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16/05/2012 18:31:23
O Exótico Hotel Marigold  Compartilhar
foto: Divulgaçãoaa

Tenho uma amiga que não assiste a filmes violentos nem que tratem de temas escabrosos ou que contenham cenas incômodas. Ela, que já viu muitas coisas na vida, prefere projeções sem sustos.

Pois O Exótico Hotel Marigold, de John Madden, é perfeito para espectadores que vão ao cinema para assistir a filmes leves e que, porém, não afrontem a inteligência, apesar de previsíveis.

De cara, a melhor coisa é seu elenco excepcional, atores britânicos que têm o perfeito domínio de cena, capazes de, num olhar, num gesto, numa expressão facial dizer tudo. E, por isso, dão imenso prazer a quem assiste e gosta de apreciar o jogo da atuação.

São eles: Judi Dench, Maggie Smith, Tom Wilkinson, Ronald Pickup, Bill Nighy, Penelope Wilton, Celia Imre e Norman Cousins. Todos muito bem. Interpretam com elegância, verdade, carisma e, ainda se permitem alguns momentos individuais de intenso brilho.

E o filme tem outro mérito: o de fazer comédia com base na simplicidade do dia-a-dia, nas coisas corriqueiras, nos pequenos impasses. E melhor de tudo: jamais apelam. No Brasil, em geral, partimos para o vulgar quando o assunto é comédia, ou para a picardia, ou a piada que tem o sexo como base. Em Hotel Marigold até tem esse viés, no suposto conquistador que tenta emplacar uma namorada, mas há uma quase ingenuidade nas ofensivas do sujeito.

E, para terminar a parte elogiosa, a maravilhosa Judi Dench narra a história interpretando mulher idosa que fica viúva e com dívidas – o marido sempre as escondeu dela. E ela arruma um emprego e abre um blog para contar as peripécias, espaço para alguns ensinos sobre a vida. Nada que ninguém já não tenha dito ou escrito nestes tempos de literatura de auto-ajuda, mas cai tão bem na personagem que nem nos importamos com isso.

O lado negativo: o olhar do diretor (o mesmo de Shakespeare Apaixonado, 1998) não poderia ser – remetendo ao título – mais exótico. E não há como fugir disso, pois é o olhar estrangeiro sobre a Índia que nos parece – a nós ocidentais – tão estranho. E de fato é estranho: no trânsito caótico, no jeitinho (tão parecido com os brasileiros), na comida nem sempre tão palatável, no modo de vida, na convivência com animais, na religião.

A Índia, afinal, é estranha para nós. Os indianos se viram muito bem naquele caos. Mas a história acontece justamente nesse confronto britânico/indiano e com resultados previsíveis.

E por falar em previsibilidade, os desfechos vão sendo concatenados de modo mais ou menos esperado, mas simpático, ainda que haja certa complacência porque, afinal, todos os atores citados formam um grupo de idosos que se hospeda no tal hotel do título. Mas o contraponto é o delicioso humor desconcertante inglês.

Mas há outro dado interessante, digamos, mais utilitário. O filme se destina a um público minoritário e esquecido nas produções, que são os adultos – mais para idosos. A história é sobre eles. E, neste sentido, se aplica a gente que tem força e disposição para uma viagem à Índia e que ainda encontra motivação para novos projetos de vida, caso da protagonista.

Enfim, falei que era tão descomplicado e simplório, mas ao final percebo que há muito mais nas entrelinhas deste filme. Que bom. Bem, ele estreou na semana passada, mas está dobrando uma nova semana em Campinas. Aproveitem, pois não tem violência nem sexo nem drogas. E nem rock. Nada mal.
 

enviada por João Nunes
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11/05/2012 10:35:52
Tropicália *  Compartilhar
foto: Divulgação

Gilberto Gil cantando Back in Bahia, ao final de Tropicália, de Marcelo Machado, me produziu um momento epifânico. Antes, um comentário aparentemente aleatório, mas não. Falo da grande sacada de Gil cantar o Brasil com o rock. Aquele rock primordial do final dos 50, começo dos 60 – tanto que ele sente saudade “de ouvir Celly Capello pra não cair”.

A cabeça do músico estava suficientemente aberta para não fazer forró ou samba. Foi com rock que ele expressou sua saudade do Brasil, Gil plenamente global – o mundo como sua casa. E, em lugar de parecer contraditório, é complementar e simbiótico, além do fato de que ele havia acabado de chegar da terra dos Beatles. “Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar” – que bela composição poética de palavras e sentidos.

Mas a epifania veio não só pela emoção estampada no rosto dele contemplando a projeção daquele show maluco, mas pela alegria transbordando por todos os poros – dele por voltar do exílio; do público, talvez alheio ao motivo, que dançava pelo simples fato de se sentir bem. Aqueles baianos – devia ter outros brasileiros por ali – dançavam com alegria desmedida revelando uma das identidades do Brasil – que são muitas.

E eu não me vejo naquele lugar, mesmo tendo mergulhado na emoção da música, nem me sinto parte do grupo. E, no entanto, me reconheci nele. O contraponto que se estabelece entre a Londres cinzenta (“Do luar que tanta falta me fazia junto do mar”) e a Bahia ensolarada (“Naquela ausência de calor, de cor, de sal,
de sol”) junta duas culturas que parecem excludentes, mas que, ao fim, se encontram (“Mar da Bahia cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar/
Tão diferente do verde também tão lindo dos gramados campos de lá”).

Meu lado Londres (Europa portuguesa por raiz, Europa sueca por sedução pelo supostamente perfeito, do tudo pronto, do nada mais por ser fazer) parecia não se encontrar com o carnavalesco, a irreverência das pessoas manifestando o puro prazer, o deleite sem culpa, os desejos expostos, a música exuberante, a beleza negra de Gil, os muitos risos, o sol explodindo na cabeça – eis um Brasil que eu supunha ausente em mim e, no entanto, está tão essencialmente presente; senti-me brasileiro não porque aquele seja o Brasil, mas porque é um Brasil ao mesmo tempo tão distante e tão umbilicalmente meu.

E, pensando no filme propriamente, aquela mistura toda de cores, comportamentos, músicas diversas, ritmos ancestrais, mistura, muita mistura, isso só pode ser tropicalismo, Oswald de Andrade, Helio Oiticica, Zé Celso, a música clássica de Rogério Duprat se encontrando com o rock/marcha-rancho de Alegria, Alegria – que não foi já marchinha como quis Caetano; ela é um manifesto antes de tudo.

Nunca soube exatamente o significado de Tropicália. Olhava o disco com aquela capa colorida onde Caetano canta a música-tema e que eu comprei tão cedo e tentava decifrar. Assim como não entendia o disco mesmo, o Tropicália, aquelas misturas todas – Coração Materno? –, tudo tão contraditório e tão harmonioso. Não foi à toa que Caetano berrou desesperado: “Essa é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês não estão entendendo nada!”

O filme de Machado me fez compreender tardiamente – mas não sei explicar. Sei vislumbrar aquelas cores todas juntas, todos os discursos, todas as músicas, todas as roupas extravagantes, todas as extravagâncias. O tropicalismo como movimento certamente acabou, mas seu espírito está aí; afinal, o Brasil é tropicalista pela própria natureza.

*Tropicália ainda não tem data definida de estreia.
*Foto de Gil cantando Domingo no Parque com Os Mutantes no Festival da Record em 1967.

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10/05/2012 11:38:00
Cine Ceará 2012  Compartilhar
foto: Divulgação

O principal atrativo do Cine Ceará, que acontece de 1 a 8 de junho, é a exibição de longas-metragens latinos – a maioria – junto com os nacionais. Neste ano, serão seis latinos e três brasileiros.

Os brasileiros são Febre do Rato (Claudio Assis), vencedor do Festival de Cinema de Paulínia do ano passado, Rânia (da cearense Roberta Marques, eleito o melhor filme na mostra Novos Rumos, do Festival do Rio em 2011) e o documentário Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now, de Ninho Morais.

Violeta se Fue a los Cielos, do chileno Andrés Wood, sobre a poeta Violeta Parra, que ganhou Grande Prêmio do Júri Internacional no Sundance Film Festival 2012, abre o evento no dia 1º.

Os outros concorrentes são: o documentário Bertsolari (do espanhol Asier Altuna), Un Amor (da argentina Paula Hernández), Fecha de Caducidad (da mexicana Kenya Márquez), Distancia (do guatemalteco Sergio Ramírez) e En el Nombre de la Hija (do equatoriano Tania Hermida).

Na disputa do Troféu Mucuripe 2012, o diretor executivo do evento, Wolney Oliveira, destaca a presença feminina na direção, pois, dos nove selecionados, quatro são projetos comandados por mulheres, “o que comprova a força delas na produção de títulos de qualidade”.

Na competição de curtas-metragens haverá doze concorrentes, com três títulos de São Paulo, dois do Rio, Ceará e Minas, além de Pernambuco, Rio Grande do Sul e Espírito Santo.

*Foto Un Amor, da argentina Paula Hernández.

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10/05/2012 11:16:12
Cinema Brasileiro em Paris  Compartilhar
foto: Divulgação

Desde ontem, Paris sedia o 14º Festival de Cinema Brasileiro, realização da Associação Jangada, da carioca Katia Adler. A mostra acontece até 22 de maio, no cinema Le Nouveau Latina, no Marais.

A programação deste ano apresenta 29 filmes: doze documentários fora de competição, sete ficções que disputam o prêmio de Melhor Filme, eleito por voto popular, além da mostra retrospectiva RioFilme 20 Anos e de uma homenagem ao cineasta francês Claude Santiago.

Segundo a realizadora, o festival objetiva revelar aos franceses a diversidade do cinema brasileiro autoral, servir de vitrine do cinema nacional na Europa e vender os filmes aos distribuidores franceses.

Na abertura de ontem, foi exibido Capitães de Areia, de Cecília Amado, adaptado do livro homônimo, de Jorge Amado, a propósito de homenagear o escritor no centenário, este ano, de seu nascimento.

Estes são os filmes em competição: Histórias que só existem Quando Lembradas (Julia Murat), O Abismo Prateado (Karim Ainouz), Rânia (Roberta Marques), Heleno (José Henrique Fonseca), Corações Sujos (Vicente Amorim), Sudoeste (Eduardo Nunes) e Febre do Rato (Cláudio Assis).

*Foto de Sudoeste, de Eduardo Nunes.

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07/05/2012 18:40:27
Um Método Perigoso  Compartilhar
foto: Divulgação

Gostaria de saber muito mais do pouquíssimo que sei sobre psicanálise para poder escrever como convém sobre Um Método Perigoso, de David Cronenberg, que só hoje consegui assistir.

De cara, em termos cinematográficos, o filme me pareceu conservador na narrativa, se levarmos em conta a obra do diretor. É, também, discursivo e não há como não sê-lo, pois se baseia numa peça de teatro The Talking Cure, de Christopher Hampton, e no livro A Most Dangerous Method, de John Kerr – ambos os autores assume o roteiro. Tais obras estão explícitas no título do filme e no método da cura pela palavra.

E, tentando conhecer um pouco mais as respectivas biografias, me peguei pensando que não se trata de filme biográfico – há, por certo, outros caminhos para conhecer a vida dos protagonistas.

Antes, o roteiro faz um recorte na relação dos dois criadores da psicanálise, Freud (Viggo Mortensen) e Jung (Michael Fassbender), e de como, em dado momento, seus caminhos se bifurcam de modo irreversível.

E nesse recorte entra a paixão correspondida de Jung por Sabina Spielrein (Keira Knightley), que, inicialmente será paciente e, depois, amante. Sabina, judia-russa (1885-1942) experimentava prazer na violência do pai e se sente “curada” quando, internada, consegue verbalizar essa dura verdade.

A relação de ambos – perigosa porque são terapeuta e paciente – será expressa por meio do sadomaosquismo associado ao prazer. E servirá como contraponto ao casamento de Jung, cuja relação virou “habitual”, para usar palavra dele.

A relação com Freud tomará o caminho da separação porque são, de fato, diferentes. Este, judeu-austríaco, enquanto Jung era suíço – “não confie nos arianos”, recomenda Freud a Sabina. E porque Jung (1875-1961) era rico – a viagem de navio para os Estados Unidos em primeira classe transforma-se em humilhação a Freud (1856-1939).

Mas, o mais importante, são as teses distintas. Não vou resumi-las em poucas linhas, pois seria empobrecê-la, mas dar uma pincelada. Freud insiste em que a base do seu trabalho sobre o inconsciente deve ser científico e qualquer teoria mística – ou algo correlato – sugerido por Jung só jogaria a opinião pública contra o nascente movimento.

Jung discordava do princípio freudiano de que todos os conflitos humanos seriam de natureza sexual, enquanto Freud discordava do uso por Jung de fenômenos espirituais. Tudo isso está no filme e serve como informação a leigos – como eu. Portanto, temos muitas informações, mas não se trata de uma coletânea de ensinos para iniciados, pelo contrário.

Mas é interessante que tais acontecimentos se dêem pouco antes da Primeira Guerra e que Jung tenha sido escolhido pelo próprio Freud como continuador de sua obra. Vão se separar e a questão ariana/judaica, que surge nas entrelinhas, crescerá para muito além do próprio filme.

A economia de personagens – praticamente os três atores dominam a cena – assim como de acontecimentos servem, entretanto, para ressaltar o mais importante: além da questão político-racial e das divergências de dois importantes pensadores, o filme exibe com precisão o fascínio que a psicanálise ainda exerce.
 

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04/05/2012 10:32:16
Estradeiros e o Festival de Recife  Compartilhar
foto: Divulgação

Fiz parte do Júri da Crítica do Festival de Recife – e me colocaram como presidente do júri, o que muito me honra – que escolheu Estradeiros (foto), dos pernambucanos Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, como melhor filme.

A mostra competitiva deste ano, ressalte, estava muito melhor que a de 2011. Não havia, entre os sete concorrentes, nenhum filme ruim – todos, de modo geral, foram bem produzidos e com resultados positivos.

Mas, bem próximo do fim, eu ainda não tinha filme para votar. Dos apresentados, o único que reunia as melhores condições era Paraísos Artificiais (Marcos Prado, que estreou hoje), mas, mesmo assim, é o chamado filme de mercado e com aceitáveis aberturas que o credenciam para tal.

Ocorre que o Prêmio da Crítica não escolhe necessariamente o melhor, ou seja, o mais bem produzido (caso de Paraísos) ou o de que gostamos mais. Este prêmio procura aquele filme que aposta na ousadia, no novo, no menos confortável, no que busca alternativas de linguagem. Isso tudo Estradeiros tem.

Curioso que mergulhei na experiência sensorial de Paraísos Artificiais e sua música eletrônica lisérgica quase na mesma medida em que mergulhei no ritmo veloz e, igualmente, sensorial da câmera de Estradeiros no seu passeio pela América do Sul, do Nordeste ao Sul, nas magníficas paisagens, na inquietude da procura de algo não definível, no encontro com personagens tão ricos e no rompimento de fronteiras.

Até conseguimos identificar onde estamos, mas nunca o filme se preocupa didaticamente com isso. A câmera adentra todos os lugares num ritmo voraz, quer a revelação, o inusitado, quer, como prega o diretor, falar da terra, do espaço que nos envolve e seus mistérios e quer conhecer gente que transita o tempo todo e se desloca de um lugar para outro numa inquietação que mexe com nossas certezas.

A câmera que coloca Recife e Buenos Aires de ponta cabeça nada mais é que virar o mundo de cabeça para baixo. Até pode soar excessivo, especialmente no fim, mas há um quê de vertigem que perpassa o filme, justamente porque a câmera nunca se contenta com o ângulo mais fácil e óbvio.

Não tenho idade, mas, mesmo se tivesse, não teria coragem de abandonar meus princípios de pequeno burguês e rodar sem rumo pelos países como fazem aqueles jovens. Mas me entreguei à experiência do filme. Em Paraísos Artificiais, droga e a música eletrônica desencadeiam a viagem. Em Estradeiros, a viagem em si e a inquietude da câmera e seu movimento sempre frenético.

O Festival
O júri do Festival de Recife, que terminou anteontem, foi extremamente conservador. À Beira do Caminho, de Breno Silveira, em que pese a excelente produção e a fotografia maravilhosa de Lula Carvalho, não foi o melhor filme – mesmo levando em conta que opiniões são opiniões e que a minha é apenas mais uma.

Mas fica muito claro o caminho tomado pelo júri: o da solução mais simples e óbvia, que se completa na escolha dos curtas também. Até a Vista, de Jorge Furtado, como melhor filme, além de outros três prêmios, é um exagero. O filme é apenas certinho e engraçado, com bons diálogos (uma marca do diretor). Nada além disso.

Assim como enche de prêmios outro filme dito “bacana”, chamado L, de Thais Fujinaga, e dá Prêmio do Júri a Fábrica, de Aly Muritiba. Todos estes citados são bem realizados, no entanto, em nenhum deles há ousadia, nenhum busca o mínimo risco, todos trabalham na região do conforto. E, ainda por cima, quer confortar o espectador – mesmo atitude de padres e pastores nas igrejas.

Se Breno Silveira, como longa-metragista quer o mercado, ele tem todo o direito, que se entregue a melodrama simplório e faça muito público. Aliás, torço para que isso aconteça, pois uma boa cinematografia deve ter espaço para todo o tipo de filme.

Mas um curta-metragista começar a carreira fazendo “filmes do bem” repletos de mensagem é um equívoco. O curta é espaço de experimento, de aprendizado e o aprendizado nasce do risco, nunca do conforto.

E em Recife vários filmes embarcaram nessa viagem. Além dos três citados (Jorge Furtado não entra nessa classificação porque é cineasta experimentado e legou uma obra-prima que é Ilha das Flores), mas muitos filmes exibidos no festival terminavam com um recadinho do bem para o espectador.

No cinema não existe espaço para mensagens. A arte não comporta mensagem de nenhuma natureza. Filme que pretende ensinar alguma coisa deve ser levado para as escolas. Filmes que querem sensibilizar o espectador com recadinhos do bem devem ser exibidos nas igrejas. Cinema é outro departamento.

Foi por isso que o Júri da Crítica escolheu o curta Isso não é o Fim, do baiano João Gabriel, que, sem ser um grande filme, aposta da ousadia da linguagem, busca um tema que incomoda, não aceita o estabelecido e trata de gente com um mínimo de verdade.
 

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01/05/2012 10:26:30
Jorge Mautner  Compartilhar
foto: Divulgação

Musicalmente, Jorge Mautner - O Filho do Holocausto, documentário de Pedro Bial e Heitor D'Alincourt, é uma delícia de se ver. Claro, porque, particularmente, gosto da música do compositor e cantor.

Temos a impressão de estar num show e, na coletiva de imprensa do filme, aqui em Recife, dentro do Cine PE, os diretores confirmaram essa proposta – levando-se em conta que o documentário tem produção do Canal Brasil e montá-lo desta forma dialoga diretamente com o próprio espírito do canal.

Não há problemas nisso. Bial assume ter se inspirado em Shine a Light, de Martin Scorsese, belíssimo documentário sobre os Rolling Stones e permeado por música do começo ao fim.

Certo incômodo, para mim, começa na abertura. Tudo bem que o holocausto está no título e, portanto, a referência é mais que presente. No entanto, a mim fica a impressão de ter visto tantas vezes aquelas imagens que elas me soam reiterativas – além de um depoimento da própria mãe de Pedro Bial falando das atrocidades do nazismo.

Perguntei isso aos diretores. Bial se antecipou para dizer que a repetição significa nunca esquecer tais atrocidades. No que lhe dou razão. Assim como não deveríamos esquecer muitos outros massacres – contra os índios do continente americano, contra os russos não simpáticos a Stalin –, mesmo entendendo que a eliminação de judeus foi perpetrada por questões raciais e, portanto, abominável sob qualquer ponto de vista.

Mesmo assim, entendo que a questão não seja esta, pois, logo de exibir o prólogo, o filme não se fala mais sobre holocausto e caminhamos na direção de abordar a controvertida figura de Jorge Mautner.

Uma mostra fragmentada, diga-se, pois o filme se esquiva de falar das drogas e da bissexualidade do músico. No segundo caso, Bial tem boa justificativa: o fato de que o próprio documentado não se dispôs a falar a respeito.

Também falta ao filme certa transgressão na linguagem, o que acompanharia a própria trajetória do cantor – as imagens de arquivo, como o filme Demiurgo, do próprio Mautner, e de flashes de programas de TV, muitas boas, por sinal, demonstram um pouco tais transgressões.

Porém, o documentário é bem comportado. Chega ao ponto de montar uma sala de estar em estúdio onde o músico e os convidados são ouvidos. Nisto há que se elogiar, pois documentários com muita gente fala sobre fundo neutro existem aos montes. Aqui, não. Bom diferencial – o que demonstra a busca por uma linguagem.

Temos uma sala provida de direção de arte, certa atmosfera de conversa – inclusive com vinhos – a respeito do entrevistado. Talvez Jorge Mautner – O Filho do Holocausto possa ser visto sobre esse prisma: uma conversa sobre e com Mautner na sua maturidade.

Tempo de reflexão, tempo de avaliação. Tempo de medir e pesar o passado – o encontro dele com a filha Amora é o melhor exemplo.

Se visto assim, assisti-lo desperta enorme prazer. Se pensarmos na linguagem cinematográfica, ficamos com uma lacuna, talvez até mesmo uma indefinição nesta mistura de efeitos, propósitos e caminhos escolhidos pelos diretores.
 

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30/04/2012 10:54:06
Paraísos Artificiais  Compartilhar
foto: Divulgação

Não costumo pensar na utilidade ou na importância de um filme por conta de seu tema – alguns, porque são naturalmente relevantes; outros, porque tratam de temas contemporâneos agudos. O assunto não torna um filme melhor ou pior.

Mas julgo oportuno – mesmo que seja pela oportunidade de falar sobre – o tema de Paraísos Artificiais, primeiro longa de ficção dirigido por Marcos Prado (produtor de Tropa de Elite e diretor do documentário Estamira).

O assunto drogas sintéticas e a música eletrônica está aí. Bastava que alguém decidisse tocar nele. E Prado o faz bem. Houve divergência entre os jornalistas que cobrem o 16º Cine PE, em Recife. Gente que gostou, outros que não e os que ficaram em cima do muro – que também é uma posição.

Eu gostei. Tem, de novo, a belíssima fotografia de Lula Carvalho, uma encenação bem-feira, trilha adequada e um roteiro que beira o inverossímil, mas que se sustenta. E os atores, alguns mais outros menos, foram bem preparados. O resultado é bem interessante.

A protagonista é Nathalia Dill (foto), que, faz uma DJ, e tem uma presença impressionante na tela, mas ressalto outros atores, como Luca Bianchi, Lívia de Bueno e, principalmente, Cesar Cardadeiro – um ótimo ator.

Não vou falar muito porque o filme estreia nesta sexta-feira em 240 salas do país. Fiz entrevista com o diretor e com os principais atores e farei meu comentário sobre o filme neste espaço. Mas adianto que, de cara, é um filme sobre jovens e para jovens, fala de música eletrônica, drogas, sexo e rave.
 

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28/04/2012 11:09:09
À Beira do Caminho  Compartilhar
foto: Daniela Nader/Divulgação

Breno Silveira (foto) estava muito emocionado, ontem, durante a coletiva de À Beira do Caminho. Tinha razões. Houve um problema de som na projeção – a primeira do filme – na abertura do 16º Cine PE, em Recife.

Ele ficou bastante irritado. Acha que o público não viu o filme e insistiu para que fôssemos vê-lo de novo – a projeção será hoje às 19h. Apesar dos problemas do som eu ouvi bem e não me parece que o filme mude depois da projeção como deve ser.

Há uma tentativa do diretor em buscar o grande público pela emoção. Mas não precisava tantos excessos para alcançar tal objetivo. A começar da exaustiva música de Roberto Carlos que pontua as sequências.

Não bastante, há a trilha de Berna Ceppas, que se pauta à base de piano e cordas para preencher todos os espaços. Não há intervalo para respirar: a música soa o tempo inteiro.

O melhor está na fotografia de Lula Carvalho. Reproduzo aqui o texto que escrevi para o jornal impresso: a belíssima fotografia consegue sublinhar cada fotograma da paisagem quase sempre inóspita das estradas por onde o caminhoneiro João (João Miguel) cruza o país, saindo do Nordeste rumo ao Sudeste, assim como evidencia os espaços escuros com bela luz e ressalta cada cena, indistintamente. Difícil um filme conseguir tamanha homogeneidade; o resultado é que o trabalho de Lula Carvalho facilmente sobressai do todo.

Acho, sempre, uma pena fazer tantas restrições a um filme que acaba de sair e está em busca do mais importante, que é o público. Portanto, tento falar das coisas positivas – a interpretação de Dira Paes, por exemplo, a seriedade de João Miguel, o esperto garoto Vinícius Nascimento (uma das cenas foi improviso dele) e o trabalho do próprio Breno. Mas, infelizmente, o filme trafega pelo excesso e o previsível o tempo todo.

Outro motivo da emoção do diretor – e sobre o qual ele não quis falar – foi a morte de sua mulher (a quem ele dedica o filme) durante o processo de montagem. Natural, portanto, que um drama pessoal tenha interferido no trabalho do diretor.

O longa chega aos cinemas em 10 de agosto. Torço para que ele encontre seu público. Talvez a música de Roberto Carlos seja um bom chamariz. E melodrama, quando bem executado, é um gênero que tem os dois pés no popular.
 

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26/04/2012 07:52:11
Festival de Recife 2012 *  Compartilhar
foto: Divulgação

Começa hoje e prossegue até 2 de maio o 16º Cine PE – Festival do Audiovisual em Recife. Realizado por Alfredo Bertini e Sandra Bertini, o evento que acontece no Teatro Guararapes, em Olinda, com capacidade para 2,4 mil lugares, fica lotado todas as noites.

Serão exibidos sete longas-metragens na Mostra Competitiva (dois documentário e cinco ficções), além de 18 curtas-metragens. No total, serão 41 filmes (27 curtas e 14 longas) entre as diversas mostras e exibições especiais.

A Mostra Competitiva de longas terá: À Beira do Caminho (RJ, foto), de Breno Silveira; Boca (SP), de Flávio Frederico; Corda Bamba, História de uma Menina Equilibrista (RJ), de Eduardo Goldenstein; Na Quadrada das Águas Perdidas (PE), de Wagner Miranda e Marcos Carvalho; Paraísos Artificiais, de Marcos Prado; Estradeiros (PE), de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro e Jorge Mautner – O Filho do Holocausto (RJ), de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt.

Fora de competição, serão exibidos sete longas-metragens, entre eles, o documentário inédito Sons da Esperança no encerramento do festival. Dirigido por Zelito Viana, o filme documenta a preparação do concerto de comemoração do aniversário da Orquestra Criança Cidadã do Coque, no Teatro Luiz Mendonça, em Recife.

Além deste, serão mostrados Xica da Silva, de Cacá Diegues; O Beijo no Asfalto, de Bruno Barreto; e Xingu, de Cao Hambúrguer. As exibições fazem parte das homenagens que serão prestadas a Cacá Diegues, Ney Latorraca (ator em O Beijo no Asfalto) e Fernando Meirelles (produtor de Xingu).

O Cine PE oferece o Troféu Calunga (que representa a boneca carregada pela sacerdotisa dos cultos afro-brasileiros durante a apresentação do maracatu) em doze categorias: filme, direção, roteiro, fotografia, montagem, edição de som, trilha sonora, direção de arte, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, atriz e ator. Os curtas ganham o troféu em dez: filme, direção, roteiro, fotografia, montagem, edição de som, trilha sonora, direção de arte, ator e atriz.

Há outros prêmios paralelos como o Aquisição do Canal Brasil (R$ 15 mil, melhor curta), Link Digital (prêmio em serviços para longa e curta) e Josué de Castro (troféu para curta-metragem na categoria documentário social).

O festival se completa com os seminários Economia da Cultura e Políticas Culturais Segmentadas, Os Modelos de Distribuição e Exibição: Aspectos Econômicos e Jurídicos e A Importância dos Direitos Autorais na Economia da Cultura e na Produção Audiovisual; além de oficinas de roteiro, trilha sonora e direção.

Vou estar a partir de hoje em Recife e acompanhar o festival no blog e no jornal impresso. Também sou um dos nove jurados da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), que concederá o Prêmio da Crítica ao melhor longa e melhor curta.

* O jornalista viajou a convite do festival. Matéria publicada hoje no Correio Popular de Campinas.
 

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25/04/2012 14:55:35
O início, o fim e o meio  Compartilhar
foto: Divulgação

Sou, em geral, bastante impressionável. Portanto, nem me incomodou tanto o fato de sentir um arrepio quando na entrevista de Paulo Coelho para o documentário Raul Seixas – O Início, o Fim e o Meio, de Walter Carvalho, aparecer uma mosca. Ou melhor, para ser exato: uma mosca pousou no rosto do escritor e letrista. E mago.

E o mais impressionante, ele comenta: não é comum ter moscas em Genebra, onde ele mora. E detectou, ao seu estilo e crença, que era o próprio Raul que estava ali. E disse: “Não vou matá-la”. Mas a impertinência foi tanto que não houve jeito.

A cena é marcante neste documentário que chega a ser longo e, algum momento, até glorificador da pessoa objeto da história e análise – termina, por exemplo, com uma fala grandiosa e banal (ao mesmo tempo) de Caetano Veloso. Ele disse o que seria o mais óbvio e nem precisava, pois a manifestação do povo em torno do caixão de Raul é muito mais eloquente do quanto ele ainda está vivo.

Chama-me a atenção uma vez mais outra cena com Paulo Coelho na qual ele (logo na abertura da entrevista) diz que há histórias e lendas e que Raul é uma lenda. Claro que é. Todo artista, visto a partir de sua obra em discos, no palco, na TV, na imprensa, é lendário pela própria natureza. O homem, que nos bastidores, amigos, companheiros, fãs etc, tentam reaver é, citando outra vez Coelho, o modo que cada um vê o artista/homem.

Portanto, o que temos no documentário, por mais que este tente se aproximar da verdade, é uma lenda. Até entendo um pouco a postura fria de Coelho ao dizer que não se arrepende de ter apresentado todas as drogas a Raul – que ele era adulto e topou porque quis.

Ou quando revela o quanto eram competitivos. E, a partir dessa observação, fica fácil criar paralelos entre a vida de um e de outro: Coelho, milionário coberto de glórias internacionais; Raul, morto há mais de 20 anos vitimado por drogas (álcool em especial) e quase no ostracismo – não fosse Marcelo Nova trazê-lo de volta (e assim mesmo, ser criticado).

Bem, estou falando demais de outros temas e menos do filme. Vamos a ele. Gostei da abordagem do diretor, de ouvir tanta gente, de recuperar inúmeras imagens de arquivo, incluindo a voz de Raul ainda adolescente, das muitas vozes (dissonantes entre si) que enriquecem a visão do espectador.

Chamo a atenção em particular os paralelos que o filme traça: o cover de Raul e sua moto – e o filme Sem Destino (Dennis Hopper, 1969). Raul e seu topete e dança ao molde de Elvis Presley – na junção com Luiz Gonzaga. A música Let me Sing é seu melhor retrato, mas não só.

E há as imagens que se contrapõem a experiências remotas, como o amigo cantando uma música de Elvis e fazendo seus gestos, além do próprio filme de Elvis projetado na parede de um prédio. São imagens fortes, atraentes e comoventes de um diretor que soube extrapolar a simples narrativa de fatos a partir de depoimentos (muitas vezes, por melhores que sejam, podem acabar chatos).

É curioso falar assim de um filme de Raul Seixas de quem nunca fui fã. Mais: mesmo sabendo da importância da obra dele, sempre o achei brega. Raul faz melodias populares no sentido lato da expressão: qualquer um canta, são melodias simples, algumas simplórias e toca em temas místicos igualmente populares – ninguém sabe direito seus significados, mas crêem.

Claro, concordo com Caetano Veloso que Ouro de Tolo é uma obra-prima da música brasileira. Cantei desesperadamente essa música ouvindo-a um radinho de pilha, que cabia nas mãos, trancado num quarto de seminário, em 1973. E aquilo me soava estranho e hipnótico, pois na minha cabeça seminário e Ouro de Tolo pertenciam a mundos distintos e inseparáveis, eram azeite e água, não se misturavam.

Incapaz de compreender, eu cantava meio que num ato libertário que só muito mais tarde fui ter o devido alcance. Mesmo assim, vendo o filme noto como a música dele passou e continua a não me falar nada. E, ainda assim, o filme me pegou – o que demonstra a força dele e de seu criador.

Ou será que eu fiquei impressionado demais com a mosca pousando sobre Paulo Coelho?
 

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23/04/2012 14:32:51
O Príncipe do Deserto  Compartilhar
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Minha primeira lembrança no início de O Príncipe do Deserto, de Jean-Jacques Annaud, (O Nome da Rosa, 1986), foi Lawrence da Arábia, o clássico épico de David Lean (1962), com seus grandes planos, as imagens do deserto, o mundo exótico dos árabes, as belas imagens. Porém, as comparações param por aqui porque o filme de Lean está entre os títulos mais elogiados na história do cinema. Eu o cito apenas como referência inicial.

E há um quê de Sangue Negro (Paul Thomas Anderson, 2007), mesmo o contexto sendo outro, porque o título original é Black Gold e fala de petróleo. E, neste caso, as comparações também ficam por aqui. Como se vê, o filme de Annaud se serve de muitas referências – o que fala muito dele.

Depois, o que fica mesmo, é a impressão de um filme meio fora de moda – ainda que moda seja tão circunstancial e pode-se estar fora dela e ser elegante e, no caso do filme, ser relevante.

E nem é tanto pela questão em si – Sangue Negro é um ótimo filme que remete aos primórdios do petróleo nos Estados Unidos, assim como Lawrence da Arábia segue sendo referencial em muitos sentidos –, mas pelo modo de mostrar os árabes, com um ranço que está mais para telenovela.

Bem, fico sabendo que esta é uma obra de ficção adaptada do livro do suíço Hans Reusch (South of the Heart, 1957). A época da escrita também diz muito sobre o próprio filme e esse tom meio fora de lugar – mesmo levando em conta obras grandiosas que são eternas. Cito, en passant, Morte em Veneza (Thomas Mann) que acabo de reler.

No filme nada parece muito crível. Tudo é bonito, diga-se, dos cenários à maneira de filmar, chegando aos atores centrais: a bela indiana Freida Pinto e o bonito e ótimo ator francês de origem argelina Tahar Rahim (foto), revelado em O Profeta (Jacques Audiard, 2009).

Bom, relendo o post, para continuar, tenho a impressão de que estou falando de tudo na periferia do filme (com todas as referências e citações) e não chego nele. Isto também diz bastante sobre O Príncipe do Deserto.

Retomando. A beleza se esvai nos clichês, como se voltássemos no tempo e ainda nos sentíssemos atraídos pelo exótico das arábias num mundo globalizado e interconectado pela internet e que joga por terra qualquer ideia romântica.

E é estranho pensar no protagonista Auda (Tahar Rahim), voltado para as letras, que acaba nomeado bibliotecário, só cuida de livros, mas se transforma num estrategista de guerra. É possível pensar nele como alguém que aprendeu nos livros, mas uma fala do próprio personagem o trai: na única vez em que pegou em arma quase quebrou os ombros.

Porém, de repente, ele empunha armas como os melhores atiradores e tem estratégias de guerra inimagináveis, se torna líder involuntário, agrega inimigos tradicionais e constrói um reino renovado.

O roteiro bem que podia ser menos óbvio e simplista e nos fazer crer que os livros trouxeram tanta sabedoria e que um rápido treinamento de emergência o deixasse em condições de lutar. Mas, não, ele vira logo um expert. Do nada.

Há outras saídas assim. Ele se livra da morte, em dado momento, porque o sujeito (este, sim, profissional do deserto) erra o tiro. Ora, poderia ser uma saída menos preguiçosa para resolver o destino do rapaz – e o tiro ainda acerta alguém intransigente que precisaria mesmo ser descartado.

O Paraíso do Deserto vive desses momentos pouco inspirados, enquanto roteiro e concepção, e se sobressai, especialmente na tela grande, por causa dos encantos cenográficos e fotográficos – além da citada beleza dos atores protagonistas. E muito pouco.
 

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20/04/2012 11:19:30
Hbemus Papam *  Compartilhar
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A ironia pode ser instrumento de ofensa, mas nenhum católico se sentirá ofendido com Habemus Papam (Habemus Papam, Itália, 2011), do italiano Nanni Moretti. Ao contrário, o filme faz um exercício satírico permeado de comentários graciosos em relação a um tema sisudo: fiéis aguardam na Praça São Pedro, Vaticano, a aparição do novo papa (o ótimo Michel Piccoli), mas, antes de surgir na varanda para saudar o público, ele sofre ataque de pânico e desiste do cargo.

A situação inimaginável serve de suporte para o diretor e roteirista (junto com Francesco Piccolo e Federica Pontremoli) tocar em temas religiosos, filosóficos, políticos e comportamentais. Diante do caos estabelecido, os conselheiros decidem trazer um psicanalista, que é ateu (o próprio diretor), a fim de demover o papa de sua decisão.

Acertadamente, o roteiro parte do particular (a crise do papa) para entender o geral (a Igreja Católica). Porém, a solução dada ao drama contempla apenas o universo do papa, uma vez que o poderoso sistema católico romano segue intacto. Não que um filme conseguisse solucionar uma questão do tamanho do Vaticano, mas como estamos no terreno da comédia e como o mote inicial é absurdo bem que poderia haver uma proposição igualmente absurda como saída para a dogmática igreja.

Afora isso, o tratamento dado por Moretti ao drama pessoal com respingos na intimidade da igreja, por mais engraçado que possa ser, tem o mérito de extrapolar o humor e ficar sério. Para o papa em crise não há graça alguma, pois ele vai parar em divã de analista, apesar de dispor de deliciosa liberdade para circular por Roma como desconhecido enquanto os fiéis e a imprensa o aguardam num compasso de espera angustiante.

Da parte da igreja também há angústias. Os cardeais reunidos não podem deixar o Vaticano e a convivência forçada os faz viver uma experiência notável: um jogo de vôlei proposto pelo psicanalista, que tampouco pode se ausentar. O processo lúdico – a que os cardeais nunca se permitem – adensa a competição política (entre as regiões) e pessoal de modo que, na brincadeira, o psicanalista escancara as várias faces dos sisudos religiosos.

A outra apreensão está com o porta-voz do papa. A fim de tranquilizar a população e os cardeais ele simula a volta do pontífice numa bem engendrada encenação na qual um guarda faz o papel de papa escondido atrás das cortinas do aposento dele. A “interpretação” do suposto papa circulando entre as sombras do quarto e balançando as cortinas é reveladora.

E quando ele decide ouvir Mercedes Sosa cantar Todo Cambia, do chileno Julio Numhauser (“muda o superficial/o profundo/o modo de pensar/tudo muda”), Nanni Moretti mostra como é possível fazer cinema, dizer muito com poucas imagens e uma ideia brilhante e, ainda por cima, discursar sem ser panfletário.

A propósito, a encenação é o tema do filme. Na abertura, no enterro do papa, forma-se um pomposo processual que está para muito além do rito religioso. Trata-se do essencial do teatro ritualístico. Depois, para esconder sua procedência, o papa se identifica como ator.

Tem mais: as sombras do papa na cortina (num jogo de luz e sombras), a própria cortina, o envolvimento do papa com grupo que encena O Jardim das Cerejeiras, de Tchecov, além da sequência em um teatro, tudo remete à encenação. Some-se a partida de vôlei (ritual de representação) ou a descoberta, pelo psicanalista, de um cardeal que toma remédio contra a depressão (finge uma serenidade que não possui).

O diretor trabalha com uma riqueza de conteúdos expressos nos grandes acontecimentos (a crise do papa), mas também nos detalhes (o papa falso fingindo ser verdadeiro). E, aqui, cabe mais uma observação: falso e verdadeiro (o ator é fingidor, faz o papel de outrem) se digladiam o tempo todo no filme.

E nós, espectadores, acreditamos no que nos é apresentado. Afinal, não choramos diante de uma encenação mesmo sabendo que se trata de encenação? Em Habemus Papam, Moretti encena a vida em tom de farsa e nos convence da realidade dela.

* Texto publicado na edição de hoje do Correio Popular de Campinas

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14/04/2012 11:51:09
Abraccine e o festival de Paulínia  Compartilhar
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Carta aberta da Abraccine ao Sr. Prefeito de Paulínia, José Pavan Jr.

A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) recebe com muito pesar o comunicado de que o Festival de Cinema de Paulínia não será realizado este ano.
A nota do prefeito José Pavan Jr. afirma que a alocação de recursos destinados ao festival em outras prioridades (saúde, educação, moradias populares) tornou a decisão inevitável.

Como cidadãos, entendemos a construção de moradias populares, e o investimento em educação, saúde e meio ambiente deveriam mesmo ser prioridades constantes de qualquer municipalidade, e não apenas em anos eleitorais.

Já como profissionais de cinema, lamentamos a descontinuidade de um projeto muito bem formatado e de grande repercussão nacional.

Em poucos anos, Paulínia criou um Polo Cinematográfico, uma Escola de Cinema e um festival que se tornaram exemplares. O festival, ora em compasso de espera, era justamente a vitrine de toda essa atividade. Reunia em Paulínia produtores, cineastas, atores e atrizes, jornalistas e críticos de todo o País. Formava público para os filmes brasileiros. Criava empregos na cidade e beneficiava a autoestima dos seus habitantes.

Muitos novos projetos surgiram desses encontros anuais entre profissionais de diversos estados da federação. Foi dessas reuniões, por exemplo, que nasceu a nossa própria instituição, a primeira associação nacional de críticos de cinema, o que faz com que tenhamos carinho especial com Paulínia.

Todo esse patrimônio simbólico corre o risco de se perder, ao sabor de conveniências políticas de momento. Esperemos que a fresta de esperança aberta no comunicado do prefeito resulte na realização do festival em 2013. Mas ressaltamos, desde já, que é perda irreparável o cancelamento da edição de 2012. Eventos importantes firmam sua tradição pela continuidade.

Assinado. Luiz Zanin Oricchio (presidente da Abraccine)
 

 

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12/04/2012 21:48:51
Festival de Recife  Compartilhar
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A organização do Festival de Cinema de Recife – Cine PE lançou ontem à noite na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, a edição de número 16 do evento que acontecerá na capital pernambucana de 26 de abril a 2 de maio. Os diretores do festival, Alberto e Sandra Bertini, aproveitaram a noite para lançar o livro O Maracanã dos Festivais, que conta a história de 15 anos do evento.

Os sete filmes selecionados na competição oficial de longas-metragens são: os documentários Jorge Mautner – O Filho do Holocausto (foto, de Pedro Bial e Heitor D'Alincourt) e Estradeiros (dos pernambucanos Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira), e os de ficção Paraísos Artificiais (Marcos Prado), Na Quadrada Das Águas Perdidas (Wagner Miranda e Marcos Carvalho), À Beira do Caminho (Breno Silveira), Corda-bamba, História de uma Menina Equilibrista (Eduardo Goldenstein) e Boca (Flávio Frederico).

São quatro filmes do Rio, dois de Pernambuco (o outro é Na Quadrada das Águas Perdidas, que tem um único ator em cena, Matheus Nachtergaele) e um de São Paulo – o longa Boca. À Beira do Caminho, apesar de representar o Rio teve parte rodada em Pernambuco e em Paulínia – o longa é protagonizado por João Miguel e Dira Paes. Paraísos Artificiais é o primeiro longa de Marcos Prado, diretor do premiado Estamira. O filme trata de rave e drogas sintéticas e tem Nathalia Dill como protagonista.

Os homenageados do ano serão os diretores Cacá Diegues, que exibirá cópia restaurada de Xica da Silva (1976); Fernando Meirelles, que mostra sua mais recente produção, Xingu (dirigida por Cao Hamburger), e Ney Latorraca, de quem será exibido Beijo no Asfalto (Bruno Barreto, 1981).

Além dos longas, haverá competição dos curtas-metragens num total de 18 filmes. No encerramento, fora de competição, está programado o documentário Sons da Esperança, de Zelito Viana, sobre uma orquestra pernambucana formada por crianças e adolescentes carentes.

O título do livro sobre a história do Cine PE – O Maracanã dos Festivais refere-se a uma característica marcante deste que é um dos principais eventos de cinema no País: o local onde se realiza, Teatro Guararapes – Centro de Convenções em Olinda, comporta cerca de 3 mil pessoas. Nenhum outro festival brasileiro tem tamanho público.

A Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) já definiu os jornalistas que selecionarão o melhor filme do Cine PE que receberá o Prêmio da Crítica. São eles:  Ernesto Barros (PE), Alexandre Figueroa (PE), João Carlos Sampaio (BA), Paulo Henrique Silva (MG), Roger Lerina (RS), Carlos Heli de Almeida (RJ), Neusa Barbosa (SP) e Rodrigo Fonseca (RJ). E eu terei a honra de estar ao lado destes colegas também participando como jurado da Abraccine.
 

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11/04/2012 15:02:37
Amores Imaginários  Compartilhar
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Não, Xavier Dolan não é gênio, como supostamente nos fez prever, pois, aos 16 escreveu o roteiro de Eu Matei Minha Mãe (2009) e passou a ser incensado como tal. Não, Xavier Dolan não é genial ainda que Eu Matei Minha Mãe seja um filme bem bacana. Todos os problemas dele explicam-se pela natural imaturidade do realizador.

Com Amores Imaginários, um pouco da ficha caiu. Ele é o mesmo diretor, roteirista e ator mimado, dado a chiliques, por demais preocupado com o invólucro, como as roupas e o cabelinho da moda, com parecer um rapaz antenado com o mundinho gay, histérico, cheio de não me toques, e dado a autocomiseração.

No entanto, a vingança do personagem (ou seria de Dolan?) é implacável. E não deixa por menos no desfecho do filme. Aliás, bastante infantil, típico de meninos mimados. Pensando bem, as imaturidades de Dolan e do personagem (que é o mesmo do primeiro filme) continuam.

E tem uns monólogos em que ele usa um maneirismo de câmera totalmente dispensável: aproxima-se e afasta-se em curtos movimentos. O máximo que consegue (pois não tem serventia alguma) é irritar. E os monólogos tampouco contribuem para alguma coisa.

Entretanto, o garoto tem um repertório muito bom, seja na música, seja nas citações, como a mostrar que não é tão infantil assim. Ainda não sabe direito onde colocar tantas informações, mas tem o mérito de acumulá-las e se utilizar delas em um mundo em que os jovens estão pouco interessados com o passado, como se a vida só acontecesse neste exato segundo.

E, afora os tais monólogos deslocados, a narrativa de um triângulo amoroso platônico é muito bem conduzida. Os amigos Francis (Dolan) e Marie (Monia Chokri) se apaixonam pelo mesmo homem, o belo Nicolas (Niels Schneider).

Há um tanto do carteiro Ângelo de Teorema, de Pasolini, em Nicholas. Lindo, louro, olhos verdes, cabelos encaracolados, lábios sedutores, inteligente, dado a poesia, rico, amável, sedutor, simpático. Caramba! Existe alguém assim? Bem, só pode ser um anjo.

Pois bem, a paixão que ele desperta nos amigos é devastadora. E Nicholas os trata feito namorados, a começar do fato de que dormem na mesma cama. O anjo fica no meio atendendo aos dois anseios.

Aqui se revela o talento do diretor e ator. Ele trata a relação com delicadeza (às vezes é infantil – de novo – na abordagem, mas, tudo bem, tinha 20 anos quando realizou o filme) e se aprofunda nos medos, inseguranças, desejos e emoções diversas.

E narra com imagens – isto é cinema, afinal –; a cena da masturbação, cabeça coberta com roupas de Nicholas para sentir o cheiro dele é reveladora. E erótica. Diz tudo sem nenhuma palavra. Até aquele momento, mesmo conhecendo o que ocorre, não sabemos quais são os reais desejos de Francis.

Falando nisso, as várias cenas de sexo (sem Nicholas) exalam erotismo, devidamente emoldurada pelas Suítes para Violoncelo de Bach. Uma delas, claro, é a de número 1 cujo prelúdio começa a ficar batido no cinema de tanto que os cineastas a usam. É lindo mesmo, mas de tanto uso começa a perder o efeito.

Amores Imaginários está mais para um exercício cinematográfico de um garoto talentoso. Se ele continuar a estudar, a pesquisar e, se possível, sair um pouco de si mesmo (quem sabe não atuar ou filmar roteiros alheios) pode ser um grande cineasta. Por ora, seu trabalho é um exercício. Bom, diga-se. Nada mal para um garoto, agora, de 22 anos.
 

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05/04/2012 12:32:57
Protegendo o Inimigo  Compartilhar
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Não gosto de filmes de ação. Como me incomodam os musicais. E como faço para escrever críticas sobre produções desses gêneros? Este foi o questionamento de um rapaz feito a mim – ele é fã do gênero ação. Simples, ou melhor, não tão simples assim.

Eu não escrevo necessariamente sobre o que gosto, mas sobre a qualidade (ou ausência dela) de um filme. Pelo menos em tese, este é o meu trabalho. Posso errar – e erro –, mas busco o acerto. Sempre. Do contrário não gostaria de Cantando na Chuva (Stanley Donen, 1952) – ora, veja – um clássico irrepreensível.

Fui assistir a Protegendo o Inimigo, de Alexander Witt, sobre o qual li boas resenhas. E fui sem a preocupação de escrever. Portanto, estava relaxado. Se fosse bom, me divertisse ou passasse um bom tempo vendo uma produção que não me atrai por princípio, estaria satisfeito. Além disso, a profissão me obriga a ver de tudo. Portanto, sem dramas entrei na sala para ver o trabalho de Denzel Washington, de quem gosto, e de Ryan Reynolds.

Bem, me incomoda o excesso de fugas, correrias, explosões e, principalmente, de que os sujeitos dêem e levem tanta porrada e continuem apenas com um risquinho de sangue no rosto. Se eu levasse um soco daqueles, entraria em coma por seis meses e estaria incapacitado para sempre, aposentado pelo INSS por invalidez.

Ok, entendo: não há falas em musicais (as pessoas cantam), há descompasso inicial entre casais das comédias românticas, mas eles vão se acertar. Nos filmes de ação, os caras são sempre durões e sabem bater, são capazes de dar um nó no pescoço do outro e acabar com o sujeito. São capazes de pular nos telhados de favelas – alguns deles caem, mas saem lépidos e fagueiros.

Também me cansam um pouco os velhos chichês; neste caso, Denzel vive um agente honesto em meio a tantos corruptos. E ele, tratado como inimigo, ficará amiguinho do novato vivido por Ryan, também honesto e íntegro.

Bem, estão traçadas todas as linhas e veremos Tobin Frost (Denzel) fugir o filme inteiro, bater em todo mundo e se safar. Até a célebre cena em um estádio (neste caso, de futebol, pois estamos na África do Sul) vai aparecer – como vi em tantos filmes do gênero.

Bem, feitas as contas, gosto muito da atuação de Denzel Washington, da belíssima fotografia (vejam a foto), da edição, de como a história (mesmo previsível) prende a atenção. Em suma, não doeu.

É mais interessante, por exemplo, do que ultra inverossímil Missão Impossível 3, que foi elogiadíssimo por parte da crítica, mas aquilo tudo é tão implausível que não me convence nem me comove.

Não entra na minha cabeça um sujeito (que não seja Homem-Aranha ou Superman) subir 134 andares só com uma mão e quebrar o vidro da janela de um prédio desses com os pés (e seguro só por uma mão). Sorry, não me peçam para dizer que é só um filme.

Protegendo o Inimigo tampouco me comove – não consigo ver sujeitos pulando casas de favela como se fosem adagas voadoras – mas há uma história convincente: o mocinho honesto desbarata um bando de corruptos. Por mais que, na prática, os corruptos prevaleçam, filmes do gênero trabalham com a possibilidade de a ética superar a canalhice.

E, no fundo, é o que todos nós esperamos e gostamos: ver o bem superar o mal. É utópico (eu sei) e ingênuo (também sei), mas não entrei no cinema desprotegido das minhas convicções analíticas apenas para ver um filme? Ok, visto assim, Protegendo o Inimigo, ou Safe House, está de muito bom tamanho.
 

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02/04/2012 12:23:51
Albert Nobbs  Compartilhar
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Eu sempre me impressiono com os atores britânicos. Pode ser um filme de entretenimento, pode ser uma grande drama ou comédia, pode ser só uma ponta num filme qualquer que eles aparecem e arrasam.

De cara, em Albert Nobbs, de Rodrigo García, cito um dos garçons que trabalham no hotel onde acontece a trama. Acho que é Mark Williams (pesquisei, mas não consegui confirmar). É um papel pequeno, ele mal fala e, no entanto, cada gesto ou olhar dele tem peso dramático.

Estou citando Mark Williams, mas poderia enumerar um por um. A ótima Janet McTeer, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante. Ou de Aaron Johnson, com sua beleza selvagem vivendo um canalha de modo tão convincente. Ou Pauline Collins, que parece ter nascida dona de um hotel.

Bem, tenho de admitir que a bela e talentosa Mia Wasikowska também me seduziu, como sempre, mas ela é australiana. Com uma simples piscadela, logo na primeira aparição e, pronto, seu excepcional cartão de visitas está à mostra.

E, claro, Glenn Close (foto), que é americana, mas atua como se fosse britânica. Silenciosa, olhos, expressões do rosto, dos lábios, gestos mínimos, tudo carrega um sentido, tudo tem uma carga de dramaticidade. A cena do baile de máscaras é brilhante. Ela apenas observa impassível, mas seu olhar a trai, pois está cheio de desejos, há uma pulsão em cada um dos pequenos movimentos. Um grande momento do filme e do cinema.

E quando coloca um vestido, está desconfortável como um homem se sentiria incômodo. E aquele olhar enigmático, perscrutador, observador profundo. Que atuação de Glenn Close. Merecidamente indicada ao Oscar. E poderia ter ganho.

E a história do filme me deixou desolado tamanha a tristeza que a personagem do título carrega dentro dela (e). E suas tentativas, todas vãs, seu empenho por buscar um mínimo de conforto – nem estou falando em felicidade – de modo tão contumaz em um mundo austero no qual ela vive no século 19.

E seus pequenos sonhos: uma tabacaria que levaria o nome dela, a porta onde entraria sua mulher devidamente escondida, e esforço para viabilizá-lo, contando cada centavo. Fiquei curioso para ler o conto do romancista irlandês George Moore no qual o filme se baseou.

Albert Nobbs é um bom filme pela maneira como se constrói, marcado pelos detalhes, todos ricos. Não há sobras e tudo é contido, pois o personagem dita o ritmo, uma vez que contenção marca cada ação de Nobbs.

E, apesar de tocer pelo destino dele, gostei da maneira como o roteiro me surpreende. Há decepção, de início, com o desfecho, mas adoro ser surpreendido – eu que vivo criticando a mesmice dos roteiros banais.
 

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30/03/2012 10:21:34
Heleno  Compartilhar
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É improvável (uma pena) que Heleno, de José Henrique Fonseca, alcance uma bilheteria digna da dimensão de seu biografado e das qualidades do filme. Futebol e cinema nunca se deram muito bem, apesar de a trama, de fato (como quer o diretor), partir do esporte para tratar de um personagem em particular, com dramas que poderiam se encaixar em qualquer profissão – o que lhe tiraria a pecha de filme de futebol.

Porém, Fonseca radicaliza ao optar pelo preto-e-branco, belíssimo, diga-se, ressaltado de modo magnífico na fotografia de Walter Carvalho. Ao escolher tal cor (ou a falta dela) e ao posicionar sua câmera no sentido de valorizar as imagens, o diretor assume um caminho mais árduo na tarefa de captar a atenção do espectador comum acostumado a navegar por regiões narrativas mais confortáveis.

Afora tais obstáculos, Heleno ganha ao investir na linguagem poética e alcança alguns momentos de raro brilho. Não só pela cor, mas pelo olhar do cineasta. As cenas do jogo, por exemplo, são menos futebol jogado e mais lampejos de atletas em movimento que criam um balé de belíssimas imagens. Uma jogada é menos uma jogada e mais um toque genial a serviço da imagem impactante.

Mas o filme não se sustenta apenas do belo, pois tem em Rodrigo Santoro (foto) o protagonista perfeito, seja pela semelhança buscada no craque, seja porque ele faz enorme esforço para perpetuar um personagem que caiba em lugar de destaque na sua galeria de interpretações. E consegue.

Heleno, desde já, é uma de suas melhores interpretações. Há não apenas entrega ao personagem, mas coragem em parecer feio e debilitado, e afinco em valorizar cada cena e tirar o máximo dela. E quando tudo parece ter sido feito, ele ainda surpreende com um olhar, um gesto, uma intenção.

O roteiro, escrito pelo próprio diretor e por Felipe Bragança e Fernando Castets, faz bem em evitar o excesso de lances de futebol e dos bastidores do esporte para se concentrar na figura controvertida do jogador conhecido pelo talento futebolístico, mas também pela arrogância. Assim, aborda com ênfase suas conquistas amorosas; afinal, ele era um homem bonito, letrado (ao contrário, ainda, dos atletas em geral, mesmo depois de tantas décadas) e conquistador.

O romance com a futura mulher (Alinne Moraes) e a amante (a colombiana Angie Cepeda) simultaneamente dá um toque ficcional à realidade e também cai bem à história. Mas o que determina a força do filme é a trajetória trágica do personagem: talentoso, bem de vida, bonito e amado pela torcida do Botafogo do Rio, ele põe tudo a perder vitimado (e recusando-se a tratar) pela sífilis.

E José Henrique Fonseca usa a poética do filme para acentuar o trágico. Um recorte no rosto de Rodrigo Santoro, que gera uma foto linda, também revela o peso do drama do personagem. A câmera acompanhando o ziguezague de um carro por uma estrada deserta, mesmo numa situação agradável, serve de metáfora ao caminho tortuoso do personagem. A despedida do craque do Maracanã busca o onírico, em vez da realidade crua, assim como o triste final se ancora na simbologia da carreira brilhante em lugar da narrativa realista da decadência.

Estimulado pelo preto-e-branco, o diretor buscou, portanto, fugir da biografia realista, pois, de algum modo, conhecemos a história. E, ao optar por ir um tanto além dos fatos, ele criou imagens que são significativos símbolos para dizer não exatamente quem foi Heleno, mas que evocação nós podemos ter dele.

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26/03/2012 21:20:31
Jogos Vorazes  Compartilhar
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Há claramente um conteúdo jovem em Jogos Vorazes, de Gary Ross, tentando conquistar essa imensa faixa de público disposta a ir ao cinema. Mas nem precisava tanto apelo juvenil, pois a história e, principalmente sua poderosa premissa (um reality mortal; de 22 jovens selecionados, 21 morrerão), são suficientes para sustentar o filme. Claro, há outros elementos, mas o mote inicial é fatia importantíssima.

Os adultos, acomodados no poder, mandam e desfrutam de comidas e bebidas e do poder, claro. Porém, dá pena vê-los divertindo-se com a morte, como se não fossem morrer, enquanto o espírito vital da aventura está mesmo com os jovens.

Eles são os corajosos, disputam os tais jogos com destemor (apesar do humano e natural medo), os que amam, os que defendem, atacam, enfim, lutam pela sobrevivência, mas têm uma causa, estão em busca de algo, mesmo que seja o último ato a ser feito. Os adultos são entediados e entediantes.

E apesar de ser um desses filmes de aventura e entretenimento, a direção de Gary Ross é ousada. Insiste na câmera da mão e evita o efeito especial fácil. Aposta na tensão criada pelo bom roteiro e surpreende sempre – até mesmo no, então, previsível desfecho.

Quando o roteiro faz uma daquelas viradas clássicas, mas manjada, pensamos: tudo muito comum. E, de repente, outra virada, mais criativa e que muda nossas expectativas. Não é pouco em se tratamento de um típico produto que não pretende muito mais que a simples diversão – ainda que tal diversão seja feita à custa de morte.

A história de Suzanne Collins tem várias referências, pois sua base é o, hoje, onipresente reality show. Sem esquecer a igualmente onipresente televisão. É um show de TV, diz lá pelas tantas o apresentador – o ótimo Stanley Tucci.

Se quisermos, podemos relacioná-la aos livros de Aldous Huxley (1984, Admirável Mundo Novo) ou ao Show de Truman (Peter Weir, 1988) ou aos famosos filmes de cristãos na arena, que nada mais eram do que um grande espetáculo público para ser deleitado com prazer.

Em Jogos Vorazes, desde o primeiro momento sabemos que a heroína Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) será a vencedora e, no entanto, as boas reviravoltas garantem a atenção o tempo todo.

E mesmo o inevitável romance acontece de modo inesperado e com algumas boas cenas de humor. Uma boa mistura, portanto: aventura, romance e um tanto de ficção científica, pois a história se passa num futuro não definido.

Se pensarmos nos produtos para jovens, no geral, temos um nivelamento por baixo na tentativa de alcançar a maior plateia possível – com raras exceções, como a série Harry Potter, por exemplo. Jogos Vorazes supera essa tentação e se revela um trabalho consistente e agradável de ser visto.
 

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21/03/2012 12:01:00
Festival de documentários  Compartilhar
foto: Eduardo Martino/Divulgação

Infelizmente não poderei participar do 17º Festival Internacional É Tudo Verdade, que começa amanhã em São Paulo. Ele é considerado o principal evento do gênero e exibirá na abertura o filme Tropicália (foto), de Marcelo Machado, na abertura para convidados, no CineSesc, às 21h.

O festival prossegue até 1º de abril em diversos espaços da capital: CineSesc, Centro Cultural Banco do Brasil, Museu da Imagem e do Som e Cinemaateca – Sala BNDES. A entrada é franca, sujeito à lotação das salas.

Na competição internacional de longas e médias concorrem doze filmes de diversos países, entre eles, França, Coréia do Sul, China, Suécia e Chile. Na nacional, serão sete longas: Coração do Brasil (Daniel Solá Santiago), Cuíca de Santo Amaro (Joel de Almeida e Josias Pires), Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília (Andrea Prates e Cleisson Vidal), Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz (Joel Pizzini), Os Irmãos Roberto (Ivana Mendes e Tiago Akalian), Paralelo 10 (Silvio Da-Rin) e Toliori – Dobras do Tempo (Paulo Pastorelo).

Entre outros prêmios, o festival entregará R$ 15 mil ao melhor documentário de longa ou média internacional (júri oficial). Para o nacional, o prêmio é de R$ 110 mil, dado pela CPFL Energia e denominado Janela para o Contemporâneo.

Haverá ainda diversas programações especiais, debates e mostras paralelas. Dentro destas, na chamada O Estado das Coisas, participa o filme campineiro Cartas para Angola, de Coraci Ruiz e Júlio Matos – no sábado, publicarei reportagem sobre o filme no Correio Popular.

Tropicália, com previsão de estreia nos cinemas ainda neste primeiro semestre, fala de um dos maiores movimentos artísticos do Brasil. Numa época em que a liberdade de expressão perdia força, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Arnaldo Baptista, Rita Lee, Tom Zé, entre outros, misturaram velhas tradições populares a novidades artísticas ocorridas pelo mundo e criaram o Tropicalismo. Com depoimentos, raras imagens de arquivo e muita música da época, Tropicália procura dar um panorama sobre esse movimento.
 

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16/03/2012 18:34:54
Shame  Compartilhar
foto: Divulgação

Shame, do britânico Steve McQueen, caminha muito bem até mais da metade. Narra uma história com imagens e poucos diálogos (coisa rara ultimamente) e as cenas (todas muito bem-feitas) vão aos poucos compondo painel de um sujeito chamado Bradon (Michael Fassbender, foto), que tem compulsão pelo sexo.

E, se as cenas têm importância vital para a narrativa, os acontecimentos são corriqueiros. Brandon transa com uma prostituta, se masturba, visita sites pornôs, trabalha (mas nunca sabemos qual é sua profissão), vai a bares, paqueras garotas. Enfim, nada demais. São sequências que compõem o personagem aos olhos do espectador.

Curioso: o roteiro do próprio de diretor (com Abi Morgan) não se preocupa em contar o passado dos personagens. Brandon diz, em algum momento, que nasceu na Irlanda. A irmã Sissy (Carey Mulligan) afirma que veio de New Jersey. E não importa mesmo. Hoje, estão em Nova York. Ele trabalhando e transando, ela cantando na noite – depois de ser abandonada pelo namorado.

A ausência da causa e efeito (porque ele é compulsivo sexual, porque a irmã sofre) em nada importa ao filme – o que é muito bom, pois não há necessidade de explicações. O niilismo de Brandon (não se apega a garota alguma, não pensa em casar, vive só por opção) define seu modo de ser.

E se isso gera solidão, bem, ele diz: casais comendo em silêncio nos restaurantes são a prova de que solidão a dois é pior. Podem estar conectados e dispensam a palavra, sugere a garota com quem ele tenta estabelecer contato mais duradouro.

O fato é que enquanto Steve McQueen não explica as coisas sua narrativa nos envolve. E não há interesse sexual nessa narrativa até porque praticamente nada é explícito – Michael Fassbender surge nu algumas vezes, porém a conotação erótica beira a zero, assim como a cena em que Sissy toma banho.

O interesse está depositado no personagem e sua neurose. Como tal, ilumina um pouco do mundo em que vivemos hoje, a solidão das grandes cidades, o desapego das pessoas por relações estáveis, o “ficar” efetivado como quase uma regra.

Se há algo em relação à irmã que o incomoda? Sim, claro. Quando ela vem morar na casa dele, Brandon fica uma pilha de nervos – belíssima a imagem dele fazendo cooper na madrugada de Nova York por não suportar ver a irmã e o melhor amigo transando.

Entretanto, até então tudo está apenas sugerido. O impulso sexual de Brandon torna-se incontrolável. Assim, das performances sexuais e sites pornôs e revistas ele está a um passo do incesto, sem falar de esporádica relação homossexual. Para ele, existe sexo. Apenas. Não importa com quem. Talvez com Sissy haja um laço de ternura, afeto familiar, a família que inexiste para ele.

E todos nós sabemos desde o início que sexo para ele não significa necessariamente prazer, há também desconforto. Nesse ponto, Shame despenca para o óbvio: sexo sem amor gera solidão e depressão. E o roteiro tenta salvar Brandon. Uma pena. Podia deixar sem resposta; afinal, a vida nem sempre tem respostas. Melhor seria ver como Brandon lida com seus desejos, pois é o que tentamos fazer no nosso dia-a-dia.

Afora isso, Michael Fassbender (que ganhou prêmio de ator em Veneza/2011) está ótimo. E Carey Mulligan, finalmente surpreende, deixa os papéis contidos para se transformar numa louca perdida no mundo. Sua performance cantando New York, New York e a imagem de Michael assistindo-a são excepcionais.
 

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15/03/2012 11:52:00
Debate cinema e psicanálise  Compartilhar
foto: Divulgação

A Livraria Cultura, do Shopping Iguatemi Campinas, inicia hoje o ciclo de debates CinePsicanálise. O projeto tem curadoria da psicanalista Luciane Loss Jardim e oferece ao público um diálogo descontraído entre a Psicanálise e a Sétima Arte. Após os filmes, acontece um debate com a presença da curadora e de um convidado.

Na abertura, hoje, será exibido às 18h o filme O Discurso do Rei (foto), de Tom Hooper (2010). Após a morte de seu pai, o rei George V, e a abdicação escandalosa do Rei Eduardo VIII, o príncipe Albert, que sofreu de um problema de fala é coroado rei George VI do Inglaterra.

Após a exibição, eu irei falar sobre o filme, enquanto a Luciane irá tocar nas questões psicanalistas a partir da relação entre o George VI e seu terapeuta. Em seguida, o público poderá participar com perguntas.

O encontro será no auditório da Livraria com capacidade para 95 pessoas. A entrada é franca.

Luciane Loss Jadim é psicanalista, membro da associação psicanalítica de Porto Alegre e doutora em psicologia clínica PUC/SP e com pós-Doutorado pelo departamento de psicologia médica e psiquiatria da Unicamp.
 

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14/03/2012 10:37:15
Românticos Anônimos  Compartilhar
foto: Divulgação

Quem disse que gêneros de filmes são imutáveis? O franco-belga Românticos Anônimos, ou “Emotivos Anônimos”, de Jean-Pierre Améris (também um dos roteiristas) demonstra que, sim, é possível fazer comédia romântica com criatividade e fugir (muito) do óbvio.

Tudo o que seu diretor e roteirista (junto com Philippe Blasband) quer é divertir a plateia com um mínimo de inteligência, sagacidade e uma pitada de ingenuidade. Misture bem a um elenco afiadíssimo, teatral no bom sentido de que os atores estão nos tons e tempos certos, pois claramente trabalharam os mínimos gestos e olhares exigidos na encenação, e teremos uma agradável comédia romântica, que segue à risca as regras, mas sempre surpreende.

A maior crítica aos gêneros em geral é a falta de surpresa, quando o diretor didaticamente prepara tudo para o espectador, como se este fosse incapaz de processar informações mais elaboradas. Este não precisa se preocupar, tudo se encaminhará para dar tudo certinho, sem custos, sem medos, sem atropelos. Ou seja, bem confortável.

Em Românticos Anônimos também tudo dá certo, mas os caminhos são bem outros. Começa pelos diálogos e segue pela construção dos personagens e, até mesmo, pelo tema incomum: as emoções descontroladas. Claro que o tema inusitado ajuda a criar boas piadas, mas tanto melhor que os roteiristas souberam desenvolver bem a ideia.

Angélique (Isabelle Carré) faz chocolate como ninguém, mas não sabe receber elogios e tenta se esconder da glória de ser a melhor. Jean-René (Benoît Poelvoorde) tem medo das mulheres. Mesmo apaixonado e fazendo terapia não consegue nem ao menos tocar as mãos de Angélique, por quem está apaixonado.

E, em dado momento, temos a certeza de que veremos mais uma comédia em que uma eficaz profissional da cozinha (no caso, de uma empresa de chocolates) vai se resolver, assumir o sucesso e tudo ficará bem. Pois o roteiro nos dá um drible. Não é sobre isso o filme.

E, melhor de tudo, tem um final delicioso, que foge completamente a tudo o que pudéssemos imaginar como saída. Ora, um filme assim poderia ser um filmaço. Não é isso tudo, mas cumpre muito mais do que poderíamos esperar.

Nem tem a pretensão de fazer história no cinema e, no entanto, contribuiu para ela ao demonstrar a possibilidade de fazer uma comédia romântica que fuja a todos os seus clichês sem nunca fugir às regras do tal gênero. Convenhamos, é bastante.

Uma curiosidade. Costumo, quando possível, contar o número de espectadores das sessões de cinema. Em Românticos Anônimos havia 69 pessoas – ótimo para uma segunda-feira. Mas apenas oito eram homens.

E não se pode dizer que seja um filme de “mulherzinha”, pois o drama masculino (o de Jean-René) parece mais extremo do que de Angélique. Mas a palavra “românticos” do título deve, mesmo, atrair mais as mulheres do que homens.
 

enviada por João Nunes
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12/03/2012 10:38:08
Tomboy  Compartilhar
foto: Divulgação

Tomboy (Tomboy, França, 2011), de Céline Sciamma, não esconde que aquele menino lindo que aparece na tela não é um menino, mas uma garota em busca de definições. Laure (Zoé Héran) não sabe qual gênero escolher, mas se sente bem confortável com os gestos, a postura, as predileções e os hábitos masculinos. Aprende a cuspir, a se vestir com roupas de garoto, a movimentar os braços e as pernas de modo bem menos feminino, a jogar bola, a brigar na rua e a paquerar uma menina.

Porém, Michaël, como ela se apresenta aos vizinhos assim que se muda para um bairro periférico de Paris, monta para si própria um conflito bastante complexo. Tem só dez anos, os pais são extremamente carinhosos, relaciona-se muito bem com a irmã menor Jeanne (Malonn Lévana), não parece sofrer qualquer tipo de pressão, assim como não tem motivos aparentes que justifiquem seu desejo. Laurie só quer ser menino.

Quando conhece Lisa (Jeanne Disson) e esta o apresenta aos garotos do condomínio, Laurie/Michaël se apaixona por ela e é correspondido. Porém, há ruído nessa relação, pois Lisa está segura de que Laurie é homem. Ela joga bola como menino, mas na postura se distingue deles: é mais educado, sensível e atencioso. Tudo em Michaël atrai Lisa.

A diretora trabalha com crianças e adolescentes sem nunca temer tocar em temas espinhosos. Por exemplo, Michaël tem de acompanhar os meninos na hora em que eles vão urinar ou quando decidem nadar. Porém, em momento algum a vulgaridade sequer se aproxima da narrativa. Ao contrário, a direção tange questões tão cruciais com delicadeza, mesmo quando as coisas começam a se complicar para os lados de Laurie.

A escolha de Zoé Héran como protagonista é um achado da produção. Basta ver o cartaz do filme. Zoé é perfeito menino, mesmo que a delicadeza dos traços esteja tão evidente. E a atriz consegue imitar muito bem os trejeitos masculinos. E faz todo o sentido que seja imitação, pois ela quer se parecer masculina. É, portanto, no jogo da aparência que o personagem tenta demonstrar um desejo e que a atriz consegue realizar plenamente.

Outro mérito da direção é tocar em um tema difícil sem o espalhafato. O encaminhando das questões mais íntimas se dá de modo quase lúdico. Veja-se, por exemplo, o artifício usado por Laurie ao ser convidada para nadar com os meninos. A ação parece brincadeira infantil – e é, se levarmos em conta que ela tem dez anos. E, no entanto, o roteiro (da própria diretora) busca a complexidade embutida em um ato mostrado em forma descontraída e leve.

O mesmo ocorre na maneira como a direção encena o drama de Laurie, todo ele marcado por brincadeiras infantis, o que nos leva a pensar em Tomboy como um filme aparentemente simples, porém, sua feitura é extremamente difícil. Afinal, não é somente o tema que produz certo estranhamento, mas o universo onde tudo acontece. E, em dado momento, nos perguntamos o que poderá acontecer com a protagonista – a pergunta mágica de qualquer dramaturgia que fuja ao óbvio.

Tomboy foge, felizmente, do óbvio. Não entrega nada de bandeja, apresenta o drama e faz o espectador se mexer na cadeira diante do incômodo – só aliviado porque estamos falando de crianças e, como tal, há ingenuidade e quase pureza nas ações.

O filme ganhou o Festival Mix Brasil, dedicado a produções gays, em novembro de 2011. Boa escolha, especialmente por tocar num tema pouco comum e o fazer de modo tão afetuoso, longe do sensacionalismo e com um final inesperado e bonito.

* Publicado no Correio Popular dia 9/3/2012

enviada por João Nunes
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