LANÇAMENTO
Elba Ramalho ousa com ritmos ecléticos em novo disco
'Do Meu Olhar Pra Fora' tem elementos do fado, rock, reggae e até música cantada em francês
03/04/2015 - 17h32 | - Atualizado em 03/04/2015 - 17h38 Agência Estado
faleconoscorac@rac.com.br
Foto: Divulgação.
Novo disco de Ellba Ramalho é o 33º lançamento da carreira
Novo disco de Ellba Ramalho é o 33º lançamento da carreira
A paraibana Elba Ramalho reina no forró, no frevo e em outros ritmos nordestinos por direitos adquiridos ao longo de 35 anos de carreira. A força de sua música está indiscutivelmente nessa matriz. Nada a impedia, portanto, de se enveredar mais uma vez por velhos caminhos. Mas, para o álbum "Do Meu Olhar Pra Fora", o seu 33º, lançado agora, Elba queria pisar em outros chãos.

Não renegou seu Nordeste, claro, só que avançou em direções que lhe deram frio na barriga. Ela canta em francês, rememora Chico Science numa canção contundente do saudoso compositor manguebeat, se aproxima do fado, resgata o rock, balança ao som do reggae. E, ao longo das 12 faixas, há uma alternância entre os sons eletrônicos e orgânicos.

"Queria me desacomodar, preciso parar de plagiar a mim mesma, acho que arriscar na sonoridade é uma consequência natural do trabalho de todo artista", avalia a cantora.

"Senão, eu poderia ter feito mais um disco de forró, só o trivial, ou então ter passado minha vida toda gravando Banho de Cheiro 2, 3, 4... Funciona e agrada. Mas acho que, mais no momento de maturidade, a gente se sente confortável para alçar novos voos. Evidentemente que já tenho minha história, mas você ouvir um disco meu e ver 'puxa, Elba fez umas ousadias aqui', isso, para mim, soa positivo."

Os produtores Yuri Queiroga e Luã Mattar, filho de Elba, ajudaram nesse processo lhe propondo desafios. No disco, existe uma certa hegemonia pernambucana - o que não é de se espantar, já que ela é querida naquele Estado como se lá tivesse nascido. A começar pelo próprio Yuri, pernambucano, que foi mostrando a ela músicas de seus conterrâneos.

Uma delas foi "Risoflora", pinçada do álbum Da Lama ao Caos, de Chico Science & Nação Zumbi (1994). Conhecendo a canção original, de percussão forte, Elba achou que não conseguiria regravá-la. "Tenho intimidade com a obra de Chico, canto no carnaval do Recife, mas, quando ouvi Risoflora, eu falei: 'Será?'. Sou provocada a encarar. Poucas cantoras brasileiras, acho que só eu e Cassia Eller, gravaram Chico Science." Em sua versão, ainda que mantenha a interpretação visceral, Elba concede doçura à "Risoflora".

E, depois de muito tempo, desde "La Vie En Rose", gravada no disco "Felicidade Urgente", de 1991, por sugestão do produtor Nelson Motta, Elba volta a cantar em francês, em La Noyée, com participação de Marcelo Jeneci no piano, acordeom e cravo. E, de novo, ela acatou o desafio com temores, tal e qual aconteceu quando Motta a instigou. Chegou até a cogitar Chico Buarque para um dueto, mas o compositor não pôde por estar envolvido em seu livro. Ela resolveu, então, estudar a música e recebeu orientação de um ex-cônsul para ajustes de pronúncia. A cantora puxa mais para a interpretação boêmia de Serge Gainsbourg, autor da canção, do que para o canto entre sussurros de Carla Bruni. "É a Elba cantando em francês, com sotaque", avisa. "Não é perfeito".