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10 perguntas essenciais sobre o glaucoma

Doença afeta a qualidade de vida dos pacientes que são acometidos por este mal
20/05/2015 | - Atualizado em 20/05/2015 - 10h22 Portal RAC
faleconoscorac@rac.com.br
Foto: Divulgação
Glaucoma é uma doença ocular que provoca danos irreparáveis no nervo óptico,  que carrega as informações visuais recebidas pelo olho até o cérebro
Glaucoma é uma doença ocular que provoca danos irreparáveis no nervo óptico, que carrega as informações visuais recebidas pelo olho até o cérebro
Prevenir a cegueira ainda é um dos grandes desafios da Oftalmologia. “No Brasil, ainda não existe a consciência da gravidade do glaucoma. É preciso apostar na promoção da visão, que consiste em repassar informações à população sobre os meios de evitar doenças ou a perda visual. O glaucoma faz parte de um grupo de doenças oculares que, gradualmente, ‘roubam a visão’ sem aviso prévio e, não raro, sem sintomas. A perda da visão é causada por um dano no nervo óptico. Durante muito tempo, acreditou-se que a pressão intraocular (PIO) alta era a principal causa desse dano ao nervo óptico. Embora a pressão intraocular alta seja um fator de risco, atualmente, é sabido que outros fatores também devem ser levados em conta”, afirma o oftalmologista Virgílio Centurion, diretor do IMO, Instituto de Moléstias Oculares.

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Conversamos com a especialista em glaucoma do IMO, a oftalmologista Márcia Lucia Marques sobre a doença, buscando novidades sobre a prevenção, o diagnóstico, o tratamento e o manejo da doença por pacientes e oftalmologistas. Confira:

01) A idade é um fator de risco importante para o glaucoma?
"Pense em alguém que você conheça que tem glaucoma. As chances de que essa pessoa seja um idoso são grandes, pois a doença afeta mais de 2,2 milhões de americanos com mais de 40 anos de idade, com a maior incidência de casos a partir dos 70 anos ou mais. Apesar das dificuldades para realização de estudos epidemiológicos em nosso país, a Sociedade Brasileira de Glaucoma aponta cerca de 900.000 portadores da doença no Brasil, provavelmente, 720.000 são assintomáticos. Dentre os fatores de risco conhecidos para a doença, a idade é responsável pelo aumento considerável da incidência e da prevalência de glaucoma", salienta. 

02) Além do desafio do diagnóstico precoce, o glaucoma é uma doença de difícil manejo?
"O glaucoma é uma doença que apresenta desafios para o paciente e para o oftalmologista. Quando o glaucoma é tratado em seus estágios iniciais, a perda da visão pode ser prevenida. No entanto, os estudos mostram que mais da metade dos pacientes com glaucoma não aderem aos planos de tratamento prescritos devido a fatores que incluem dificuldades em aplicar colírios, falta de educação sobre a medicação e esquecimento. Muitos pacientes lutam diariamente para aderir ao tratamento do glaucoma, especialmente os que estão gerenciando outros problemas de saúde ao mesmo tempo. Mas, para cada dificuldade, há uma solução, que pode ser desenvolvida para cada paciente. Não tenha medo de perguntar ao oftalmologista tudo o que você precisa saber sobre o tratamento do glaucoma".

03) Um trabalho - Association Between Oral Contraceptive Use and Glaucoma in the United States - apresentado durante o congresso anual da Academia Americana de Oftalmologia, revelou que mulheres que tomaram contraceptivos orais por um período de três anos ou mais são duas vezes mais propensas a desenvolver glaucoma. Como as mulheres podem se prevenir da doença, visto que a pílula é um dos contraceptivos mais difundidos?
"Os autores desse estudo alertaram ginecologistas e oftalmologistas, destacando que estes profissionais precisam estar atentos para o fato que os contraceptivos orais podem desempenhar um papel importante em quadros glaucomatosos. Estes profissionais devem informar suas pacientes sobre a importância dos exames de visão periódicos e sobre os outros fatores de risco para a doença, visando a prevenção do glaucoma. Embora os resultados do estudo não indiquem claramente que os contraceptivos orais tenham um efeito causador no desenvolvimento do glaucoma, eles indicam que o uso, de contraceptivos orais, a longo prazo, pode ser um fator de risco potencial para o glaucoma. E este dado pode ser considerado como parte do perfil de risco para uma paciente em conjunto com outros fatores de risco existentes já conhecidos, tais como: etnia, história familiar de glaucoma, história de aumento da pressão intraocular ou defeitos no campo visual existentes".

04) Pesquisadores de Taiwan descobriram que as pessoas com apneia do sono são muito mais propensas a desenvolver glaucoma em comparação com aquelas sem esta condição. Como se estabelece essa relação?
"Este estudo determinou que a apneia obstrutiva do sono não é simplesmente um marcador para a saúde debilitada. Na verdade, a apneia é um fator de risco independente para o glaucoma de ângulo aberto. A relação entre as duas condições é significativa, dado o grande número de pessoas no mundo que sofrem com elas. A apneia do sono é uma condição crônica que bloqueia a respiração durante o sono em mais de 100 milhões de pessoas em todo o mundo. Durante uma crise de apneia obstrutiva do sono, as vias aéreas tornam-se bloqueadas, provocando uma pausa na respiração que pode perdurar por até dois minutos. Os sintomas incluem ronco alto e sonolência diurna persistente. O glaucoma afeta cerca de 60 milhões em todo o mundo. Se não for tratada, a doença reduz a visão periférica e, eventualmente, pode causar cegueira, danificando o nervo óptico. Apenas metade das pessoas que tem glaucoma está ciente disso porque a doença é indolor e a perda de visão é tipicamente gradual. O estudo encoraja os médicos a alertarem os pacientes com apneia obstrutiva do sono sobre a associação entre a apneia e o glaucoma de ângulo aberto. A pesquisa pode ser usada como um mote para levantar a questão e incentivar o tratamento das duas condições".

05) De acordo com um estudo realizado com mais de 300.000 pacientes pela Escola de Medicina da Universidade de Michigan, pessoas que tomam estatinas para reduzir o risco de doenças cardiovasculares são menos propensas a serem diagnosticadas com a forma mais comum de glaucoma. Como se estabelece esse fator de proteção contra a doença?
"Segundo os autores desse estudo, o risco para o glaucoma foi reduzido em 8% em pacientes que tomaram estatinas continuamente por dois anos, em comparação com os pacientes que não tomavam estatinas. Segundo o estudo, o uso de estatinas pode ser mais relevante antes que o glaucoma seja diagnosticado ou nos primeiros estágios da doença. A pesquisa pode levar a novos tratamentos preventivos que poderiam beneficiar especialmente os grupos de maior risco, incluindo negros e aqueles com história familiar de glaucoma. A capacidade das estatinas de reduzir o risco aparente de glaucoma é devida a vários fatores, incluindo um fluxo de sangue melhorado para o nervo óptico e para células nervosas da retina, além de uma melhor saída do humor aquoso, o que pode reduzir a pressão intraocular".

06) Um estudo, publicado no Archives of Ophthalmology – Impact of a Health Communication Intervention to Improve Glaucoma Treatment Adherence – reforça a ideia de que a adesão do paciente ao tratamento é um grande desafio no caso do glaucoma. Nem mesmo quando recebem um telefonema diariamente, para lembrá-los da medicação, os pacientes com glaucoma se sentem motivados a participarem mais ativamente do tratamento. Na sua avaliação, por que isso acontece?
"O glaucoma é uma doença que, por suas características clínicas e seu prognóstico visual requer comprometimento do paciente com o tratamento. Trata-se de uma doença crônica que deve receber acompanhamento e tratamento prolongados, condições que podem prevenir a cegueira. A falta de adesão ao tratamento pelo paciente é uma causa importante de controle inadequado de pressão intraocular. São muitos os pacientes em tratamento que deixam de usar os medicamentos antiglaucomatosos corretamente. É de extrema importância a manutenção e o reforço das orientações médicas durante todo o tratamento, pois assim como a diabetes e a hipertensão arterial, o glaucoma não tem cura, mas é passível de controle, garantindo a qualidade de vida do paciente".

07) Um outro estudo, publicado no Journal of Glaucoma – Evaluating Eye Drop Instillation Technique in Glaucoma Patients – revelou que 9 em cada 10 pacientes com glaucoma não foram capazes de instilar o colírio corretamente, o que pode ser uma importante causa da falta de adesão do paciente ao tratamento médico proposto. Os oftalmologistas têm consciência dessa dificuldade dos pacientes?
"Sim. E investimos em ações educativas, visando superar esse desafio. O conhecimento em relação à doença ocular é condição necessária e antecede as ações do indivíduo para preservar a própria visão. Ações educativas na relação médico-paciente constroem a base para a promoção da saúde ocular e a preservação do sistema visual, aumentando a capacidade dos indivíduos de tomar decisões relativas a comportamentos que influenciarão seu nível de saúde ocular. A orientação da população sobre o glaucoma deve ser feita de forma contínua e progressiva, levando-se em conta as concepções e significados que as comunidades atribuem à doença e ao seu tratamento".

08) Mudar o estilo de vida do paciente portador de uma doença crônica é um desafio para todos os profissionais de saúde. Para o paciente com glaucoma, por exemplo, é importante fazer exercícios físicos regularmente?
"Estudos sugerem que pacientes com glaucoma de ângulo aberto que se exercitam regularmente - pelo menos 3 vezes por semana - podem ser capazes de reduzir sua pressão intraocular em até 20%. Mas se estes pacientes deixam de se exercitar por mais de duas semanas, a pressão intraocular aumenta novamente. Quando o assunto é a prática de exercícios físicos, o paciente com glaucoma precisa saber que a ioga e outros exercícios que envolvem posições de cabeça para baixo podem ser prejudiciais para o prognóstico da doença. É importante dizer também que os exercícios físicos não têm efeito algum sobre o glaucoma de ângulo fechado. E podem, de fato, aumentar a pressão ocular em pacientes com glaucoma pigmentar. Exercícios de alto impacto podem liberar mais pigmentação da íris destes pacientes. É fundamental que o paciente glaucomatoso converse com seu médico sobre o programa de exercícios mais adequado".

09) O uso dos óculos de sol é essencial para o paciente com glaucoma?
"O glaucoma pode deixar os olhos mais sensíveis à luz e ao brilho do sol. Medicamentos para melhorar este sintoma podem agravar o problema. Os óculos de sol resolvem a questão e são importantes para a prevenção da catarata e de outras doenças da retina. É importante lembrar que os óculos escuros não precisam ser caros. O mais importante é escolher óculos que bloqueiem pelo menos 99% dos raios UVB e 95% dos raios UVA".

10) Na Internet há uma grande oferta de “remédios naturais” para o tratamento do glaucoma. Eles realmente auxiliam o tratamento do paciente?
"Uma série de remédios naturais e ervas têm sido anunciados na Internet como “bons para o tratamento do glaucoma”. Por exemplo, não há evidências científicas de que o mirtilo - fitoterápico popular para distúrbios oculares - seja eficaz na prevenção ou no tratamento do glaucoma. Alguns estudos têm relatado que o ginkgo biloba pode ter propriedades que oferecem benefícios aos pacientes com glaucoma, tais como o aumento do fluxo de sangue no olho, sem alterar a pressão arterial, a frequência cardíaca e a pressão intraocular. No entanto, muitas pesquisas ainda precisam ser feitas para comprovar estes benefícios. Não há a menor evidência que esta substância possa ser usada com segurança no tratamento do glaucoma. É importante não interromper a medicação prescrita pelo oftalmologista, pois a segurança dos medicamentos para o tratamento desta moléstia já foi atestada".

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