindo...”
Em entrevista à revista Manchete
Curiosidade
Dos 8 irmãos de Roque Melillo, 3 eram mulheres e todas foram freiras. Um dos irmãos, Vicente, depois que ficou viúvo, também decidiu ser padre. Ele era pai de D.Aniger Francisco Maria Melillo ( 27/06/1911- 17/04/1985), bispo de Piracicaba na época em que Roque Melillo morreu.
Construções remanescentes de uma suposta colônia nazista, que existiu no interior paulista, correm o risco de desaparecer. Os prédios, erguidos no começo do século passado, estão localizados em uma fazenda do município de Paranapanema, na região de Avaré. Na propriedade rural, cerca de 50 garotos (com idades entre 9 e 11 anos), foram submetidos a trabalho escravo. O tema virou tese de doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O historiador campineiro Sidney Aguilar Filho, durante quase uma década, vasculhou documentos, colheu depoimentos, e apurou detalhes de uma época obscura, em que a exploração da mão de obra no campo contava com a conivência do Estado.
A antiga Fazenda Cruzeiro do Sul foi comprada pelos Rocha Miranda, família tradicional do Rio, que construiu fortuna com negócios imobiliários e hoteleiros. Gente do clã fazia parte da Ação Integralista Brasileira (AIB), agremiação partidária inspirada no fascismo. Em São Paulo, a família instalava um projeto agropecuário gigantesco. A gleba era dotada de uma infraestrutura invejável: geradores de energia, pista de pouso, estação de trens, maquinário importado.
Acontece que o projeto não progrediu. Em 1937, o Estado Novo determinou o fim da AIB. Nas décadas seguintes, as terras foram mudando de dono, até chegarem o administrador atual, José Ricardo Maciel Rosa. Foi este senhor quem descobriu (e divulgou, no final da década de 90) que as paredes dos imóveis foram erguidas com tijolos gravados com a imagem da suástica. A propriedade virou a meca de pesquisadores. E eles descobriram que a roça paulista foi palco de crimes.
De acordo com Aguilar Filho, os meninos foram trazidos do Educandário Romão de Mattos Duarte, da Irmandade de Misericórdia do Rio de Janeiro, em 1933. Os garotos, quase todos negros, foram alojados na Fazenda Santa Albertina, que pertencia ao mesmo grupo, e que se localizava na mesma regiaõ. De lá, eles eram legados para trabalhar na Cruzeiro do Sul. Tiveram seus nomes trocados por números. Eram submetidos a longas jornadas de trabalho agrícola, sem remuneração alguma. Sofriam castigos físicos e constrangimento moral.
As atenções se voltam hoje à fazenda porque o dono das terras já fechou a venda da propriedade. E o comprador se certificou, antes da assinatura do contrato, de que o bens imóveis não são tombados como patrimônio histórico. O nome do futuro proprietário é mantido em sigilo. Como aquela região toda é toda tomada por canaviais, o comprador quer o terreno desimpedido, livre dos prédios antigos.
A preservação da História sofre um golpe. Para o professor, a fazenda se tornou patrimônio de interesse público, seja ou não reconhecido pelo Estado. O que aconteceu na Cruzeiro do Sul, afirma, precisa ser estudado, difundido para a atual e para as próximas gerações. Para Aguilar Filho, é nítido que existiu uma célula de inspiração nazista no Interior, e diversos garotos foram explorados, abandonados à própria sorte quando acabou a guerra.
Aguilar, que atualmente trabalha como professor de história em colégios privado, afirma que deve partir da Prefeitura e do Estado iniciativas que preservem o patrimônio Mas a missão, admite, é das mais difícies.
Tratam-se de terras particulares. E os governantes não possuem qualquer plano para impedir a dermolição dos imóveis. O Estado de São Paulo, fala, vai perder o registro de uma época importantíssima, simbolizada naquele caso pelo desrespeito aos direitos humanos mais básicos. Gente poderosa, no passado, explorava criaturas inocentes, e separava pessoas de acordo com a cor da pele.
“Roubaram a minha infância”
Aloysio Silva, que hoje beira os 90 anos, foi o único cidadão vivo encontrado pelo pesquisador Aguilar Filho nas suas andanças por Paranapanema e Campina do Monte Alegre, municípios vizinhos por onde se espalhavam terras dos Rocha Miranda. Os garotos eram submetidos a castigos severos. Ajoelhavam no milho, levavam golpes de palmatória, apanhavam com vara de marmelo. Quando era menino, Aloysio era apenas o o “número 23”. Ele disse, triste, que lhe tinham “roubado a infância”. Depois, Aloysio se casou e teve sete filhos. Mas cada um daqueles garotos, depois da liberdade, viveu uma saga diferente. Segundo apurou Aguilar, teve quem deixou a fazenda em 1937 e saiu andando pela ferrovia, sonhando voltar para o Rio. Uns viraram mendigos.
Outros morreram solteiros, sozinhos. Houve casos curiosos como o de José Rodrigues, que virou militar, lutou na Itália, e “morreu louco”. O interessante é que, ao analisar cada ficha, o professor viu que, entre todos os meninos, só dois eram brancos: os irmãos Sílvio e Afonso Custódio.
Princípios rígidos de auoridade e hierarquia
A Ação Integralista Brasileira (AIB) foi fundada pelo jornalista Plínio Salgado em 1932. O grupo, inspirado no fascismo europeu, valorizava o nacionalismo. Tinha princípios rígidos de autoridade e hierarquia. Os membros se apresentavam com uniformes e marchavam em cerimônias oficiais. A bandeira, de fundo azul, era decorado com a sigma, letra grega que expressa a soma de valores. O grupo tinha a oposição de lideranças que o consideravam machista e racista. As revistas e jornais do partido insinuavam (em textos, charges e anedotas), que o negro tinha papel inferior na sociedade, e que a nobreza feminina estava nas funções domésticas.
NA INTERNET
“Educação, autoritarismo e eugenia: exploração do trabalho e violência à infância desamparada no Brasil (1930-1945)”, a tese de doutroado professor Sidney Aguilar Filho defendida em 2001 na Unicamp, está disponível, na íntegra, na internet. Basta que os interessados acessem o endereço
http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000807532&opt=1
O interessado, no caso, só precisa fazer um cadastro pessoal no site, informando e-mail e criando uma senha secreta, para acessar quando bem entender. A tese do professor é um detalhamento cuidado de uma política ultrapassada. “Educar a menoridade”, na época, era um termo que ligava a verbos como dirigir, controlar, disciplinar, treinar, testar, higienizar, militarizar, trabalhar, castigar. A criança, vista como “inconsciente e inconseqüente” só podiam trabalhar. Não tinham direito a brincar.
É sempre assim. As senhoras se ajeitam na frente das velhas máquinas de costura. Conversam, se divertem, colocam a prosa em dia. Mas trabalham sem parar. Produzem centenas e centenas de peças que ajudam a vestir crianças pobres, acolhidas por entidades assistenciais campineiras.
A Oficina de Caridade Santa Rita de Cássia nasceu há 80 anos. A obra nasceu na Europa, e foi importada pelos campineiros que eram devotos da santa. Lá em 1932, o monsenhor João Loski assinou a primeira ata do grupo, preservada até hoje, escrita à mão em um livro de capa dura e páginas amareladas, guardado como um tesouro.
No começo, as costureiras voluntárias trabalhavam nas próprias casas. Na época, um oratório com a imagem da santa corria as residências de cada senhora. Elas se encontravam para cultos de louvor, que eram organizados eventualmente pelos padres agostinianos. É que a santa italiana (nascida Rita Lotti, na região de Cássia, na Úmbria) foi em vida uma monja agostiniana. Ela foi canonizada em 1900.
Com o tempo, a oficina ganhou uma sede própria. Acanhados 40 metros quadrados, em um antigo prédio comercial da Avenida Francisco Glicério. O imóvel pertencia ao médico e político campineiro Arlindo Joaquim de Lemos. Foi doado às senhoras em 1958, um ano depois da morte de Alaíde Nascimento Lemos, a Iaiá, esposa do cidadão ilustre, e uma das fundadoras da obra.
A tradição do trabalho voluntário passa de uma geração a outra. Para pagar contas de água, luz, telefone e condomínio, as costureiras contam com a ajuda de colaboradores. As mensalidades são simbólicas. E o número de colaboradores não passa de 50. Há quem doe modestos (e imprescindíveis) R$ 10,00 mensais.
A tesoureira é Tavi Barbosa de Barros, uma professora aposentada de 70 anos. Ela explica que verbas esperádicas sustentam o caixa. Se vende convite para jantares, se participa de bazares. Há devotos da santa fazem a doação de tecidos e linhas. A oficina sobrevive. Mas não sobra um tostão para a compra de novos equipamentos.
A turma, composta de 13 amigas, é praticamente a mesma há décadas. Elas continuam pilotando três overloque (para dar acabamento em roupas de malha, por exemplo), e sete máquinas de costura octogenárias, mas que ainda funcionam impecavelmente.
Dentre as costureiras, a voluntária mais antiga é a própria presidente do grupo, Daise Vilagellin, de 86 anos. A oficina também conta com o trabalho apaixonado de gente como a dona Terezinha Vanucci, que já passou dos 90, não consegue andar pela rua, e recebe em casa as peças de roupa para dar acabamento. É uma dedicação que deixa, orgulhosas, as amigas reunidas na oficina.
A turma risca moldes e corta tecidos em uma mesa enorme, centenária, de madeira escura, trazida pela própria fundadora Iaiá. As mantas e cobertores são guardados em um baú enorme, tão antigo quanto a mesa, doado ao grupo por outra fundadora, dona Antonieta Barbosa (mãe da atual tesoureira, Tavi).
Nos fundos da sala, o armário de madeira imenso está lotado de peças: blusas, touquinhas, sapatinhos. São 350 peças costuradas a cada mês. Que vestem crianças assistidas por entidades famosas: Sopa do Grameiro, Casa da Criança Paralítica, Maternidade de Campinas, creches. E o que impressiona é o acabamento. São peças dignas de shopping.
“O dinheiro que entra, pouco ou muito, é todo transformado em roupa. A gente nunca teve recurso de governo. É um trabalho feito com amor, de graça, por senhoras preocupadas com o próximo”, diz a tesoureira. Ninguém acha que, um dia, a oficina vai fechar as portas. A imagem de Santa Rita de Cássia está là, no quadro enorme, pendurada na parede e decorando o salão. “A fé anima. E, depois da gente, outras voluntárias vão seguir com a caridade”, aposta Tavi. E as novas gerações vão chegando. Cleuza Simões, de 40 anos, é a caçula do grupo.
Ajude
As pessoas interessadas em conhecer a obra de caridade e colaborar, doando dinheiro ou matéria-prima, podem entrar em contato pelo (19) 3232-7149. A Oficina Santa Rita de Cássia fica no Edifício Catedral, à Avenida Francisco Glicério, 989, 1º andar, sala 18, Centro de Campinas.
Quando o repórter chama do portão, “seo” José berra de lá de dentro: “Já tô indo”. E rapidamente aparece na porta de casa. Divertido, falador. Sem rodeios, chama para entrar. Como se o visitante fosse da família. O homem se esparrama no sofazinho da sala. Fala das apresentações da banda na praça. Lembra do público enorme ao redor do coreto. Diz nomes, detalha eventos. Conta causos e mais causos. Tem uma memória de dar inveja. Nem parece que o cidadão, no dia 19, vai completar 90 anos de idade. Orgulhoso, ele diz que caminha até a avenida e toma sozinho o ônibus para o Centro. Toda terça ele participa do ensaio da Banda dos Homens de Cor.
Lá, o homem passa a noite dedilhando o sagrado sax de três teclas. Ao lado dele, estão 14 ou 15 músicos, igualmente apaixonados pela música. Há três anos a banda não integra a programação cultural da Prefeitura, e os convites para apresentações são cada vez mais raros. Mesmo assim, os amigos se encontram. Ensaiam e acreditam na volta de dias melhores. José Antônio, por sinal, ´é símbolo daquele idealismo. Aliás, este é mesmo seu nome inteiro. “Antônio” é o sobrenome. Nenhum músico da banda tem sua idade, ou seu entusiamo. Hoje, ele ainda preside a entidade. É quem recebe o aluguel da edícula dos fundos (R$ 400,00 mensais), paga as contas de água e luz.
A “Corporação Campineira dos Homens de Cor” foi fundada em 1933, há quase 80 anos. Eram dias obscuros. A cidade letrada da época também era famosa por limitar os equipamentos culturais a quem tivesse dinheiro. E os negros de origem social humilde, que sonhavam com a carreira musical, tiveram de montar a própria banda.
Os músicos ensaiavam, para se ter uma ideia, na casa de um dos idealizadores do grupo. João de Oliveira, que também foi o primeiro maestro, morava em três cômodos, ali na Rua Luzitana, perto do campo da Ponte Preta. Quando o cidadão partiu deste mundo, os músicos adquiriram o imóvel, sem um tostão de ajuda do poder público. Primeiro, os instrumentistas se cotizaram como podiam. Depois, os herdeiros do imóvel iam recebendo o pagamento parcelado, com o cachê arrecadado nas apresentações. Até hoje, a sede é no mesmo lugar. Uma residência acanhada, com paredes e degraus tomados pelo limo, precisando de uma boa reforma. Mas não há verba no caixa. Apesar disso, ninguém desanima. Afinal, como resume o José Antônio, “a vida é essa luta de sempre.”
O músico campineiro, filho de lavradores, nasceu na região onde hoje existe o Aerporto de Viracopos. Na roça, os pais plantavam arroz. Com um tio músico, o rapaz aprendeu as primeiras notas. Ele tinha 24 anos em 1946, ano em que se mudou para cidade justamente para tocar na banda. Para sobreviver, seu primeiro emprego foi de porteiro, no Bonfim. Mas, antes do final daquela década, ele arrumou emprego na Companhia Paulista. De dia era ferroviário. À noite, e nos finais de semana, tocava. Em praças, procissões, quermesses. E foi em um desses eventos que ele conheceu Iraíldes, com quem se casou, aos 31 anos de idade.
José Antônio fala da velha Companhia Paulista com o maior orgulho. Conta que revistou vagões, picotou bilhetes, carregou sacas no armazém. Ele se aposentou em 1979. E bem no ano seguinte, 1980, sofreu um duro golpe. A esposa morreu. Ele ficou morando com os filhos José Augusto e Aparecida. A cada ensaio da banda, o sopro no bocal era um lamento de dor.
Nos últimos 30 anos, a vida de José Antônio pouco mudou. O senhor, de respeita´veis cabelos brancos, mora em uma casa popular da Rua Cerqueira César, lá no Jardim Garcia. O filho homem, José Augusto, se casou, lhe deu uma neta, mas mora longe dali. Como a filha Aaprecida trabalha como professora na rede estadual, José Antônio fica sozinho a maior parte do tempo. Vê TV, curte fotos antigas, fala com os amigos ao telefone. Mas seu grande prazer é quando chega alguém para conversar da banda.
Otimista que s´ó vendo, o músico não reclama dos convites raros para apresentação. Ele acha que, qualquer dia, alguém na Prefeitura vai valorizar a arte, organizar eventos nas praças, oferecer mais lazer à população. E ele tem bons motivos para comemorar os novos tempos, onde a cultura interessa para pessoas de todas as raças, de todos os credos, e de todas as classes sociais.
Ele gargalha: “Se o cidadão na plateia pergunta onde estão os homens de cor, todos da banda se levantam”, diverte-se. É que a corporação tem portas abertas para negros, louros, orientais, vermelhos. O próprio regente é branco. É Paulo Dalgalarrondo, psiquiatra da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mas, apesar dos novos tempos, o “noventão” José Antônio afirma que Campinas precisa se orgulhar da Banda dos Homens de Cor. É uma entidade que, há quase oito décadas, prova que o talento e a dedicação são virtudes que não dependem da cor da pele. E que a arte promove amizades sinceras.
SAIBA MAIS
A sede da Banda Campineira dos Homens de Cor fica na Rua Luzitana, 127, entre as ruas Proença e Uruguaiana. Quem tem interesse em saber mais detalhes sobre a história da corporação, aprender a tocar um instrumento ou fazer parte da banda pode ligar para José Antônio no (19) 3229-5139 ou escrever para a assessora Maria Cláudia Miguel, no endereço eletrônico cacaumiguel@yahoo.com.br
Quem entra no bar, de frente para o Largo do Rosário, mergulha na Campinas do final dos anos 30. O balcão imponente, o armário envidraçado, as cadeiras de madeira ao redor das mesas redondinhas. A fachada tem os mesmos detalhes em ferro. A escadaria de acesso ao piso superior continua lá. O velho Giovanetti não mudou. É o mesmo botequim apertado, com peças de presunto e queijo penduradas. Uma tradição que passa de geração em geração, há 75 anos. Hoje em dia, a casa até serve almoço. Mas a fama do lugar vem daquela atmosfera de botequim, com amigos reunidos ao redor do chopp, dos petiscoss, dos lanches.
Um dos mais tradicionais da cidade, o bar foi fundado pelo imigrante italiano Enrico Giovanetti. O rapaz, na época, era funcionário de uma fábrica de cerveja, a Cabeça de Cavalo. Bom, o patrão morreu. E o italiano se engraçou com a viúva, Helena. Os dois se casaram e abriram o ponto ali da Rua General Osório. Conhecedor dos macetes de cervejeiro, o Enrico sugeriu o aumento da serpentina do chope, para gelar mais a bebida. Resultado, o balcão lotou. A patroa fazia os salgadinhos em casa, e leva tudo para o boteco em uma cesta. Aliás, no começo, era a única mulher a dar as caras naquele reduto de marmanjos.
Com o tempo, o Giovanetti foi se tornando um ponto de encontro de intelectuais, artistas, boêmios, políticos, atletas. Com a desculpa da prosa séria, a turma se encontrava para provar os tira-gostos impecáveis, que ganharam nomes curiosos: rolha (croquete), envelope (pastel), milionário (quibe), portuga (bolinho de bacalhau) e Marta Rocha (coxinha de galinha). Quem passou dos 50 anos, por sinal, se lembra bem do cenário. De frente para a General, ao lado da porta, havia a boqueta, um balcão de mármore. Como lá dentro era apertado, os camaradas se encontravam na calçada mesmo, e viravam os copos que o balconista, lá de dentro, colocava sobre o mármore.
O pessoal da antiga também se lembra de figuras antológicas, como o chapeiro Moleza, que aliava seu péssimo humor à competência inigualável de preparar um lanche. E sanduíche, no Giovanetti, sempre teve uma grife. O psicodélico (marca registrada; que ninguém pense em copiar) traz picles, rosbife, salsichão, muçarela, tomate e azeitona. Tudo cortado em lascas, com um tempero que é segredo de Estado.
Bem, o tempo passou. Enrico e Helena partiram deste mundo. E os descendentes resolveram vender o bar. Os donos foram se sucedendo. Mas a marca e o cardápio foram mantidas. Desde 1981, o Giovanetti faz parte do memso conglomerado empresarial que também controla, por exemplo, a famosa choperia Pinguim, de Ribeirão Preto. Os patrões, hoje, são empreendedores portugueses, com negócios no Brasil há cinco décadas.
Sob a atual direção, o Giovanetti cresceu demais. Hoje, além da casa original do Largo do Rosário, a rede controla a belíssima unidade da Rua Padre Vieira (no prédio histórico da primeira faculdade de medicina de Campinas, tombado como patrimônio arquitetônico da cidade) e outra ampla, no Shopping Parque D.Pedro (que mescla traços contemporâneos com objetos decorativos de época). Uma casa de cada estilo, para agradar todos os públicos. Só a exigência gastronômica não muda. Nada menos que 70 mil clientes passam, todo mês, por uma delas.
O evento comemorativo aos 75 anos, na chamorsa unidade do Cambuí, vai servir os lanches, petistos (e chopp, claro), da unidade do Largo do Rosário. E o mais legal é que a festa tem, neste ano, compromisso social. Até o dia 20 de maio, (data da noitada festiva), serão vendidos 400 convites individuais. Cada um vai custar R$ 90,00, e o povo vai comer e beber o quanto aguentar, das 18h às 22h. E o dinheiro arrecadado (R$ 36 mil) será divido entre entidades assistenciais já definidas. “A gente definiu o cardápio como uma homenagem a Enrico, Helena, e os primeiros funcionários”, fala o gerente Wágner Bordin.
SAIBA MAIS
As pessoas interessadas em conhecer ou matar saudades do Giovanetti do Largo do Rosário, remanescente dos anos 30, pode passar ali pela Rua General Osório, 1.059, Centro de Campinas. O cidadão pode ter a sorte de conseguiu um lugarzinho em uma das 23 mesinhas. O bar abre todos os dias, das 10h30 até o último cliente, e o telefone é o (19) 3231.2830. A unidade do Cambuí fica na Rua Padre Vieira, 1277, na esquina com a Rua Bernjamin Constant, bem ao lado da Prefeitura. A unidade do Parque D.Pedro fica na Entrada das Águas.
O coreto e a praça são iguais, mas Campinas era outra.
Olha o bonde, quem conheceu? Eu, infelizmente, não vi.
Outro campineiro que participou ativamente da Semana de Arte de 22 foi o advogado, escritor, jornalista, professor e fazendeiro Antônio Carlos Couto de Barros, que morou em Sousas durante muitos anos. Ele vivia na Fazenda São João, lugar que até hoje abriga muitos membros da família, inclusive a viúva de Couto de Barros, Décia Milano de Barros, atualmente com 95 anos. Ele a chamava carinhosamente de Decinha ( a foto mostra o casal).
Couto de Barros e Decinha se casaram em 1942 e tiveram cinco filhos: Maria Altemira, Antonio Carlos Filho, Maria Luiza, Adriano Júlio e Luiz Fernando. Com exceção de Maria Altemira, que já morreu, e de Luiz Fernando, que mora em Campinas, os demais vivem na fazenda de Sousas. Os netos também residem lá, entre eles Luiz Carlos de Barros Lapolla que, como o avô, formou-se em direito. Ele dá aulas de direito civil e processo civil na Anhanguera Educacional. Nascido em 1978 e filho de Maria Luiza, não conheceu o avô, que faleceu em 1966, mas sempre ouviu falar muito bem dele. Couto de Barros escrevia e Luiz Carlos toca piano.
A professora Maria Eugênia Boaventura, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especialista no movimento modernista, organiza o material de Couto de Barros para um trabalho mais abrangente, já que muito do que ele produziu estava em caixas. Quem guardou o rico acervo foi Maria Altemira. Aliás, quando ela nasceu, a primeira coisa que o pai disse ao médico foi “Outros olhos verão por mim o ano 2000”. Eram os olhos da filha, por sinal sempre atenta ao trabalho do pai.
TRAJETÓRIA
_Antônio Carlos Couto de Barros nasceu em Campinas, no dia 19 de setembro de 1896, e morreu, também em Campinas, em 16 de maio de 1966.
_Participou ativamente do movimento modernista brasileiro, integrando a comissão organizadora da Semana de Arte Moderna de 1922. Nesse mesmo ano, fundou e dirigiu, com vários companheiros, a revista Klaxon, cuja redação funcionava em seu escritório de advocacia, do qual também era sócio o modernista Tácito de Almeida, irmão do poeta Guilherme de Almeida.
_Dirigiu, com Antônio de Alcântara Machado, o quinzenário Terra Roxa e Outras Terras. Colaborou em muitos outros periódicos da época, para os quais escreveu artigos, crônicas, contos e resenhas.
_Foi redator-chefe do jornal paulistano O Diário Nacional, ligado ao Partido Democrático, que também ajudou a fundar.
_Diretor da Liga de Defesa Paulista, por ocasião da Revolução de 32, contribuiu de modo relevante para a causa constitucionalista. Couto de Barros também foi criador, professor de história econômica do Brasil e secretário geral, por décadas, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, instituição fundada em 1933.
_Fazendeiro e empresário, participou da organização da Viação Aérea São Paulo (Vasp) e foi seu primeiro vice-presidente. Traduziu a obra História Econômica Contemporânea, de Laurent Dechesne. Escrevia sob vários pseudônimos, entre eles o de Clodomiro Santarém.
Há 90 anos, o Theatro Municipal de São Paulo recebia um evento considerado como marco simbólico de transformação e ruptura: a Semana de Arte de 1922. Havia campineiros por lá, como os irmãos Tácito e Guilherme de Almeida, além do jornalista, advogado, escritor e professor Antonio Carlos Couto de Barros. De Couto de Barros eu vou falar na próxima edição. Nesta, um pouco dos irmãos poetas.
Guilherme e Tácito de Almeida, nascidos respectivamente em 1890 e 1899 em Campinas, eram o primogênito e o caçula dos quatro filhos do advogado e professor da Faculdade de Direito de São Paulo, Estevão de Araújo Almeida, com Angelina de Andrade. A família teve várias residências em cidades da região, como Rio Claro, Araras e Limeira, conforme as conveniências profissionais do escritório de advocacia paterno. Em 1890, ano de nascimento de Guilherme, seu pai, recém-formado e ainda muito jovem, com apenas 27 anos, lecionava no ginásio Culto à Ciência e atendia clientes na região.
Guilherme fez estudos primários em Araras e Campinas, daí passando para o colégio em que o pai ensinava. Em 1902, o pai resolveu instalar seu escritório na Rua Boa Vista, em São Paulo, em sociedade com Vicente Rao. Em 1909, tem êxito no concurso público para professor catedrático de Direito Civil na Faculdade de Direito de São Paulo. Tudo indica que o pai tenha incentivado Guilherme ao estudo do grego e do latim, bem como a leitura dos clássicos portugueses. Em São Paulo, Guilherme prossegue os estudos secundários no Colégio São Bento e no Colégio Nossa Senhora do Carmo, onde diplomou-se em Ciências e Letras em 1907.
No ano seguinte, ingressa na Faculdade de Direito de São Paulo, concluindo o curso no prazo regular, em 1912. Nessa fase aproxima-se de rodas literárias com outros jovens talentosos de sua idade, como Oswald de Andrade. Aposta em iniciativas arriscadas, como, por exemplo, a direção da revista ilustrada Panóplia. Envolve-se com o grupo de redação do jornal O Estado de São Paulo e redige suas primeiras colaborações em jornais e revistas. Em 1917, Guilherme começou a trabalhar na redação de O Estado de S.Paulo, a convite de Julio de Mesquita. No mesmo ano, lança Nós, seu primeiro livro de versos, numa edição de 1.015 exemplares, impressos nas oficinas de O Estado de São Paulo.
O caçula
Tácito de Almeida formou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo em 1920. Foi nomeado delegado de polícia de Rio Claro e posteriormente promotor público de Taubaté. Colaborou para a fundação da Escola de Sociologia e Polícia de São Paulo, onde lecionou na cadeira de Ciências Políticas. Foi consultor jurídico da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e do Instituto de Engenharia. Membro ativo do grupo realizador da Semana de 22, escreveu para a revista Klaxon, cuja redação ficava no seu escritório, sob o pseudônimo de Carlos Alberto de Araújo. Escreveu, ainda, o conto Um homem bondoso para o primeiro número da revista modernista Terra roxa... e outras terras.
São fotografias em preto e branco. Aparecem garotas lindas, de saias rodadas, em movimentos delicados, agradecendo os aplausos. Há rodas de adolescentes tocando instrumentos. Moças declamam poesias. Aquela coleção remete a um tempo romântico, de teatros lotados. Os detalhes decorativos, as cortinas rendadas do palco e a elegância dos espectadores fazem passar um filme na cabeça de quem vira as páginas. Lá estão eternizados momentos de uma cidade que corria aos auditórios para ouvir poesia e música. O acervo serve, também, como o registro de uma carreira emocionante, de uma senhora que passou a vida ensinando violão e declamação a centenas de alunos.
Maria Sylvia Ferraz Silva, hoje, é uma senhora de 83 anos. Ela mora com o marido Acácio no último andar do charmoso e tradicionalíssimo Edifício Itatiaia, bem de frente à Praça Carlos Gomes. A sala tem espaço para estantes imensas, onde os violões dividem espaço com arranjos florais e pratos de azul-pombinho. A cadeira de balanço ajuda a formar o cenário singelo do cômodo, com direito a lustres antigos, quadros, enfeites delicados. O silêncio do lar acaba no momento em que Maria Sylvia, de pé ao lado da janela, declama Rua de Rimas, obra-prima de Guilherme de Almeida.
A senhorinha reclama que não tem a mesma saúde de antes. Ela anda mesmo devagar, com passinhos medidos. Fala pausadamente. Procura na memória o nome das pessoas, dos lugares, dos eventos. Mas não deixa uma pergunta sem resposta. Mas, na hora de declamar, ela mostra aquele talento único de dar vida às sílabas. O repórter e a fotógrafa do Correio Popular formaram a privilegiada plateia, e ouviram a dona declamar os versos que falam da ruela discreta, tranquila, com acácias debruçadas para a calçada, com serenata, luar e lampião. Uma rua que, diz o autor, se chama Felicidade.
Quando Maria Sylvia termina a apresentação improvisada, o visitante sente um tremendo nó na garganta. Sente exatamente a mesma emoção que sentia o público que, por exemplo, tomava as poltronas do Teatro Municipal ou do Cultura Artística, lá pelas décadas de 50 e 60. Naquele tempo, para declamar e tocar, os alunos também invadiam escolas, clubes de serviço, centros culturais, jantares, praças.
Filha de Davi Ferraz, um empresário que importava óleos lubrificantes, a menina Maria Sylvia declama desde os 7 anos de idade. Quem descobriu o talento foi sua tia Dinorah, professora do Externato São João. A garotinha também aprendeu macetes da arte com a dona Otávia Maia Freitas Guimarães, bibliotecária do Culto à Ciência. Moça, Maria Sylvia começou a dar aulas particulares na própria casa onde morava, na Nova Campinas. E não se esquece dos alunos. Teve o capricho de escrever o nome de cada um, sob as fotografias. Pelas aulas, passaram crianças, adolescentes, adultos, idosos. E muita gente virou artista profissional.
Caso, por exemplo, de Regina Duarte, ícone global. Foi Maria Sylvia quem ensinou a atriz a interpretar versos, a lapidar sílabas. Segredinhos que a “namoradinha do Brasil” usou nos palcos do teatro e na televisão. No final do ano, por sinal, Regina Duarte foi homenageada pelo Faustão. Uma equipe de reportagem passou dias antes no Itatiaia, e colheu um depoimento de Maria Sylvia que fez a atriz se desmanchar em lágrimas no Domingão. A última vez que as duas se encontraram pessoalmente foi em 92. Regina Duarte apresentou a peça A Vida é Sonho em Campinas, e a professora a recebeu em casa.
A visita ilustre também virou foto e foi guardada na coleção impecável de álbuns. É lá, naquelas imagens, que Maria Sylvia mergulha volta e meia, para lembrar do passado. Ela, hoje em dia, ela prefere não sair de casa. Barulho, por ali, só tem quando aparecem os seis netos. Apresentações? Só para velhos conhecidos. Afinal, reclama Maria Sylvia, a declamação não é uma arte popular. E tem pouquíssimo espaço em um mundo moderno que tem tudo, menos sensibilidade. “Acho que sou a última declamadora viva”, ri.
SAIBA MAIS
As pessoas interessadas em conversar com Maria Sylvia Ferraz Silva podem telefonar para (19) 3232-6757.
Dez plantas arquitetônicas do Copacabana Palace, luxuoso hotel carioca erguido há 90 anos, foram encontradas em uma saleta improvisada como arquivo morto, na garagem de um prédio comercial do bairro do Bosque. São projetos na escala 1:100 mostrando a fachada, cortes longitudinais e transversais. Com paciência de monge, os desenhistas colocaram no papel detalhes mínimos: bandôs, luminárias, lustres, entalhes sulcados, adornos. Aquele palácio, na primeira metade do século passado, ficou famoso por hospedar celebridades do mundo inteiro, e seduzia os visitantes com uma estrutura impressionante: teatro, salas de chá e banquetes, jardins internos, suítes especiais. As plantas são um acervo de valor histórico imenso, que foi preservado ao longo do tempo por Hoche Neger Segurado, um dos mais conceituados engenheiros civis da história de Campinas.
As plantas (em fundo azul), foram encontradas no final do ano passado por Leda Segurado, neta do engenheiro, que hoje administra uma imobiliária da família no Edifício Campinas Comercial Center, na Rua Barão de Paranapanema. Os projetos quase centenários, dobrados, exigem a maior cautela para o manuseio. Aberta, cada planta toma quase toda a mesa do escritório.
Leda fala que, no final de dezembro, ela atendeu ao pedido de uma secretária, que alertava para o risco de se perder documentos que eram a memória da carreira brilhante de Hoche, que fez obras importantíssimas em Campinas e cidades vizinhas. A grande surpresa foi encontrar, no meio da papelada, a pasta com as plantas do hotel charmoso, erguido na praia mais famosa do mundo.
Hoje em dia, o Copacabana Palace é administrado por um conglomerado internacional, o Orient-Express. O projeto original, do arquiteto francês Joseph Gire, foi pensado para representar, no Rio, a porta de entrada no Brasil para as personalidades estrangeiras convidadas para as comemorações do centenário da Independência, marcadas para 1922. Mas o como aquelas plantas raras, com detalhes ricos, vieram parar em Campinas?
Na opinião de Leda, neta orgulhosa, o avô trabalhou ao lado dos desenhistas contratados pelo arquiteto francês. Depois de se formar na paulista Escola Politécnica (USP), Hoche Neger estagiou no Rio de Janeiro. Sabe-se, por em exemplo, que em 1920 e 1921 as obras do hotel iam de vento em popa. Surgia na paisagem o primeiro edifício naquele sossegado e romântico bairro de sobrados e casarões, na então capital federal. O jovem campineiro, na época, praticava o desenho com os mestres de uma importante construtora carioca, a Monteiro Aranha.
O hotel não ficou pronto para as comemorações do centenário. A inauguração só aconteceu em agosto de 1923. O imóvel tinha mármores de Carrara e cristais da Boêmia. Suas linhas eram inspiradas em hotéis clássicos de cidades francesas da costa do Mediterrâneo. Era uma obra cara, mas tão cara, que só se tornou viável porque os proprietários do terreno _ Octávio Guinle e Francisco Castro Silva _ tiveram autorização federal para explorar um cassino no estabelecimento. Em pouco tempo, o hotel se tornou reduto de milionários. E alcançou a fama mundial em 1933, quando ambientou as filmagens de Flying Down to Rio, filme que reuniu Fred Astaire e Ginger Rogers. Correu a fama do lugar, sonho de consumo para poucos.
O glamour do Copa sofreu um golpe violento em 1946, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu a existência de cassinos. Decisão que condenou à falência inúmeros estabelecimentos luxuosos do Brasil inteiro. Com a concorrência de conglomerados hoteleiros que passaram a disputar o público refinado que viajava ao Rio, o Copa foi se esvaziando, até ser vendido pelos herdeiros ao Grupo Orient-Express, com estabelecimentos nos mais concorridos pontos turísticos do planeta. O imóvel encantador, que toma 12 mil metros quadrados, foi tombado como patrimônio arquitetônico. E os proprietários atuais modernizaram os serviços sem descaracterizar os traços arquitetônicos originais.
E como Leda tem plena consciência da importância do acervo, ela já entrou em contato com os diretores do hotel e disponibilizou as plantas. A neta admite: não há como saber se Hoche de fato desenhou uma das plantas, ou parte de uma delas. Em todas as plantas trazidas a Campinas, só há a assinatura do arquiteto francês. Também é possível que os projetos encontrados no armário não tenham sido os defintivos. Nada, no entanto, que ofusque a importância do achado. Aqui estão desenhos milimétricos de pontos do prédio preservados até hoje. “É inacreditável saber que estavam esquecidas em um armário de Campinas as memórias de um lugar que é a cara do Rio de Janeiro, que sempre foi a imagem do Brasil lá fora”, fala.
O campineiro
Hoche Neger Segurado se formou em 1919 na Escola Politécnica de São Paulo. Trabalhou no escritório de Ramos de Azevedo, ícone da arquitetura paulista. Depois do estágio no Rio, voltou a Campinas e, ao longo de 34 anos, teve uma carreira notável. O engenheiro comandou os pedreiros que, por exemplo, ergueram o imponente edifício Franz Dafert, imóvel do Instituto Agronômico (IAC) que,desde 2004, é tombado como patrimônio arquitetônico campineiro (projeto que saiu da prancheta de Ramos).
O escritório também foi responsável pela execução de muitas outras obras importantíssimas na cidade. Como os prédios da Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic), atrás do Palácio da Justiça; da charmosa Igreja de Nossa Senhora das Dores, na Rua Maria Monteiro; do Seminário Diocesano da Avenida da Saudade; do Hotel Terminus (sede atual do Magazine Luiza), da Fábrica de Chapéus Cury, no Guanabara. Verdadeiras pérolas da engenharia campineira da primeira metade do século passado.
Na reigão, Hoche comandou a construção de imóveis como o prédio da Gessy, em Valinhos; o Cine e Hotel Cacique, em Americana; a Santa Casa de Rio Claro, entre muitos outros.
Hoche Neger Segurado partiu desde mundo em 1959 e deixou o filho Rubens no comando do escritório. O herdeiro já se aposentou e, hoje em dia, as salas do escritório da família (bem em frente ao Brinco de Ouro), funcionam como uma empresa imobiliária.
SAIBA MAIS
As pessoas interessadas em fazer contato com Leda e saber detalhes sobre as plantas históricas podem ligar para (19) 2512-3111 ou escrever mensagens para o e-mail ledasegurado@uol.com.br
REDUTO DOS FAMOSOS
Nenhum patrimônio histórico representa, tão fielmente, as épocas de um Rio glamouroso e elegante. O Copacabana Palace foi erguido na Avenida Atlântica, e ao longo do tempo hospedou magnatas, políticos, atletas, artistas de ponta. A relação de famosos tem gente como Marlene Dietrich, Ava Gardner e Brigite Bardot (divas da sétima arte), o diretor Orson Welles, o eterno “Tarzan” Johnny Weissmuller; os astros das bandas The Police e Rolling Stones. As calçadas da praia sempre serviram de cenário para a homenagem a poetas e compositores imortais. E, a reboque dos astros internacionais, o hotel virou locação, ao longo do tempo, para festas gigantescas, com pessoas da alta sociedade. O tempo passou. O bairro perdeu o comércio refinado para os grandes shopping centers, foram erguidos dezenas de novos hotéis, o lazer na areia se popularizou. Ainda assim, Copacabana nunca deixou de ser um dos mais importantes cartões postais do Rio de Janeiro.
Tudo bem que eu já falei da Barão de Jaguara aqui no blog, mas, diante da foto do Gilberto Di Biasi que eu encontrei, não poderia deixar de mencionar de novo os encantos da rua na década de 1950. Era lá que os moços paqueravam e olha só como eles se vestiam bem! Calças e camisas de linho, paletós bem cortados e gravatas, uma elegância que se via também nos carros e nos flertes discretos a rolar nas calçadas.
Celebridades modernas que fazem de tudo para aparecer e desprezam a vida distante dos holofotes certamente teriam dificuldade para entender que é possível ser feliz fazendo escolhas mais simples. Com a cantora Celly Campello foi assim. No auge da carreira, a estrela deixou tudo para se casar com o contador José Eduardo Gomes Chacon, em janeiro de 1962. Os dois moraram em Campinas até a morte de Celly, em 3 de março de 2003.
Célia Benelli Campello nasceu em São Paulo, no dia 18 de junho de 1942. Passou a infância em Taubaté, também no Interior do Estado, e começou a carreira cantando em festas de debutantes na cidade. Viveu o auge da fama em 1959, quando gravou Estúpido Cupido, versão de Fred Jorge para Stupid Cupid, de Neil Sedaka e Howard Greenfield. Em 1960, quando estourou com Banho de Lua, era chamada de “namoradinha do Brasil”. O sucesso foi tão grande que a fábrica de brinquedos Troll lançou a boneca Celly e a Lacta colocou no mercado o chocolate Cupido.
Ainda em 1960, Celly participou do filme Zé do Periquito, uma produção de Mazzaropi em que, com George Freedman, Paulo Molin, Tony Campello e Carlão, cantou Gostoso Mesmo É Namorar, letra e música de Heitor Carillo. Foi eleita a rainha do rock – junto de Sérgio Murilo, o rei do rock – pela Revista do Rock, com 40 mil votos.
Com 5 anos, ela já cantava na Rádio Taubaté. Aos 10, apresentava um programa próprio aos domingos, na Rádio Cacique, também de Taubaté, em que interpretava sucessos de Ângela Maria e Doris Monteiro. Com o nome Célia Campello gravou o primeiro disco, aos 15 anos, com seu irmão Sérgio. Adotou o nome artístico no ar, durante o programa Parada de Sucessos, de Hélio Alencar, na Rádio Nacional de São Paulo – a gravadora queria identificá-la como uma cantora norte-americana, assim como o irmão dela, Sérgio, que passou a se chamar Tony Campello.
Em 1976, teve seu revival com a novela Estúpido Cupido, em que atuou como cantora. Ela gravou o disco Celly Campello pela RCA Victor e voltou a fazer shows e a se apresentar em programas de TV. No mesmo ano, participou do filme Ritmo Alucinante, ao lado de Rita Lee, Erasmo Carlos, Raul Seixas e Tony Campello.
Em 1996, foi diagnosticada com câncer de mama. Fez cirurgia e quimioterapia. Dois anos depois, a doença voltou em uma costela e atingiu a pleura. Operada pela segunda vez, perdeu uma costela e fez novo tratamento quimioterápico, mas não resistiu. Foi internada e morreu no Hospital Samaritano de Campinas. Deixou dois filhos, Cristiane e Eduardo, e dois netos.
Há pessoas que passam pela vida da gente, outras ficam. Flávio da Silva Fernandes, gerontólogo, advogado, sociólogo e pesquisador foi, sem dúvida, uma pessoa marcante na minha trajetória. Ainda estagiária em jornalismo, eu me lembro dele defendendo os direitos dos idosos. Foi com ele que aprendi, desde jovem, a prestar mais atenção nos gestos, nas atitudes e nas palavras de quem já tinha vivido muito. Doutor Flávio dizia que o Brasil, na década de 1980, ainda tinha feito pouco (ou quase nada) por seus idosos. E ele começou a fazer, sem parar, até o fim de sua existência.
Soube de sua morte, em junho do ano passado, lendo o texto publicado na página de necrologia do Correio Popular. Ele estava com 82 anos. Foi um baque. Autor do livro As pessoas idosas na legislação brasileira, uma referência no assunto, Flávio permaneceu casado por 56 anos com Célia Campos da Silva, com quem teve duas filhas, Simone e Viviane. Toda vez que conversávamos, costumava ouvir um elogio ou uma referência carinhosa a “Celinha” – sabe aquele amor que não se vê mais? Célia mora com a filha Vivi e desfruta da companhia dos netos Desirée, Felipe e Camille, filhos de Simone. Mas há dias de muita solidão, tristeza e saudade, não tem como.
Flávio da Silva Fernandes foi presidente do Lar dos Velhinhos e diretor do Sesc-Campinas. Conferencista internacional, escreveu livros e defendeu o direito de uma velhice digna para todos. Sofreu quatro acidentes vasculares cerebrais (AVC), o primeiro em 1990, o último em 1998. Forte e apaixonado pela vida, fez muita coisa nesse período. Morreu no ano passado, amparado pela família, do jeito que merecia.
Desbravador
O reumatologista Edison Rossi conta que se tornou geriatra “graças ao Flávio”. Com ele, participou de 24 jornadas sobre o tema e viu o Lar dos Velhinhos ganhar ares modernos, já como entidade médico-social dedicada à promoção da saúde e à melhoria da qualidade de vida dos idosos.
No Sesc, Flávio da Silva Fernandes criou a primeira escola aberta da terceira idade do Brasil. “Foi um desbravador”, define Rossi. Com ele, os idosos começaram a participar de eventos, dançar, ter áreas de lazer. Até as palavras passaram a ter versões mais atualizadas quando usadas pelo gerontólogo. Nas entrevistas e jornadas de estudo, costumava definir asilo, por exemplo, como “instituto de longa permanência”.
Ele foi também
_Membro do Conselho Consultivo da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG )
_Delegado da Associação Nacional de Gerontologia (ANG) do Estado de São Paulo
_Assistente técnico do Sesc-SP
_Assessor de Gerontologia Social da PUC-Campinas
_Membro das delegações brasileiras nos congressos de gerontologia de Viena, Roma e Gainsville
Nome de prêmio
O jornalista e historiador José Fernandes era pai de Flávio da Silva Fernandes. O garoto cresceu nas redações dos jornais Correio da Noroeste, em Bauru, e Correio de Garça, em Garça. Desde os 16 anos, varava a madrugada no fechamento das edições. Escrevia bem e tinha a agilidade de um bom repórter, por isso sua facilidade em escrever artigos para jornais e, mais tarde, livros. Em 2007, Flávio deu nome a um prêmio em gerontologia social concedido pelas Faculdades de Educação e de Ciências Médicas da Unicamp, junto do Sesc, por seu pioneirismo, sua dedicação e os trabalhos desenvolvidos na área.
Os depoimentos sobre o desabamento do Cine Rink, em 16 de setembro de 1951, com exceção da fala de Rafael Antonio Castioni Oliva (foto), com quem conversei sobre a tragédia, fazem parte do livro-reportagem A Última Sessão, escrito pelos jornalistas Crislaine Coscarelli, Christiane Ribeiro e Samuel Leite. A própria Crislaine cita a entrevista que mais a emocionou no trabalho de conclusão de curso, realizado em 1998.
Dia cinza
“O desastre ficou tão marcado na memória das pessoas que muitas eram capaz de nos descrever que o dia amanheceu cinza naquele 16 de setembro, fato que comprovamos junto ao Instituto Agronômico de Campinas (IAC). O depoimento do soldado Mauro Montedióca foi o que mais me marcou, pois, como ele não estava dentro do cinema (passava na porta e foi o primeiro a auxiliar as vítimas), tinha uma memória mais consciente de tudo o que aconteceu e se emocionava ao descrever as cenas de horror que viveu, vendo rostos conhecidos em meio aos escombros pedindo ajuda.”
Crislaine Coscarelli, editora da revista Panorama, do Grupo RAC
Família em prantos
Cyrce tinha um corte na cabeça e perdia muito sangue. A enfermeira a colocou em uma cadeira e, sem nenhuma anestesia, começou a costurar o corte. Mãe e filha levaram nove pontos. A cada um deles, a menina rasgava o avental da enfermeira. A irmã, Myrce, foi levada para a Casa de Saúde em estado grave. Não havia mais vagas nos quartos e nem mesmo dentro do hospital. Ela foi colocada no gramado em frente ao prédio, ao lado de várias outras vítimas que também aguardavam atendimento. Morreu às cinco horas da tarde, poucos minutos depois de ser atendida por um dos médicos.
Observação: conversei com Cyrce no último dia 13/02/2012. Ela conta que, quando leu o texto publicado na coluna em 12/2, chorou muito. Nunca se esqueceu daquele 16 de setembro de 1951, quando perdeu a irmã. Mas, apesar de tudo, é uma mulher alegre. Faz academia todas as manhãs e dança aos finais de semana. É bonita, esbelta e elegante, do jeito que aparece nas fotos do passado.
Feridos na calçada
No momento da tragédia, os bombeiros retiraram Maria Regina do cinema. Colocaram-na sentada na sarjeta da loja A Meia Elegante. Todos os feridos foram colocados na calçada. Ela ficou de braços dados com uma garota que estava ao seu lado, na tentativa de amenizar o sofrimento uma da outra, enquanto aguardavam solidárias pelo ônibus que as levaria ao hospital.
Quando o médico João Auricchio, pai de Regina, chegou ao Rink, avistou um bombeiro carregando uma garota vestida com saia xadrez de cores azul, verde e vermelho. Angustiado, perguntou: “Onde dói, filha?”. Maria Regina respondeu: “Os dedos da mão”.
Na casa de número 1821 da Rua General Osório, Maria Regina tinha certeza de que estava próxima da morte. Deitada na cama, olhava para a imagem de Santa Rita, sua protetora, e pedia pela mãe. Zenaide logo chegou e, ao vê-la, chorou. Eram seis da tarde. A menina ignorava que completava mais de duas horas de hemorragia interna. As unhas começaram a ganhar uma tonalidade roxa. Uma das tias chamou Auricchio para o canto do quarto. “Sua filha está fria; ela está morrendo”, disse. Nesse momento, o médico percebeu que não poderia salvar sozinho a vida da filha. Ligou para o Hospital Irmãos Penteado e pediu garantia para que a menina fosse atendida imediatamente. Ao chegar ao hospital, Maria Regina foi encaminhada à sala de cirurgia. O médico Dante Erbolato, responsável pelo Departamento de Cirurgia do hospital, a esperava. Foram 28 pontos no fígado. A operação durou cerca de seis horas e foi completada com êxito. Ela ainda ficaria 15 dias de repouso.
Flora é nome de edifício
Na Rua Culto à Ciência, o Condomínio Edifício Flora é uma homenagem da Percon Engenharia à menina Flora Otávia Cationi Oliva, uma das vítimas do desabamento do Cine Rink. Flora tinha 12 anos e estava no cinema com a mãe, Ophélia, o irmão Rafael e mais duas irmãs. Rafael sofreu ferimentos graves, mas sobreviveu. Hoje, está com 70 anos e os pais já morreram, mas diz que a dor foi tão grande para a família que sua mãe adotou um bebê logo depois da morte de Flora, talvez para suprir a ausência da criança. Anos depois, outra perda: o garoto, quando estava com 16 anos, morreu de leucemia.
Matinê, a grande atração
O cinema era o local preferido de crianças e jovens e havia muitas salas de projeção na cidade. O Coliseu, instalado em um rústico barracão construído para touradas e várias vezes reformado, era o mais popular. O São Carlos ficava na Rua César Bierrenbach, foi inaugurado em maio de 1924, funcionou durante 37 anos e foi interditado para reformas em 1951, após o desastre do Rink, para nunca mais reabrir. O Cine Voga estava localizado na Rua General Osório, na esquina com a Anchieta. Cativava seu público por ser bonito e moderno, mas não tinha o
Em reportagem intitulada Uma cena tétrica e real fora da tela, o jornal Correio Popular relatou, em 24 de setembro de 1944, o incêndio que havia destruído o Cine República (esquina das ruas Francisco Glicério e Costa Aguiar) no dia anterior. Em menos de 30 minutos, o cinema foi completamente consumido pelas chamas. Não houve vítimas. Sete anos depois, no Cine Rink, situado a poucos metros de onde ficava o República, na Barão de Jaguara com a Conceição, outra tragédia, dessa vez com 25 mortos, entre eles muitas crianças, e mais de 400 feridos.
Tarde de 16 de setembro de 1951, dia de jogo entre Ponte Preta e XV de Piracicaba no Estádio Moisés Lucarelli. No intervalo da partida, o sistema de som anuncia o pedido de comparecimento aos portões de saída de médicos que estivessem no estádio. Ainda não se falava no acidente, como forma de evitar tumulto na saída dos torcedores. Só no final do jogo é que os alto-falantes informaram sobre a destruição do cinema.
Dessa forma, desaparecia o local de diversões que começou em 1878 com um rinque de patinação, passatempo preferido da elite da época. Depois, o prédio serviu para apresentações de circo, lutas, bailes e teatro, até se transformar em cinema. No dia 12 de abril de 1930, o Rink foi cenário de uma das primeiras apresentações de cinema sonoro em Campinas. No dia do desabamento, o filme em cartaz era Amar Foi Minha Ruína.
Última sessão
A tragédia do Rink foi tema de projeto experimental de alunos do curso de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Em 1998, os jornalistas Christiane Ribeiro, Crislaine Coscarelli e Samuel Leite escreveram A Última Sessão, livro-reportagem com orientação do professor Marcel Cheida, documento precioso para quem quer conhecer detalhes daquele dia que abalou Campinas. Confira alguns trechos:
- Três e dezoito... O tempo para. Uma das vigas que sustenta o meio do telhado se desprende e cai sobre o estuque (tipo de forro feito com cimento e tela). Este, incapaz de suportar tanto peso, desencadeia uma avalanche de madeiras, pregos e telhas sob centenas de pessoas e atinge principalmente as que se sentaram nas fileiras do meio. A madeira repleta de pregos cai como uma lâmina afiada, desfigurando rostos, arrancando peles, roupas e tudo que tentasse impedir o choque. Dedos, mãos e braços foram decepados.
- As vítimas foram colocadas na calçada em frente ao cinema, algumas foram atendidas na Farmácia São Luís, a poucos metros do Rink. Muitos taxistas se ofereceram para transportar os feridos até o hospital enquanto as ambulâncias não chegavam.
- O fotógrafo Gilberto Di Biasi chegou ao local e não acreditou no que viu. Pensou que muitos ali deveriam ser seus conhecidos, mas mesmo assim executou seu trabalho.-
- O luto predominava em toda a cidade. A população de 130 mil habitantes vestia-se de negro, e o céu, de cinza.
- As famílias velaram durante toda a noite os corpos dos parentes na própria casa e, ao amanhecer, se preparavam para o enterro.
- No dia 21 de setembro de 1951, chegou às mãos da administração de cooperação técnica, assinado pelo então prefeito de Campinas, Miguel Vicente Cury, que solicitava a ajuda dos peritos da USP para apurar as causas do desastre.
- No documento, a equipe creditou o desastre à queda de uma das tesouras, responsável direta pelo suporte do telhado. Esse desabamento teria carregado parte da estrutura central, fato que causou a morte instantânea de grande parte das vítimas.
- Passado tanto tempo, muitas dúvidas ainda restam acerca da real causa do desabamento. Fatores como informações desencontradas, a falta de esclarecimento oferecido à população, aliados à dor, à tristeza e às muitas lágrimas, fizeram desses anos todos um pesadelo na vida de muitas famílias.
A escritora, professora e advogada Eoys Black Vieira Alves, era amiga de Monteiro Lobato e trocou cartas com o grande nome da literatura brasileira durante os dez últimos anos da vida dele. Era uma mulher cheia de ideias e planos, mas teve um fim trágico em 25 de abril de 1989, ao ser esfaqueda e morta pelo eletricista Júlio Mamede de Lira, marido de Maria Carmelina Carneiro, a sua empregada doméstica. O assassinato aconteceu na modesta casa do casal, no Jardim Ipaussurama. COMO FOI Cartas trocadas com Monteiro Lobato Eoys Black publicou, em 1984, o livro Castro Alves, o Poeta da Liberdade. Em maio de 1987, foi tema de uma reportagem especial no Correio Popular, que destacava sua acirrada correspondência com o polêmico escritor Monteiro Lobato (1822/1948), entre 1938 e 48. Ela tinha a intenção de escrever um livro sobre o criador de Narizinho, baseado nas inúmeras cartas trocadas com o autor nos dez últimos anos da vida dele. A escritora recebeu o primeiro prêmio num concurso de contos em Jundiaí. Como professora, destacou-se na docência e administração escolar, com vários trabalhos publicados. Em entrevista sobre o seu livro, ela disse ao Correio Popular: “Eu mais uma vez reafirmo a minha fé a minha confiança no futuro do Brasil, através da vivência cívica, do fortalecimento da família, na defesa dos direitos humanos e da nossa soberania.”
Reportagens publicadas em jornais da cidade em 26 de abril de 1989 informam que Eoys, de 69 anos, havia acompanhado Maria Carmelina até a casa onde morava Mamede, com o intuito de buscar roupas e outros pertences da mulher, já que ela não queria mais viver sob o mesmo teto que o companheiro. Na noite anterior, Carmelina havia dormido na casa da patroa, Eoys, que de manhã a acompanhou até o bairro distante onde ela residia até então. Quem as levou até lá foi o dentista Josué Cardoso d’Affonseca Junior, de 60 anos, que era amigo de Eoys. Ele também foi esfaqueado por Mamede e morreu.
Josué era, segundo amigos e familiares, uma pessoa exemplar. Promovia encontros de jovens e casais e frequentava, da mesma forma que a amiga Eoys, a Igreja Presbiteriana. Às 7h30 daquele 25 de abril de 1989, Eoys havia ligado para Maria Elisa, esposa de Josué, para perguntar se ela poderia levá-la até a casa de Maria Carmelina, a sua nova empregada. A advogada não dirigia e sempre solicitava ao casal amigo (Maria Elisa-Josué) uma carona. Maria Elisa disse que tudo bem, mas depois se lembrou que precisava preparar o texto de uma reunião da igreja para apresentar ainda naquela tarde, e pediu ao marido que fosse no seu lugar. Ele foi, mas não voltou. Ficaram seis filhos (cinco mulheres e um homem) para Maria Elisa criar sozinha.
Reportagens publicadas um dia depois da tragédia informam que Eoys e Josué ficaram na Belina à espera de Carmelina, que entrou na casa para pegar seus pertences. Foi quando Eoys ouviu gritos, desceu do veículo e seguiu até a residência simples e inacabada de sua empregada doméstica, que a essa altura já estava morta. Mamede, enfurecido, matou também a advogada e, em seguida, dirigiu-se ao carro, dessa vez dando cinco facadas em Josué. O dentista tentou seguir até o hospital Celso Pierro e bateu em um Chevette ocupado por dois oficiais de Justiça, um homem e uma mulher. A mulher quebrou braços e pernas e o homem permanece em cadeira de rodas até hoje. Josué também não resistiu, um baque para a família de seis filhos que ficou mutilada, sem a presença paterna até então forte e presente. Vinte e dois anos se passaram e o responsável pelo crime continua foragido.
Depois da morte de Andiara Carneiro de Mendonça Alves Pereira, no dia 22 de janeiro, muitos leitores escreveram para perguntar se não seria celebrada missa de sétimo dia em sua homenagem, mas o filho Arian informou que não, já que a família é evangélica. Haverá, sim, uma reunião de gratidão, na terça-feira, dia 31 de janeiro, às 19h30, na Igreja do Nazareno Central de Campinas (Rua José Paulino, 1829). Na foto, Andiara aparece ao lado do filho Arian Carneiro de Mendonça Alves Pereira e do marido Arnaldo Alves Pereira Junior.
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