Antes de morrer, Rubem Alves concede entrevista exclusiva à estudante campineira -


PERFIL
Antes de morrer, Rubem Alves concede entrevista exclusiva à estudante campineira
O autor parecia prever a morte ao relatar sobre os momentos de felicidade: "Momentos são tão efêmeros. Especialmente quando, como no meu caso, se tem pouco tempo pela frente (...) Não espero grande coisa da vida, ainda mais que estou velho e doente"
07/08/2014 | - Atualizado em 15/08/2014 - 09h25 Mariane Montedori
mariane.montedori@rac.com.br


Foto: Arquivo pessoal /Marina Saviani.
'Rubem Alves foi uma das poucas pessoas lindas e iluminadas que tive o prazer de conhecer', revela a estudante Marina
'Rubem Alves foi uma das poucas pessoas lindas e iluminadas que tive o prazer de conhecer', revela a estudante Marina
Um ano marcado por grandes perdas na literatura, tanto mundial, quanto nacional. E Campinas também chorou com o falecimento do grande escritor Ruben Alves, que residiu na cidade grande parte de sua vida, e aqui deixou uma infinidade de admiradores de seu trabalho enquanto autor, psicanalista, professor e uma das pessoas mais amáveis que já conheci. 

Foi em 2012 quando o vi pela primeira vez. Precisamente em setembro, no lançamento de seu livro "Sete Vezes Sete", pela editora Papirus. Na época, ainda exercia a profissão de livreira, e fui ao encontro do autor para me apresentar, receber um autógrafo e mais do que isso, apertar a mão daquele que admirava tanto em palavras. 

Antes da sessão de autógrafos, encontrei-o no camarim. Simples, com olhar carinhoso, levantou devagar para me receber. Em seu tom de voz, uma delicadeza tamanha. Em suas palavras, poesia pura. Senti-me bem. O entrevistei para um trabalho da faculdade e o acompanhei até o auditório. Não imaginava que em menos de dois anos após aquele dia, eu não o encontraria mais. 

Já em 2014, poucos meses antes da Copa, o escritor concedeu uma de suas últimas entrevistas à estudante Marina Saviani, de 22 anos, do terceiro ano de jornalismo: "Eu sempre admirei muito o trabalho do Rubem. Até o momento da entrevista, já tinha entrevistado algumas pessoas conhecidas, mas ninguém exatamente na área da literatura - que é uma de minhas paixões. Quando surgiu a oportunidade de fazer uma matéria livre para a faculdade, resolvi tentar entrevistá-lo - e deu certo!"

Sobre o que sentiu ao estar com o autor, ela continua: "Primeiramente, senti uma paz imensa. Posso dizer que Rubem Alves é uma pessoa profunda em todos os sentidos. Quando cheguei em seu apartamento, ele estava sentado no sofá e, ao me receber com um "entra, menina. pode sentar aqui", tive uma mistura de sentimentos entre um sonho realizado e a honra de saber que estava em minhas mãos a função de conhecer um lado ainda não abordado de um personagem tão célebre da literatura".

Para Marina, aos 80 anos recém completados na época, Rubem exalava a poesia
adquirida em estações de uma vida inteira e a angústia de uma velhice que passou como o vento - alvoroçando momentos guardados na memória.

Abaixo, divulgarei a entrevista na íntegra, como se ele ainda estivesse vivo, visando eternizar suas palavras e o momento.

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Em seu octogésimo ano, celebrado contemporaneamente ao irônico momento histórico vivido pelo país, o "garoto dos ipês amarelos", sentado no sofá com as perns cruzadas, observa as nuvens no céu e relembra a infância que não volta mais. O apartamento é acolhedor, pontuadamente decorado por elementos de muito bom gosto. Na sala, uma estatueta de Buda divide livremente o espaço com versos fixados na parede que, juntamente ao conglomerado de livros, escancaram deliciosamente a paixão de Rubem pelas palavras. A diversidade das peças, harmônicas, revelam de modo intrínseco a personalidade multifacetada do intelectual que, hoje, é composta, como afirmou, por "fragmentos de saudade".

Calmo e disposto a discorrer da velhice ao emaranhado político atualmente vivido pelo país, Rubem Alves inicia a nossa conversa com um olhar distante e perdido no tempo culpa exata do questionamento sobre um tema talvez ainda mais complexo que qualquer assunto sobre o qual discursou: a felicidade.

A felicidade é feita de momentos ou é um estado de alma?
Rubem Alves - Momentos... Momentos tão efêmeros. Especialmente quando, como no meu caso, se tem pouco tempo pela frente. Estou me lembrando de um versinho do Mário Quintana, no qual ele diz exatamente que não existe felicidade, mas existe um horizonte. Este horizonte é o que nos dá um pouco de felicidade. Não espero grande coisa da vida, ainda mais que estou velho e doente.

Rubem Alves tem muitas facetas. Você acha que estes diversos “eus” coexistem ou existiram de modo isolado?
Rubem Alves - Eu me lembro das coisas, mas nem todas as coisas me dão saudade. Eu, agora, aos 80 anos... O que é o meu coração? São fragmentos de saudade. E é interessante que a saudade vem, a gente escreve, lê de novo e abandona tanta besteira que escreveu... Você nem pode imaginar.

Você se arrepende de algo que fez ou escreveu?
Rubem Alves - Me arrepender, eu acho que não me arrependo. O que eu fiz está feito. 

Falando um pouco do passado, em uma entrevista você revelou que, quando criança, tinha medo que todas as nuvens do céu caíssem sobre sua cabeça. Este garoto ainda mora dentro de você?
Rubem Alves - Mora, claro que mora! (sorriso) Claro que eu sei que o céu não vai cair, mas poeticamente! Eu estou me lembrando que meu pai foi muito rico e um dia perdemos tudo e fomos morar na roça. Eu me lembro! Estava deitado em um gramado na roça e ficava olhando para as nuvens e pensando: "como as nuvens ficam lá em cima? O que faz elas ficarem?" E fico aqui pensando: " o que será que as nuvens pensam?"

Como seus filhos te ajudaram na percepção do universo infantil?
Rubem Alves - Uma parte muito importante da minha vida foi escrever histórias para crianças. A mais famosa delas foi " A menina e o pássaro encantado" foi
meu primeiro grande amor.

Escreveu para a sua filha?
Rubem Alves - Foi para a minha filha e depois foi para uma outra mulher - a
mesma história. 

A psicanálise estuda uma constante briga entre o impulso e o autocontrole. A felicidade existe no impulso ou no autocontrole?
Rubem Alves - Eu parei de pensar nessas coisas, parei de ser teórico. Eu não sou mais um homem da teoria, não estou buscando a teoria. As coisas acontecem e eu, agora, sou um borbulhão de experiências. Eu não tenho mais essa preocupação, estou vivendo pelas emoções.

No livro "O futebol levado ao riso", você afirma que se não existisse o esporte a vida de milhares de pessoas estaria no tédio. Como você vê a Copa no país?
Rubem Alves - Eu vou reescrever este livro, exatamente por causa desse furor de futebol. É uma loucura, o único futebol que me interessa é quando o Brasil está em jogo. É uma coisa que está animando o Brasil, mas não estou muito confiante no que isso vai dar.

Especula-se que, na Copa, ocorram protestos pelo país. Qual é a sua percepção deste cenário?
Rubem Alves - Eu não entendo o que está acontecendo, está além! Todo mundo na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro? Uma loucura! Não consigo entender as pessoas quebrando tudo. É um mundo diferente que eu não consigo entender...

Falando sobre a educação, o Brasil está no 8° lugar em número de analfabetos adultos...
Rubem Alves - Olha, eu não sei o que fazer com essa informação. É o 8 º lugar... Não sei se os políticos estão pensando nisso. Eu sou educador, já escrevi um mundaréu de livros sobre educação e veja a situação: os nossos meninos não sabem ler. Eu fico perplexo, sou um educador sem palavras...

Sobre a passagem do tempo, Caetano Veloso disse, em uma entrevista, que envelhecer é uma merda...
Rubem Alves - Eu acho duas (merdas)! Estou admirando mais o caetano agora. Risos.


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