AMOR OU DEPENDÊNCIA?

Como as expectativas afetam nossos relacionamentos?

A fantasia da 'metade da laranja' nos torna dependentes, possessivos e cheios de expectativas sobre o outro. Tornar este processo consciente é o primeiro passo para ter um relacionamento saudável
04/05/2015 | - Atualizado em 04/05/2015 - 14h02 Mariane Montedori
mariane.montedori@rac.com.br
Foto: Divulgação
Entender que o outro é repleto de erros tanto quanto você auxilia no processo de consciência e aceitação do indivíduo
Entender que o outro é repleto de erros tanto quanto você auxilia no processo de consciência e aceitação do indivíduo
Dizer que não criamos expectativas em relacionamentos não é lá algo muito verídico. Ainda que tenhamos consciência de que essa é uma das melhores alternativas para o relacionamento se manter estável, é comum esperarmos do outro algo que, na verdade, criamos em nós mesmos. Essas 'esperanças' de que o outro se torne o que esperamos que ele seja, resulta sempre em sofrimento e decepção. Sentimentos que caminham ao lado da ansiedade, raiva e mau humor. Mas afinal, como fazer então para deixar que o relacionamento siga seu fluxo sem que criemos tantas fantasias?

Sempre que iniciamos um relacionamento, estamos cheios de paixão. Há um ditado popular que diz que a paixão cega. E não é pra menos. Idealizamos tanto o outro, que acabamos por beatificá-lo, criando cenas e experiências com atitudes que imaginamos encontrar 'nele'. Mas com o passar do tempo, essa imagem vai mudando. Começamos a perceber que 'ele' não corresponde ao que imaginávamos. E começamos, então, a nos entristecer e cultivar sentimentos como raiva, ansiedade, mau humor. É dado início às brigas e discussões. E tudo isso só pode resultar em uma coisa: sofrimento! O que não sabemos é que tudo isso acontece não porque o outro te decepciona, mas sim porque somente agora conseguimos enxergá-lo de verdade. Mas nossa mente é perigosa e nos engana. Ao invés de chegarmos nessa conclusão, pensamos que estamos sempre fazendo mais pelo outro do que recebendo. 

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Podemos analisar esta questão partindo dos ensinamentos da Psicanálise, propostos por Freud e discutidos ainda hoje. Tida como a ciência que estuda o inconsciente, por meio de autoanalise, é possível descobrir que as expectativas que criamos em nosso relacionamento, nada mais são que um processo inconsciente e automático, através do qual um conteúdo inconsciente para o sujeito é transferido para um objeto, fazendo com que este conteúdo pareça pertencer ao objeto. Em outras palavras, é mais um desejo nosso a respeito do outro, do que uma característica dele próprio. Tal sintoma só irá desaparecer quando nós mesmos tornamos essa questão consciente. " A projeção cessa no momento em que se torna consciente, isto é, ao ser constatado que o conteúdo pertence ao sujeito." (Mednicoff, 2008, p. 71, Dossiê Jung).
Seja um namoro, um casamento ou mesmo uma relação chefe-funcionário, as pessoas criam expectativas sobre as outras e acabam esperando delas que ajam segundo suas vontades, ou como esperam que elas ajam. Uma vez tomada a consciência desta situação, o próprio indivíduo começa a reconhecer em seus pensamentos e atitudes, as expectativas que cultiva. Assim, ele passa a manter seu cérebro mais 'sóbrio' e a viver na realidade, deixando-se ser surpreendido. Mas... não é tarefa fácil. 

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Conhecer o parceiro verdadeiramente é um exercício de realidade, requer adaptação e aceitação. Conviver com defeitos e com ações que não aprovamos é algo bem difícil, mas permite que aprendamos a lidar com o diferente e que nos tornemos pessoas mais completas. Não significa aqui dizer que apaixonar-se não é saudável. Pelo contrário. É sim, e muito saudável se apaixonar. Mas se não cuidarmos desse sentimento, ele pode nos deixar sem controle e muitas vezes, 'possuídos'. Fazendo coisas que não faríamos caso não estivéssemos contaminados por essa sensação. Assim, é possível concluir que deixar o sentimento 'criar asas' é saudável. Mas controlar o voo é imprescindível para evitar uma doença futura. 

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Ter um relacionamento saudável significa tornarmos conscientes nossos desejos, mas controlar nossa ansiedade e expectativas sob o outro. Não há metades da laranja. E nem o amor perfeito, desses de filmes. Senso de realidade é uma virtude. É o segredo para uma relação saudável. Olhe a pessoa como ela é. Tente ver além do reflexo social que ela aparenta. Todos nós temos defeitos e vamos cometer erros pelo resto de nossas vidas. Assim, não é saudável procurar no outro algo que nos complete. Mas sim escolher ficar com alguém que nos proporciona algo de bom e que tenha objetivos em comum. Equilíbrio é a chave do 'negócio'. Quando se procura no outro algo que nos complete, acreditamos que nossa felicidade está no outro. E isso nos torna dependentes dele. E quando o outro age diferente de como imaginamos, nos decepcionamos, ficamos com raiva e todo o ciclo se repete. Portanto, tenha sempre em mente: um bom diálogo, conversa, e principalmente honestidade, são deveras importantes para que um casal desfrute de um relacionamento real e não fantasioso.

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