EXTENSÃO
Álbum 'Mãe Carinhosa', de Cesária Évora, sai no Brasil
Cesária teve uma força capaz de quebrar o próprio destino
05/05/2015 - 11h20 | - Atualizado em 05/05/2015 - 11h21 Agência Estado
faleconoscorac@rac.com.br
Foto: Divulgação.
Mãe Carinhosa, de Cesária Évora
Mãe Carinhosa, de Cesária Évora
Cesária Évora é do tipo de mulher que brota do chão. Surgiu sem que ninguém a visse, mais precisamente em uma das dez ilhas vulcânicas que formam o Cabo Verde, na costa da África Ocidental assim como surgiram Dona Onete, no Pará; Jovelina Pérola Negra, no Rio; Tia Cida dos Terreiros, em São Paulo; Dona Edith do Prato, na Bahia; e Omara Portuondo, em Havana.

Cesária teve uma força capaz de quebrar o próprio destino. Ao morrer, em 17 de dezembro de 2011, contabilizava 24 álbuns lançados e um largo respeito internacional. Ganhou um Grammy, em 2004, como cantora do melhor disco de world music, a única categoria com a qual os norte-americanos conseguem decodificá-la e, cinco anos depois, recebeu do então presidente francês Nicolas Sarkozy a medalha da Legião de Honra. Ao nascer, em 27 de agosto de 1941, era a filha de Dona Joana, a cozinheira das famílias brancas de Mindelo, em São Vicente.

De sua produção discográfica, que começou quando ela já tinha 47 anos, sai agora um presente póstumo. Já lançado no exterior em 2013, o disco Mãe Carinhosa chega ao Brasil pelo Selo Sesc. São músicas gravadas entre os anos 1997 e 2005 que não haviam entrado em seus álbuns. Ao todo, são 13 canções, das quais apenas Sentimiento já era conhecida em sua versão original, de Nhá Sentimiento, de 2009.

O disco tem o nome de Mãe Carinhosa, decidido assim pelo produtor José da Silva, o homem que descobriu a “diva dos pés descalços”, cantando em um hotel de Lisboa no fim dos anos 1980. Foi ele quem insistiu para que ela gravasse na França seu primeiro disco de relevância, Cesária Évora - La Diva Aux Pieds Nus, de 1988. “Eu resolvi batizar o disco assim porque sabia da relação de extremo carinho que Cesária teve com sua mãe”, diz Silva, por telefone, da China, onde esteve na semana passada para participar de uma conferência sobre os rumos do mercado musical.

Apesar do ineditismo de canções que a própria Cesária se recusou a incluir em seus álbuns, não há nada em Mãe Carinhosa que soe resquício de estúdio. Mesmo o intervalo de tempo que as separa, entre 1997 e 2005, a verdade de Cesária permanece inviolável, unida por uma fidelidade ao canto em criolo cabo-verdiano e português e ao uso das mornas, coladeiras e ritmos ibéricos.

Quando segue as pegadas dos caribenhos e latino-americanos, no entanto, a nostalgia de seu regionalismo ganha um poder de contágio ainda maior. Do compositor Nando da Cruz, Esperança é um bolero e Tchon de França, do mesmo Nando, um calipso. E há o chá-chá-chá de Humberto Chicuco Palomo, cantado em espanhol, chamado Dos Palabras. Em algum momento da colonização portuguesa realizada desde a descoberta do país, em 1460, e finalizada nos últimos anos do século 19, algo da música latina falou mais alto em Cesária. Os portugueses aparecem mais em suas intenções nostálgicas - ainda que ela dissesse não ser nenhum poço de melancolia fadística - do que em suas formas de expressão. Mãe Carinhosa, de Teófilo Chantre, é exemplo do caminho entre a tristeza e a festa que os cabo-verdianos parecem encontrar em Cesária. Uma tristeza que não se sente sem dançar.

José da Silva trabalhou com Cesária Évora por 27 anos. Quando a viu cantando no tal hotel de Lisboa, teve a certeza de que aquela força das costas africanas perderia o bonde da história se não entrasse em um estúdio às pressas. Insistiu e a levou para a França antes que ela regressasse a Cabo Verde. Dos anos que passou a seu lado, viu uma mulher que sabia exatamente o que queria. “Ela sempre quis ser livre, foi essa uma das lições que aprendi.” E, principalmente, uma mulher que sabia o que não queria. “Cesária nunca quis se casar, jamais teria um homem dentro de sua casa (para prendê-la).” E como ficou a relação entre produtor e cantora? “Eu me colocava mais como um conselheiro do que um produtor. Entendi logo como ela funcionava e posso dizer que ela sempre tinha razão.”

Cesária gostava de comparar os espíritos da morna com os do fado e do blues. De novo, falava da intenção, da saudade de uma terra distante, não da plástica. “Eles dizem respeito à mesma coisa”, explicava. Sua relação com a música brasileira ia além dos shows que fez pelo País. A maior paixão era pela cantora Ângela Maria, que depois se estendeu a outros artistas brasileiros, como Caetano Veloso, Marisa Monte e Gal Costa. Em uma apresentação no Sesc Pompeia, em 1994, ela conheceu Ângela Maria, uma cena testemunhada por Caetano Veloso, conforme relata o jornalista e crítico musical Carlos Calado em texto escrito para divulgar o lançamento do disco no Brasil: “Mesmo que esse encontro não tenha sido registrado em som e imagem, restou ao menos uma foto bastante reveladora. Ela pode ser encontrada na biografia de Cesária... Nesse retrato, Caetano aparece entre as duas cantoras abraçando-as”. Enquanto Angela e Caetano abraçam Cesária, ela fecha os olhos como se sentisse uma forte emoção. “Era, sem dúvida, um de seus maiores ídolos”, lembra José da Silva.

Quando Cesária morreu, em 2011, a repercussão mundial tirou as dúvidas de quem ainda se perguntava quem era a tal “diva dos pés descalços”. A norte-americana CBS News a resumiu em uma frase: “Ela cantava para públicos que não entendiam a sua língua, mas que, mesmo assim, ficaram rendidos ao seu encanto." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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