AMOR SÓLIDO

Bauman que me desculpe, mas tenho que discordar de 'Amor Líquido'

Artigo desgeneraliza a discussão dos laços frágeis propostos por Zygmunt Bauman
24/03/2015 | - Atualizado em 24/03/2015 - 17h55 Mariane Montedori
mariane.montedori@rac.com.br
Foto: Divulgação
'As relações terminam tão rápido quanto começam' - Bauman
'As relações terminam tão rápido quanto começam' - Bauman
Entre tanta ‘liquidez’, talvez este seja um de seu livros mais populares aqui no Brasil. Segundo o filósofo Zygmunt Bauman, vivemos em tempos líquidos e nada é para durar. Bom, se nos referíssemos a aparelhos domésticos ou tecnológicos… abriria mão. Mas como trata-se de relacionamentos, preciso atirar a primeira pedra.

Namoro ha três anos. Eu acho. Um pouco menos. Sabemos como o primeiro ano é apaixonante, delirante, encantador. Mas só que viveu mais que um sabe logo o que vem depois. Brigas, discussões. Ápice emocional. Palavras ditas sem pensar. Arrependimentos, frustrações. Traumas. Relutar a isso é quase que matar a si mesmo. E ninguém em sã consciência quer cometer suicídio.

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O amor romântico pode ser muito criticado por alguns e até desconsiderado por outros. O amor virou quase sinônimo de gostar. Se fosse na França, daria um desconto. Je t’aime é usado para tudo. Mas a versatilidade de palavras do português nos auxilia a diferenciar estes sentimentos.

Eu tinha tudo para deixar. Ele também. Mentiras, imaturidade… uma briga por mês, uma briga por semana… Um briga por dia? Sim, descobrimos que é possível! Os motivos? Os mais idiotas possíveis. Não ousaria dar um exemplo, tamanha insignificância, que nem me lembro mais. Mas, por que insistir? Por que sofrer diariamente por algo, alguém que não nos completa? Por que simplesmente não virar a página, trocar de ‘amor’, seguir em frente? Por que insistir em ‘aparelhos incompatíveis’?

No meu dicionário da vida, aprendi a diferença entre o amar e gostar. Há uma obrigatoriedade no ‘amar’ que causa até receio em alguns. Cresci vendo meus avós e pais juntos, sempre. Enfrentando brigas, se conciliando, se esforçando pra dar certo, até dar – aparentemente sem esforço. Há um se importar que hoje, segundo Bauman, é difícil lhe dar. O amor exige segurança e liberdade. No meu caso, tive que aprender na marra. Para andarem juntos, é indispensável alcança-los separadamente, num primeiro momento. Imagine a liberdade, sem segurança… CAOS. Imagine ter segurança, mas não ter liberdade – CAOS.

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Namorava… E mesmo sendo baterista, aquele que fica no cantinho, atrás do vocalista… tive que lhe dar com estes dois conceitos muito bem. Muitos anos foram necessários para entender isso. E se tivesse compreendido muito bem, talvez estivéssemos juntos hoje. A verdade é que uma coisa que cresce e não dá frutos é o ciúmes. Para uma jornalista, é praticamente impossível estar em todos os shows, tendo plantão aos finais de semana… Muitas vezes, não pude ir. Este é o primeiro conceito: segurança. Você tem que ter segurança em si mesma, nele, na relação. Confiar . A liberdade vem logo em seguida… somos livres para ir e vir e não podemos deixar que um namoro desfoque nossos bens sagrados, como um bar com os amigos, o prazer em tocar, um forró (porque não?). Seja como for, todo ser humano precisa de seu momento de liberdade. E agora, imagine essa tal liberdade se não houvesse segurança ? A segurança que, mesmo livre, ele é seu. Está com você. Só quer um tempo com os amigos. E imagine alguém, que para sentir-se seguro, precise abdicar de toda a liberdade que necessita enquanto ser humano e viver aprisionado pelo medo de perder? É muita loucura. No meio dela, muita gente se perde. É onde se encontra a fragilidade dos laços humanos. Não se alcança o contentamento, não se consegue aceitar e ai, termina.

‘Estamos cada vez mais aparelhados com iPhones, tablets, notebooks, tudo para disfarçar o antigo medo da solidão. O contato via rede social tomou o lugar de boa parte das pessoas , cuja marca principal é a ausência de comprometimento’. Ou não! Ou nem sempre Tudo depende do valor que você emprega, do que vê como prioridade. Uma rede social pode ser utilizada, por exemplo, por uma mãe que tem seu filho em um intercâmbio, visando amenizar a saudade. Tudo é prioridade. Eu posso ter mil amigos no facebook, mas a minha solidão será a mesma ou ainda pior. Fico a pensar: o que estaria disfarçando tendo mil pessoas e nenhuma para olhar no olho? Insisto na questão de prioridades… insisto na questão de saber lhe dar. A tecnologia tem seus prós e contras, cabe ao ser humano levantar para que e como usar. O relacionamento tem seus prós e contras, cabe ao ser humano saber lhe dar.

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- Entrevista exclusiva com o autor Pedro Bandeira

E por fim, gostaria de dizer ao Sr. Bauman, que embora admire muito seu conhecimento, sou impossibilitada de concordar com tal afirmação, pelo simples fato de me considerar oposta. Pelo simples fato de insistir, de fazer acontecer, de me inspirar em meus avós e pais, de ver que as coisas podem ser consertadas e não trocadas por novas. Não haveria descobrimento, não haveria redescoberta, a reconquista, o desafio diário de melhorar enquanto pessoa em prol do outro, em prol do relacionamento e, como conclusão, em prol de si mesmo. Embora tais considerações como redes sociais, possam sim influenciar no grau de dificuldade em se relacionar hoje em dia, tudo está na forma de análise do indivíduo. No que carrega consigo, o que trás como história, o que vê como princípio.

‘As relações terminam tão rápido quanto começam’. Não! Hoje meu sogro esteve aqui, para ser testemunha do meu fora oficial perante toda minha família. E disse: ‘Na minha época não era assim. Não tinha esse sofrimento todo. Não dava certo, cada um seguia o seu caminho e pronto’. (…)Estamos falando de cerca de 50 anos. Que época? Será que há mesmo época? Sou obrigada a discordar, pois sei o quanto o amor pode curar, se houver comprometimento, se houver delicadeza, se houver liberdade e segurança! Em quaisquer que seja a ordem! O amor, para nós, não é descartável Sr.Bauman! Há uma reconstrução. Há um remanejamento. O amor, em si, é a solução para todos os problemas. E objetivando a felicidade de ambos, buscaremos a evolução individual para que consigamos o objetivo comum de nos relacionar, em nome do amor, da paz e da felicidade. E eu vejo muito mais construtividade nisso, que acontece no tempo que o Sr. chama de atualidade, do que na busca de outra pessoa, tornando tudo o que vivemos e que ainda podemos viver, um lixo sem ‘reciclavilidade’. E insisto ainda: se há amor líquido, tamanha é a possibilidade de um amor sólido. Resta-me pensar no que seria o amor em sua forma gasosa. De resto, estamos conversados.

Abaixo, um vídeo onde o autor fala da sociedade de consumo e a busca por identidade do indivíduo, chegando até ao uso que fazemos hoje da internet. Discorre sobre o Facebook e as interações humanas online, desvendando para nós porque isso é tão agradável para tanta gente nos mais diversos tipos de sociedade no mundo. Sua honestidade, sobre o que vê no mundo de hoje, é ao mesmo tempo forte e arrebatadora. Sem dúvida, uma aula sobre felicidade e escolhas. Para saber mais sobre o tema, recomenda-se a leitura do livro Modernidade Líquida.

 
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