SÃO PAULO
Festival Internacional Sesc de Circo chega à sua 3ª edição
Arte circense tem, cada vez mais, desenvolvido uma linguagem sofisticada e produzido espetáculos de qualidade
27/05/2015 - 10h28 | - Atualizado em 27/05/2015 - 10h38 Da Agência Estado
faleconoscorac@rac.com.br
Foto: Reprodução / Facebook.
A arte circense tem, cada vez mais, desenvolvido uma linguagem sofisticada e produzido espetáculos de qualidade, que fogem do tradicional palhaço
A arte circense tem, cada vez mais, desenvolvido uma linguagem sofisticada e produzido espetáculos de qualidade, que fogem do tradicional palhaço
 
Nem só para crianças, nem só "para toda a família". Apesar de carregar essa pecha, a arte circense tem, cada vez mais, desenvolvido uma linguagem sofisticada e produzido espetáculos de qualidade, que fogem do tradicional palhaço. Um panorama destas montagens pode ser visto no Circos - Festival Internacional Sesc de Circo, que começa nesta quinta, 28, a terceira edição, com atrações que vão até 7 de junho.
Se a última edição do Circos, realizada em 2014, trouxe 23 espetáculos de seis nacionalidades, o festival, neste ano, tem 28 apresentações de grupos vindos de 11 países. "O crescimento do Circos não é apenas um reflexo da visão do Sesc", diz a gerente adjunta de Ação Cultural do Sesc São Paulo, Kelly Adriano de Oliveira. "Vem da ampliação da pesquisa e do crescimento da própria linguagem circense."

Apesar de ter um tema a cada edição, a linha curatorial é pautada na ideia de mostrar a variedade da produção de circo. Após trazer espetáculos que discutiam as peculiaridades da dramaturgia e as diferentes estéticas, a curadoria selecionou montagens que refletem as próprias mudanças do circo - o que Kelly classifica como metalinguagem.

"Buscamos, de maneira bem poética, espetáculos que mostrassem transformações, momentos-chave que mudaram a história da companhia e do artista", explica Carolina Garcez, assistente para circo na Gerência de Ação Cultural, que também participou do processo de curadoria.

Nesse sentido, o espetáculo Underart é um dos mais significativos. Após fazer circo por mais de dez anos, em 2005, o diretor sueco Olle Strandberg saltou de uma gangorra para fazer uma cambalhota tripla para trás e acabou fraturando o pescoço. Desde então, ele perdeu os movimentos do pescoço para baixo.

"O acidente me deu uma nova perspectiva sobre a vida e sobre o circo", diz o diretor em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo. "Queria continuar trabalhando com o meu corpo e descobri que, de alguma maneira, era melhor eu trabalhar com coreografias do que com acrobacias." Assim, Strandberg se tornou coreógrafo, produtor e diretor circense. Em Underart, artistas mesclam, é claro, técnicas de dança e circo, em números que abordam o risco constante de quem está em cena.

A transformação também está presente em Cherepaka, da canadense Adréane Leclerc. A artista usa unicamente o contorcionismo para falar sobre a morte de uma tartaruga (em russo, cherepaka). "Eu me inspirei na carne que se decompõe com o tempo em relação ao casco, que atravessa séculos e pode se transformar em fóssil", diz Adréane. Para ela, essa relação representa a tensão entre o ego e o instinto animal. "O ego superará o instinto animal e tentará calá-lo."

Dos Estados Unidos, o palhaço Avner The Eccentric mostra Exceções à Gravidade, espetáculo que já foi apresentado em Goiânia, mas é inédito em São Paulo. Com 66 anos, Avner teve uma carreira de sucesso na Broadway e integrou o elenco do longa A Joia do Nilo (1985, direção de Lewis Teague), ao lado de Michael Douglas e Kathleen Turner. Em Exceções, ele se mostra um palhaço que faz graça sem nariz vermelho ou figurinos extravagantes.

Entre as atrações nacionais, os cariocas do grupo Circo no Ato apresentam Febril, que se baseia em obras do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) - no enredo, o cotidiano de uma trupe de ciganos.

Destaque para Charivari Brasileiro, da companhia Circo Mínimo. O título é inspirado no momento final das apresentações circenses, quando os artistas se despedem do público executando alguns números. Em forma de cabaré, o espetáculo tem, em seu elenco, integrantes de sete escolas de circo (de São Paulo, Pernambuco, do Paraná e Rio de Janeiro).

Além da apresentação, os artistas terão encontros, palestras e workshops com professores de escolas paulistas, fazendo parte da programação formativa, que também cresceu no Circos. "Mais do que se configurar como um lugar de fruição da arte e do circo, a parte de formação é um espaço de desenvolvimento do pensamento da linguagem", afirma Carolina Garcez.

As atrações do festival Circos vão ocupar 13 unidades do Sesc na capital, além dos espaços da instituição em Osasco e também em Santo André.